O caráter combativo de uma trajetória longa e diversificada

Trabalho de levantamento e catalogação integral de sua produção é importante ferramenta para críticos e historiadores

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

A "caipirinha vestida de Poiret", como foi chamada Tarsila do Amaral pelo seu então marido Oswald de Andrade, numa tentativa de amalgamar suas origens e seu requinte, é bem mais do que a fusão bem-sucedida entre a potente elite agrária brasileira e o charme inovador proveniente da efervescente Paris do início dos anos 20. Ela corporifica o mito fundador do modernismo brasileiro. E constrói uma obra capaz de aliar aquilo que de mais avançado se produzia na Europa, o cubismo - recomendado pela pintora como um aprendizado obrigatório, um "serviço militar" pelo qual todos os artistas deveriam passar - à busca daquilo que poderia constituir o cerne de uma nova arte, inovadora e nacional: a tentativa de figurar pictoricamente aquilo que pode ser considerado o que há de mais genuinamente brasileiro, seu povo e sua paisagem. A fase áurea de sua produção, situada entre o retorno da primeira fase parisiense em 1922 (apesar de considerada uma das figuras-chave do primeiro modernismo, que tem por momento mais estrondoso a Semana de Arte Moderna, Tarsila ainda não se encontrava no Brasil quando esta ocorre) e as telas de sua fase mais politizada, após o retorno da viagem à Rússia no início da década de 30, demonstram com perfeição o caráter emblemático e combativo de sua obra. Obras-primas desse período, que puderam ser vistas recentemente na exposição Tarsila Viajante (realizada este ano inserida nesse projeto mais amplo de realização do catálogo raisonné da artista), deixam isso bem claro. Evidentemente, reunir num mesmo espaço ou num mesmo estudo telas como a trilogia das figuras femininas míticas e oníricas da Negra, Antropofagia e Abaporu ou telas pungentemente debruçadas sobre o drama social brasileiro, como Segunda Classe e Operários é essencial para avançar na compreensão da arte brasileira do século 20 e a importância central de Tarsila nesse enredo. No entanto, esse processo de conhecimento não se dá apenas na evidência dos momentos radiosos. Entender a produção da artista, seus avanços e recuos, as influências várias (que vão do mestre Pedro Alexandrino ao rigor construtivo de Lhote e Léger), seus legados para as novas gerações e as diversas linhas de interpretação e análise que se entrecruzam em sua história, requer um olhar cauteloso e investigativo, uma atenção para momentos mais turvos, porém talvez mais indicativos do que estava em jogo nas tensões e anseios daquele período. É necessário dedicar para isso uma atenção cuidadosa também para as obras de menor porte, para os desenhos preparatórios. Em suma, para detalhes de uma trajetória bem mais longa e diversificada do que o período normalmente contemplado quando se fala da pintora. Daí a importância essencial desse trabalho de levantamento e catalogação integral de sua produção, uma ferramenta de trabalho de grande auxílio para os historiadores e críticos. Afinal, conhecer melhor a obra de Tarsila, seus caminhos e descaminhos, é conhecer melhor a arte brasileira e um estímulo para que se façam mais e mais trabalhos dessa envergadura.

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