O cantor que trocou a ópera pelo mundo pop

Pavarotti, felizmente, vai ser lembrado pelas gravações dos anos 1960 e 1970, não pelos duetos com o vocalista Bono Vox

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

Nascido em Modena, na região de Emilia Romagna, Itália, em 1935, Pavarotti estreou nos palcos no dia 29 de abril de 1961, no papel de Rodolfo, da ópera La Bohème, de Puccini. Quatro anos depois, o tenor, então com 30 anos, fez sua estréia americana ao lado de um mito da ópera, Joan Sutherland, que o recomendou para substituir um cantor doente na ópera de Miami. No mesmo ano, 1965, apresentou-se pela primeira vez no templo da ópera, o Teatro alla Scala de Milão, interpretando novamente o papel de Rodolfo.O triunfo viria, porém, em 1969, quando Pavarotti cantou I Lombardi em Roma ao lado de Renata Scotto. Gravado num selo independente, o disco teve repercussão imediata e abriu as portas do Metropolitan para o tenor, em 1972. Não demorou para que ele se tornasse uma figura popular, graças a seu jeito simpático, risonho e a um guardanapo que virou sua marca registrada. Essa história começa em 1973, quando, ao pedir um lenço para sua estréia em Liberty, Missouri, ganhou um guardanapo em seu lugar. Outra marca registrada de Pavarotti foi a ária Nessun Dorma, da ópera Turandot. Desde 1990, quando foi escolhida como tema da Copa do Mundo, a ária de Pucini foi cantada inúmeras vezes por Pavarotti, que soube aproveitar bem seu carisma e familiaridade com as câmeras de televisão.É dessa época o primeiro concerto dos três tenores nas termas de Caracalla, Roma, dirigido pelo maestro Zubin Mehta, que resultou no disco clássico mais vendido da história. Nos anos 1990 Pavarotti cantaria em diversos concertos ao ar livre, entre eles o primeiro dedicado a um programa erudito no Hyde Park de Londres, que reuniu 150 mil pessoas. Esse número seria ultrapassado pelo concerto que Pavarotti fez no Central Park de Nova York em 1993, atraindo 500 mil pessoas para o parque.Os três tenores apresentaram-se em todas as copas mundiais de futebol desde 1994 até 2002. O crítico Norman Lambrecht condenou exaustivamente essas apresentações. Desde que começaram a se apresentar juntos, dois deles , Luciano Pavarotti e José Carreras, pararam de cantar ópera, observou com justiça o autor de Quem Matou a Música Clássica?. As pessoas só podiam ver nos palcos das casas de ópera o espanhol Plácido Domingo.Não satisfeito em cantar com os colegas da ópera, Pavarotti fez diversas apresentações ao lado de músicos populares, entre eles a cantora Vanesssa Wiliams e o grupo de rock irlandês U2, com o qual cantou Miss Sarajevo. Tudo por uma boa causa, mesmo que o preço para a música seja alto. Pavarotti, justiça seja feita, sempre se colocou a serviço da ONU em campanhas pela paz e o desarmamento, fazendo apresentações na Bósnia e outras regiões de conflito.A última gravação foi feita há três anos, Ti Adoro, compilação de seus maiores sucessos cantados no estilo ''''popera'''', ou seja, misturando uma interpretação operística com acento pop. Seu empresário por 36 anos, Herbert Breslin, um ano depois, isto é, em 2004, lançou o livro O Rei e Eu, em que, comentando o estilo, defende que, na verdade, Pavarotti jamais aprendeu a ler partitura direito, tendo dificuldade para acompanhar as partes orquestrais.Descontando o ressentimento de Breslin, são procedentes as críticas que fazem ao tenor por certa negligência, embora Breslin tenha sido, como se diz, o homem por trás da máscara. Foi ele quem levou Pavarotti para a televisão e, se não pode ser culpado por todos os erros de seu pupilo, não há como negar que o crossover performático ao lado de cantores pop como Bono, do U2, é, no mínimo, um equívoco lamentável devido à influência do empresário. Breslin, não se pode esquecer, foi o homem que colocou um ridículo chapéu fedora vermelho no maestro George Solti. Conhecia o (mau) gosto popular.Pavarotti não fez concessões ao público médio. Ele era a própria cara desse público médio com sua brega mansão italiana e sua falta de escrúpulos em cantar para qualquer um, desde que pagasse bem, como o empresário húngaro Tibor Rudas, que lhe ofereceu US$ 1 milhão para cantar num cassino. Breslin conta que Pavarotti gostava tanto de dinheiro que sugeriu a ele um encontro com Nixon para pedir ao então presidente norte-americano isenção de impostos para cantores líricos. Argumento: a vida deles não é muito longa e precisam garantir a aposentadoria.Há três anos o tenor fez seu último papel numa ópera, o de Cavaradossi, na Tosca montada pelo Metropolitan, recebendo uma ovação de 12 minutos. Nada excepcional para quem entrou para o livro dos recordes como o cantor lírico que mais vezes (165) voltou ao palco para agradecer os aplausos. É inegável o carisma de Pavarotti, mas o certo é que, desde os anos 1980, foi incapaz de renovar seu repertório ou se interessar por peças que poderiam ter apontado outro caminho para o tenor além do óbvio. O mundo da ópera vai lembrar dele por suas apresentações e gravações dos anos 1960 e 1970, quando sua voz e dicção eram claras para interpretar Donizetti e nem pensava em cantar ao lado de Roberto Carlos. Como ele, Pavarotti nunca foi uma presença intelectual.

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