''O brasileiro é mais PMDB que outra coisa''

Vivendo no cinema o oposicionista Carlos Lacerda, Marcos Palmeira critica o espírito de centrão que preside a vida do País e a burocracia que atrapalha a arte

, O Estadao de S.Paulo

09 Março 2009 | 00h00

Carioca, vascaíno, ator e defensor de alimentos orgânicos. São muitas as camisas que Marcos Palmeira, 45 anos, veste todos os dias. Destemido, o ator que encarna o polêmico líder político Carlos Lacerda, provocador exemplar dos governos nos anos 50 e 60 - no filme Bela Noite para Voar dirigido pelo seu pai, Zelito Viana - , não tem papas na língua. "Talvez o brasileiro seja mais PMDB do que qualquer outra coisa", adverte. Dividido entre as gravações da novela Três Irmãs e a agricultura orgânica, ele compara: "São dois ministérios que não têm nem um décimo da força que deveriam ter, o da Cultura e o do Meio Ambiente". Passando por futebol, cinema e economia, ele conversou com a coluna, também, sobre o filme, que estreia sexta-feira. A seguir, trechos da entrevista. Como apareceu esse convite para interpretar Carlos Lacerda? Esse filme é um projeto antigo do meu pai com o produtor Ney Sroulevich, que, infelizmente, no meio desse processo, faleceu. A esposa dele, a Claudia, assumiu a produção e meu pai entrou como diretor. E resolveram me convidar para fazer o papel do Lacerda. Como encara viver as situações de um político? É difícil. Porque ele foi uma figura muito polêmica. Para minha pesquisa, entrei em contato com a família dele - porque ele foi muito amado por um grupo e odiado por outro. Então tentei construir de uma forma sem julgamento, mostrando simplesmente os fatos históricos que o envolveram. E como você vê a política brasileira de hoje? Acho que tudo precisa ser repensado. Quando a gente vê uma história dessas como a do Edmar (Moreira, afastado da Corregedoria da Câmara). Ou como a declaração que eu li do Severino Cavalcanti, dizendo que o povo esquece tudo e reelege os políticos. Isso me faz concluir que a gente tem que repensar. Só de ver a força do PMDB, esse centrão mais uma vez assumindo, é muito triste. Mas talvez o brasileiro seja mais PMDB do qualquer outra coisa. Somos todos um pouco essa coisa de querer levar vantagem. No fundo a gente ainda não deu essa virada política. Como é trabalhar lado a lado com o seu pai? Muito bom. Eu tenho maior admiração por ele como diretor, e o astral dele no set é incrível. Mas é uma figura ainda pouco explorada pela cultura brasileira. Porque tem um histórico de cinema muito relevante. Foi um grande documentarista e produtor na época do cinema novo, sócio do Glauber. E hoje está aí, com 70 anos, com pires na mão, pedindo dinheiro emprestado para fazer os filmes. Isso tudo é um pouco o retrato de como a gente trata a nossa cultura. Você tem vontade de dirigir? Eu até tenho, mas ainda não me sinto capaz disso. Apesar de ser cada vez mais um ator muito palpiteiro. Com a experiência, a gente vê que dá para arriscar um voo mais alto. Como você avalia a produção do cinema nacional? Sempre gostei de cinema brasileiro. Mas ainda não vemos nosso cinema como um espelho da nossa realidade. Temos dificuldades com salas de exibição e dependemos da boa vontade de alguém para produzir um filme. Há uma burocracia cada vez maior, um controle do Estado que acho esquisito. Algum plano de alçar uma carreira internacional? Não tenho muito essa pretensão. Minha vontade é fazer bons personagens e entreter as pessoas com mais qualidade. Mas eu faço algumas coisas, como o Mandrake, que está sendo exibido nos EUA agora. Falando em Mandrake, você acredita que o Brasil tem potencial para se tornar produtor de séries? O Brasil é um grande produtor de telenovelas. Mas estamos abrindo esse mercado das séries. Principalmente com a HBO, que fez Alice, Filhos do Carnaval, o Mandrake. Estamos mostrando que também podemos fazer séries de sucesso. Acho que temos uma riqueza muito grande. O que eu lamento é que o Brasil ainda não tenha descoberto isso. São dois ministérios que não têm nem um décimo da força que deveriam ter para a gente ter uma transformação social: o Ministério da Cultura e do Meio Ambiente. Como produtor de alimentos orgânicos, você sentiu algum efeito dessa crise econômica? A crise abala tudo. Serve até como justificativa para muitos problemas que não têm a ver necessariamente com ela. Dentro da agricultura orgânica não há muito efeito, porque essa área não vive de royalties, ou de grandes investimentos. É mais agregada à agricultura familiar, de base. Nesse sentido, a gente sai até ganhando com a crise. Satisfeito com a eleição de Barack Obama nos EUA? É muito importante, a oportunidade de virar uma página negra da era Bush. Estou com muita esperança, o século XXI começa agora. Você é um amante do futebol. O que acha da situação que os nosso jogadores vivem hoje aqui e no exterior? O futebol virou um grande negócio. É só avaliar a situação dos clubes. O que o Corinthians passou, o que o Vasco da Gama está passando, em tudo isso existe muita corrupção. Além disso, o marketing é muito forte, temos uma necessidade de criar craques - e isso é fruto de uma certa carência. Nós somos os melhores formadores de jogador de futebol do mundo, mas não temos a melhor estrutura para isso. E sem estrutura como vamos abrigar uma Copa do Mundo, em 2014? Eu acho genial ter a Copa no Brasil, mas precisamos antes fazer uma lavagem de ética. As contas precisam ser prestadas. Os Jogos Pan-Americanos no Rio foram um exemplo claro da falta de condição, do abandono. É o "espírito PMDB" de ser. Não é o dono, mas manda. Então precisamos descobrir quem quer alguma coisa para o todo e de quem quer só melhorar o seu próprio. MARILIA NEUSTEIN

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