O Brasil está nos apelidos

Você nunca mais vai assistir a uma partida de futebol com os mesmos olhos depois do livro Veneno Remédio, de José Miguel Wisnik. Isso se você for um dos leitores, é claro. Como escreve o próprio autor, nos preliminares da obra, não está claro onde eles estão: ''Em geral, quem vive o futebol não está interessado em ler sobre ele mais do que a notícia de jornal ou revista, e quem se dedica a ler livros e especulações poucas vezes conhece o futebol por dentro.''Mas sou eu um desses seres híbridos. Aprecio as obras tanto do jogador Neto como as do professor Antonio Candido. E quero crer que, como eu, existam outros. Devorei Veneno Remédio, um ensaio de 450 páginas, com gosto. Fazia tempo, aliás, que não me passava pela frente uma reflexão tão sugestiva e abrangente a respeito da natureza da cultura brasileira.A proposta do José Miguel é clara: analisar o futebol à luz da crítica literária. Fazer com o ''esporte bretão'' o mesmo que a crítica universitária faz com Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ou seja, dissecar o jogo com ferramentas conceituais e inserir os resultados na discussão geral elaborada ao longo do século 20 por intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr. e Antonio Candido.Discordo do ilustre colega Daniel Piza, nesse sentido, para quem Veneno Remédio é excessivamente barroco. A proposta é mesmo levar a bola para o campo dos universitários e ensaístas. O futebol está para o Brasil como as pirâmides estão para o Egito. Merece fazer parte das mais altas esferas dos nossos estudos culturais.José Miguel conta a história do futebol no mundo, com ênfase no Brasil e nos seus maiores jogadores, sobretudo os atacantes e meias. Pelé, Garrincha, Rivelino, Ademir da Guia, os Ronaldos e Robinho são alguns dos personagens centrais dessa narrativa. Dialogam com Mário de Andrade e Machado de Assis, entre outros escritores.A comparação de Macunaíma e Garrincha, dois mitos da nossa cultura, chega a provocar risos. Garrincha consegue ser mais macunaímico do que o próprio Macunaíma. E este último é, afinal, fictício. Como escreve José Miguel, comentando a biografia do jogador: ''As peculiaridades do acesso inicial à fala, combinadas com o transtorno das noções temporais, a intimidade selvagem com os rios e os bichos, a mistura de reverência respeitosa aos mais velhos com ingovernabilidade incorrigível, a capacidade de desconcertar e seduzir, tudo isso pode ser reconhecido sem dificuldade, também, nas primeiras páginas da saga do ''herói sem nenhum caráter''.''Ronaldinho Gaúcho, para dar outro exemplo, é analisado à luz do pós-modernismo. ''Parece dominar o repertório do futebol a ponto de fazer de toda jogada algo como uma citação... Seus procedimentos constituem-se numa verdadeira antologia da elipse, em que se incluem o elástico de Rivelino, os chapéus de Pelé, a cobrança de falta de Zico, o passe em concha de Ademir da Guia, a finalização por cobertura de Romário, o calcanhar de Sócrates, a folha-seca de Didi, a pedalada de Denílson e da geração 2000.'' O ex-meia do Barcelona é ''artista de uma época saturada''.Veneno Remédio discute, ao fim, como o futebol pode contribuir para o entendimento da cultura brasileira, nas suas linhas gerais. É nesse ponto do livro que os apelidos dos jogadores - ''Pinga ou Bigode, Tostão ou Canhoteiro, Grafite ou Magrão'' - são integrados à noção do ''homem cordial'', elaborada por Sérgio Buarque de Holanda no clássico Raízes do Brasil. Entendem-se melhor tanto os apelidos como também o homem cordial, uma noção esquiva. Em resumo: o Brasil está nos apelidos. São eles a base da cordialidade. Nunca havia pensado nisso, mas é a mais pura verdade, e uma sacada primorosa.Terei a oportunidade de mediar uma discussão entre José Miguel Wisnik e outro grande intérprete do futebol, Roberto DaMatta, na Flip, a Festa Literária de Paraty, dia 6 de julho, às 15 horas, na mesa ''Folha seca''. Apareça.

Matthew Shirts, O Estadao de S.Paulo

23 de junho de 2008 | 00h00

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