O Brasil da sanfona põe fogo no público de Brasília

O Milagre de Santa Luzia é bem recebido pelo público

Luiz Zanin Oricchio, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2008 | 00h00

Não se sabe se O Milagre de Santa Luzia irá encantar o júri. Mas certamente encantou o público no primeiro dia de competição no Cine Brasília. Levantou a galera e foi aplaudido em vários momentos durante a projeção e também ao fim. O documentário do estreante Sergio Roizenblit ganha a platéia por diversos motivos. O primeiro: filme sobre música ou músicos costuma dar certo em festivais, em especial em Brasília. Segundo (provável): diante de uma platéia politizada (o público predominante é universitário), pegou bem tanto o discurso do diretor quanto o tom do filme. Roizenblit diz, explicitamente, que anda cansado do discurso "para baixo" sobre o Brasil. Sem ser ufanista, declara seu amor ao País e procura focalizá-lo por um dos seus ângulos favoráveis, o talento musical do povo. A linha que costura a partitura composta por Roizenblit é o acordeão, instrumento de origem européia adotado por aqui como se produto nacional fosse. Há um santo protetor que vela pelo filme na contraluz - o grande Luiz Gonzaga, pernambucano de Exu, que nasceu no dia de Santa Luzia, e recebeu o nome de Luiz.O curioso é que Luiz Gonzaga, esse santo tutelar da sanfona e do baião, não aparece em uma única imagem do filme. Fica na penumbra. Em compensação, Roizenblit vai atrás de sanfoneiros de Norte a Sul do País; são 26 artistas em 11 cidades. O mestre-de-cerimônias desse périplo musical-amoroso é o principal sanfoneiro da atualidade, Dominguinhos, herdeiro do legado de Luiz Gonzaga. O próprio Dominguinhos, a simpatia em pessoa, dirige a caminhonete que percorre quase todas as cidades mostradas no filme. Arredio a aviões, o sábio Dominguinhos põe o pé na estrada e vai conversando e tocando com os sanfoneiros que encontra.Assim, desfilam pela tela, e tocam, mestres como o próprio Dominguinhos e Sivuca, Arlindo dos 8 Baixos, Genaro, Pinto do Acordeon, Camarão, Oswaldinho, Mário Zan, Edson Dutra, Gilberto Monteiro, Toninho Ferraguti, entre outros. O diretor tem o bom senso de deixar cada instrumentista dar o seu recado. Raramente corta, deixa as músicas fluírem por extenso. Assim, podemos ouvir por inteiro algumas obras-primas, como, para citar apenas uma, a interpretação de Camarão para Doce de Coco, de Jacó do Bandolim.Não se trata apenas da apresentação de números musicais e personagens. Roizenblit não se furta, em suas andanças, de mostrar a gente marcada pelas dificuldades da vida. É o Brasil do interior, profundo, pobre, às vezes miserável, mas que mantém intacta a sua dignidade. O diretor vale-se de uma distinção costumeira feita por Ariano Suassuna: existem dois Brasis; o Brasil oficial, ridículo e burlesco; o Brasil real, generoso e criativo. O povo está acima de suas elites. Estas sentem vergonha do País e, em sua frivolidade, são incapazes de perceber o próprio ridículo. Esse registro poderia ser ainda mais agudo se o diretor economizasse em recursos como exibir fartamente os crepúsculos e céus azulados. Parece haver também um problema de montagem, que deixa uma barriga na segunda metade desse filme, que, tudo somado, é bem agradável de ver - e ouvir. O repórter viajou a convite da organização do festival

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