O balanço da companhia

Um ano depois de sua criação, a São Paulo Companhia de Dança estreia duas novas coreografias e sua diretora fala sobre a busca por excelência artística

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

26 Março 2009 | 00h00

Holofotes à vista. As cortinas vão se abrir e, em destaque, estará o resultado do primeiro ano de trabalho da São Paulo Companhia de Dança, a companhia oficial do Estado. A data, crucial na vida de um grupo que se estrutura para atingir a excelência artística, coincide com a estreia de dois novos espetáculos - Gnawa, de Nacho Duato, e Ballo, de Ricardo Scheir. Como era de se esperar em um projeto desse porte, houve polêmicas na fase inicial de sua implantação, principalmente em torno do investimento de R$ 13 milhões para a manutenção anual do corpo de baile pela Secretaria de Cultura e de outros R$ 300 milhões para a criação de um complexo arquitetônico que sediará a companhia. Trata-se da construção do Teatro de Dança de São Paulo (nome provisório), no bairro da Luz. Abaixo, Iracity Cardoso, bailarina, coreógrafa e diretora artística da companhia, fala ao Estado sobre o primeiro ano de trabalho à frente do grupo, as principais realizações, os critérios para a montagem do repertório e, também, sobre as críticas que já recebeu. Iracity prefere ressaltar o fato de ter conseguido, em parceria com a diretora artística adjunta Inês Bogéa, realizar todas as metas propostas para este primeiro ano de atividades. "Hoje inauguraremos o nosso site (www.saopaulocompanhiadedanca.art.br) e, em junho, vamos lançar um livro de crônicas sobre o grupo, escritas por diversos autores", adianta. Quais foram as principais realizações da São Paulo Cia. de Dança neste primeiro ano de vida? Todos os projetos previstos pela companhia foram realizados, o que foi maravilhoso. Dois programas diferentes; Corpo-a-Corpo com professores e estudantes, nosso trabalho de formação de público; um projeto de memória que resgatou cinco grandes figuras da dança (Ismael Guiser, Penha de Souza, Ady Addor, Marilena Ansaldi e Ivonice Satie), veiculadas pela TV Cultura e distribuídos para escolas regulares e de dança, universidades e bibliotecas de todo o Brasil. Neste ano, temos programadas até agora nove cidades do interior do Estado, sem contar as Viradas Culturais aqui e em Araraquara. Também iremos para Salvador, Joinville e Porto Alegre. Como a cia. recebeu as críticas em torno de investimentos oficiais e da falta de unidade do grupo? Quando trabalhamos com algo que tem exposição pública, sempre estamos sujeitos à crítica e ao elogio. A companhia recebeu isso tudo trabalhando bem. Somos um grupo que está em ação. Trabalhamos para atingir a qualidade, que já está aparecendo em alguns projetos. Mas é preciso saber que a dança exige um trabalho minucioso, que vai devagar. Esses corpos precisam ser afinados. Quantos bailarinos a companhia possui hoje? Há previsão de novas audições? Outro ponto bastante criticado foi o espaço dado a estrangeiros dentro da companhia. São 47 bailarinos. Oito não tiveram seus contratos renovados, por questões de afinidade com a companhia. Onze entraram por meio das audições realizadas em dezembro. E há aqueles que estão contundidos - enfim, no cômputo geral, são 43 bailarinos atuando hoje. O nosso repertório é muito vasto e exigente em relação ao intérprete, os bailarinos precisam abraçar isso de corpo e alma. Certamente vamos fazer audições a cada ano. Atualmente temos três bailarinos estrangeiros, o cubano Elias Bouza e o alemão Sören Magnus, que já eram residentes no Brasil, e a argentina Irupé Sarmiento. Há muita gente interessada em trabalhar conosco, principalmente brasileiros que foram trabalhar no exterior por falta de oportunidade aqui. Além disso, também queremos continuar oferecendo espaço para novas criações. No segundo semestre, a coreógrafa Daniela Cardim, que atualmente está no Het Nationale Ballet, de Amsterdã, estreará um trabalho em outubro. Como é feita a escolha do repertório? A primeira criação, que começou com uma ideia de transição pelas várias épocas da dança, se transformou com o passar do tempo e deu origem ao Polígono, balé clássico já fragmentado pelo moderno e contemporâneo. No segundo programa, tivemos em mente a máxima de que a companhia não existe se o conjunto não existir. Les Noces foi um trabalho para o conjunto. O indivíduo, nesse caso, tem que estar a serviço do conjunto, assim como em Serenade. É preciso unificar para que a companhia comece a ter a sua personalidade. Entreato, de Paulo Caldas, já foi um trabalho feito para as individualidades, cujas aparições são evidentes no conjunto. Para o futuro também queremos tocar o século 19, com os clássicos românticos, mas ainda é prematuro, a companhia precisa estar mais sólida. A partir do resultado dos espetáculos é que poderemos investir cada vez mais em novos desafios. Agora já estamos conversando sobre o que deve acontecer em 2010. Ben Huys, há sete anos na equipe de ?restauração? do The George Balanchine Trust, constatou que "a cia. é nova, tem entusiasmo, mas ainda precisa encontrar sua voz". A São Paulo Cia. começa a encontrar sua voz. Precisamos de alguns anos para estabelecer perfil mais sólido. Por enquanto está em busca de identidade, o que é normal, pois o grupo é novo. Quem for assistir aos espetáculos é que vai nos dizer. Serviço São Paulo Cia. de Dança. De hoje a dom., Les Noches e Gnawa; de 2 a 5/4, Serenade e Ballo. Teatro Sérgio Cardoso (856 lug.). R. Rui Barbosa, 153, 3288-0136. 5.ª a sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20. Até 5/4

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