O assassino no espelho

Sai no Brasil o primeiro livro da série Dexter, de Jeff Lindsay, que fala sobre o mais charmoso serial killer da TV paga

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

Assassinos em série são figuras recorrentes da literatura policial. Nada melhor do que um sujeito que transforma o ato de matar num ritual requintado, tirando o sono de algum detetive de bom coração, para levar o leitor a atravessar páginas e páginas de uma história. Há sempre os que perseguem prostitutas e até os que perseguem ruivas - e pode haver também os que saem degolando prostitutas ruivas. Mas nenhum serial killer é como Dexter Morgan, um psicopata que mata psicopatas.Chamado hoje de "o serial killer mais amado dos Estados Unidos", por mais extraordinário que isso possa parecer, Dexter virou estrela de um seriado de TV, personificado pelo ator Michael C. Hall (da série A Sete Palmos, da HBO), depois de protagonizar com bastante sucesso uma série de livros, de Jeff Lindsay. O primeiro volume - Dexter, A Mão Esquerda de Deus - acaba de chegar às livrarias brasileiras, um lançamento da editora Planeta (270 páginas, R$ 31,40).O lançamento do livro em português, em tradução de Beatriz Horta, coincide com a chegada à TV americana do terceiro ano da série, que vai ao ar a partir do dia 28, no canal Showtime, e com a apresentação da segunda temporada do seriado no Brasil, a partir do dia 9 de outubro, às 22 horas, no canal a cabo FX. "Essa idéia me veio à cabeça quando pensava numa maneira de tornar um serial killer simpático, e isso me atraiu pela ambigüidade moral", explica o autor, em entrevista ao Estado. O charme da ambigüidade é, de fato, o que mais atrai na trama criada por Lindsay, com inteligentes jogos de palavras e imagens que resultam numa história ao mesmo tempo sensível e dotada do mais fino humor negro. Dexter é um perito em espirros de sangue, que trabalha numa divisão de homicídios da polícia de Miami. É daqueles sujeitos que analisam a cena do crime e, pelo estrago das manchas de sangue no chão e nas paredes, sabe dizer como a vítima foi atacada. O mais curioso é que Dexter é obcecado por asseio. Quando o conhecemos, nem sexo ele é capaz de fazer (e, por isso, namora com Rita, ex-mulher de um viciado em drogas que, traumatizada, não está também preparada para ter relações sexuais).Mas isso é superfície. No fundo, o agente usa o privilégio de estar tão perto das investigações da polícia para escolher suas presas, "gente que merece morrer", como define o pai adotivo de Dexter, Harry. Conforme a história avança, numa troca bizarra, nosso herói usa o sexto sentido especial que tem para caçar criminosos numa espécie de combate ao crime - é um policial que pensa como assassino, justamente, por ser assassino. "A gente não se sente capaz de fazer qualquer julgamento, ninguém ali é realmente bom ou mau", anota Lindsay. "Eu quis chamar a atenção para o que faz as pessoas aplaudirem um cara ruim e por quê."Quando o leitor encontra Dexter, ele já é um homem feito e, digamos, bem resolvido. Aos poucos, flash-backs dão conta de que ele sofreu certo trauma quando criança, pouco antes de ser adotado por Harry, um policial. Um ou outro cachorro morto na vizinhança, Harry logo percebe o instinto assassino do filho. E trata de canalizá-lo. "Há gente que merece morrer, Dexter", ensina o pai. De arrepiar.Uma enfermeira que matava pacientes de um hospital aos poucos. Um padre que abusava sexualmente e matava garotinhos da paróquia. Dexter poupa as vidas de futuras vítimas picotando assassinos - enquanto vivos. E terá o grande embate de sua vida quando encontra um assassino que segue a sua cartilha. Esse é o mote do livro em que a caçada de Dexter ao "assassino do caminhão de gelo" se confunde com os detalhes do passado do protagonista, como numa sala de espelhos.Deveria chocar, mas não choca. Tanto no livro quanto na série de TV, torcemos por Dexter. E para Lindsay essa simpatia não tem exatamente a ver com o lado vingador do personagem. "O fato de ele ser um vingador é apenas parte da justificativa que damos para nós mesmos por gostar de um sujeito como ele. E nós gostamos dele porque achamos que ele é inocente. É um bom sujeito, exceto pelos assassinatos ocasionais que comete", teoriza o autor.Lindsay lançou este primeiro livro da série Dexter em 2004. Depois dele vieram Dearly Devoted Dexter (2005) e Dexter in the Dark (2007), cujos direitos de publicação no Brasil já foram comprados pela Planeta. No ano que vem, o autor deve lançar mais um da seqüência, Dexter by Design. A série de TV veio logo depois do lançamento do primeiro livro, em 2006. Quem já é fã da série e lê os livros logo percebe que a adaptação é mesmo certeira e a interpretação de Hall, um primor. E até desconfia que o jeito cinematográfico com que Lindsay constrói suas cenas no livro denuncia uma intenção prévia de levar a história do serial killer às telas. Ele nega. "Qualquer escritor espera um holofote como esse sobre sua obra. Mas meu jeito de escrever, em primeiro lugar, parece cinematográfico porque é assim que imagino as cenas. Em segundo lugar, acho que é porque eu escrevi roteiros de TV e cinema antes", justifica ele, que diz ainda não ser grande fã de literatura policial, mas de Hemingway (por coincidência, ele é casado com uma sobrinha do escritor, a também escritora Hilary Hemingway) e Edgard Rice Burroughs.

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