O artista que antecipou o photoshop na colagem

A morte de Tide Hellmeister marca o desaparecimento de um olhar menos dependente da tecnologia

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

Ele ilustrou a coluna do polêmico Paulo Francis durante sete anos, de 1990 a 1997, no Estadão. Morto no dia 31, aos 66 anos, o artista Tide Hellmeister pertenceu a uma geração que ainda olhou com desconfiança para a computação gráfica, preferindo as mãos como meio de expressão. Tide usou-as para manejar uma tesoura, com a qual realizou mais de 1.500 ilustrações apenas para a coluna de Francis (todos os originais guardados cuidadosamente por ele em sua casa). Dizia que colagem era tudo, mas colagem no sentido de ?assemblage? e dentro do espírito formal cubista que orientou grandes criadores como Braque no processo embrionário da arte moderna (começo do século passado).A "collage" de Tide Hellmeister foi um meio de investigação formal que sempre perseguiu a justaposição de significados. Não funcionou apenas como ilustração dos textos de Francis, mas reinterpretou seu conteúdo. Artista ligado à tradição, ele, no entanto, não foi resistente às inovações, tendo sido um dos responsáveis pelo revolucionário projeto gráfico original do Jornal da Tarde. E, muito antes do advento da edição computadorizada, Hellmeister já realizava no papel a junção de imagens aparentemente díspares, que formavam um conjunto harmônico e tão impressionante como são hoje as fotomontagens criadas pelo paste-up digital.Quando decidiu fazer o livro Desnudamentos, por exemplo, dispensou o computador, convidou seis fotógrafos para registrar imagens de corpos femininos, aplicou sobre eles algumas colagens, voltou ao estúdio, trabalhou sobre as fotos e, mesmo quando o livro já estava pronto, ainda reciclou o material rejeitado pelos padrões gráficos da Burti, criando novas colagens. Elas foram incorporadas a telas, à maneira do que fizeram os cubistas Braque e Picasso nos primeiros anos do século que passou. Mas, a despeito da reverência aos mestres do cubismo, Tide enveredou pelo surrealismo, aplicando ao papel uma técnica que vagamente se aproximou da ?decollage? de René Passerson, especialmente em Desnudamentos, em que os fragmentos das imagens reutilizados revelam uma nova mulher a cada montagem.Nascido em São Paulo em 1942, Tide começou a trabalhar nos anos 1960 com o editor Massao Ohno, um independente que publicou primeiros poemas de nomes hoje consagrados. Foi diretor de arte de jornais (Última Hora), revistas (Exame, Quatro Rodas) e realizou mais de duas dezenas de exposições em 40 anos de uma carreira marcada por prêmios nacionais e internacionais.

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