O artista Lars Nilsson exibe seus 'fantasmas' em São Paulo

Peças em resina criadas pelo escultor e pintor sueco, expostas na Bienal de Curitiba, compõem narrativa aberta na mostra 'Ghosts'

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2016 | 16h00

Diante de um dos seus “fantasmas” expostos no Instituto Tomie Ohtake, o artista sueco Lars Nilsson o descreve com uma indagação – a escultura quase negra, meio sépia, que fielmente reproduz um homem debruçado sobre o chão, poderia ser a imagem de um refugiado que morreu ao tentar entrar na Europa? Mas, ao mesmo tempo, se o Náufrago for visto junto a Black Light, uma peça que, a poucos metros dali, representa um poste de luz todo preto, existe a possibilidade de o homem ser interpretado como uma vítima de um assassinato no subúrbio de qualquer cidade do mundo. “A instalação é uma narrativa aberta”, afirma Nilsson, que acaba de inaugurar a mostra Ghosts (Fantasmas) em São Paulo.

No ano passado, o conjunto de oito esculturas de Lars Nilsson, que à primeira vista parecem feitas de argila negra bem viva e remetem a algo de orgânico, entretanto, são confeccionadas em resina sintética (uma espécie de “plástico”, conta o sueco), fez sucesso na Bienal Internacional de Arte de Curitiba. “Ele é um artista contemporâneo que não hesita em ser figurativo, o que é anacrônico, e, mais ainda, ele não hesita em fazer narrativa”, comenta Teixeira Coelho, que foi curador-geral da última edição do evento realizado no Paraná. Na mostra curitibana, cujo tema era a luz, os “fantasmas” escuros do escultor referiam à “ausência” de luminosidade.

Antes de voltarem para a Suécia, as peças de Lars Nilsson, criadas em 2014, fazem uma escala em São Paulo, o que é uma oportunidade de o público paulistano ver – ou conhecer – o trabalho de um criador com um currículo de exposições já apresentadas em instituições como o Hamburger Banhoff de Berlim, o Palais de Tokyo de Paris e o PS1 de Nova York. Pintor, escultor e professor da Academia de Arte de Malmö entre 1996 e 2005, Nilsson, nascido em 1956, diz que um de seus interesses – e satisfações – é fazer despertar “sentimentos nus” nos espectadores de suas obras.

Sendo assim, não é difícil reconhecer, por exemplo, a melancolia ou até a depressão da figura feminina que é abraçada por uma figura masculina no trabalho De Volta. Já Náufrago é um retrato da impossibilidade ou da morte, e duas esculturas presentes na mostra, os Fantasmas que dão título à exposição, representam dois homens que parecem emergir do fundo da terra. Eles são como sobreviventes de uma guerra ou de uma grande destruição, figuras que saem do chão depois de “uns exterminarem aos outros”, diz o artista, citando O Espírito das Leis (1748), do filósofo Montesquieu. “A violência acontece ao longo do tempo e, veja agora na Síria toda essa brutalidade. Parece que não aprendemos nada com a história”, completa.

“Nas obras que compõem Ghosts/Fantasmas não há o recurso de ideias formais ou ‘sociais’ mas, ‘apenas’, o mundo físico e imaginário das pessoas e o mundo material da arte”, define Teixeira Coelho no texto para o catálogo. Sem dúvida, quando Nilsson menciona os refugiados, a Síria, a violência ou recorre a Montesquieu, ele expressa o dado político de seu trabalho. Entretanto, o sueco dá grande importância ao “lado poético da arte”.

Outra questão importante para o artista é a “compressão do tempo” em sua obra. O Homem Desconhecido e Urna/ Choro/ Lágrimas de Ferro fazem referência à tradição da escultura e à antiguidade, assim como Mulher de Preto é uma peça inclinada que remete a uma figura da Inglaterra vitoriana, descreve Nilsson. “Um traço marcante desta exposição é seu intencional anacronismo”, define Teixeira Coelho. A “dobra do tempo” que o sueco propõe, destaca o curador, permite “colocar num mesmo plano o barroco, a escultura pós-Rodin, o surreal e o contemporâneo – sem contar esse ícones da cultura de massa que são os ‘filmes de medo’.” “Com isso, ele mesmo se pôs fora do tempo – e pôr-se ao lado do tempo para enxergar, não suas luzes brilhantes, mas suas zonas de sombra, como sugere Giorgio Agamben, é o recurso para divisar melhor o que nele há de realmente contemporâneo”.

LARS NILSSON

Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropés, 88, tel. 2245-1900. 3ª a dom., 11h/20h. Grátis. Até 27/3

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