O armário que humaniza as relações da infância

Cia. O Grito leva ao palco a história de uma menina que venceu a leucemia

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

Foi-se o tempo de chamar as peças de teatro infantil no diminutivo e agregar a elas valores imbuídos de preconceito e depreciação. O movimento de tornar a arte destinada a crianças de qualidade, sem subestimar a inteligência dessa faixa etária nascida sob a mais avançada tecnologia que permite um acesso irrestrito a toda e qualquer tipo de informação, é progressivo. E graças ao entendimento de uma classe artística que acompanha e compreende os anseios dessa nova geração.A Cia. O Grito, sem dúvida, faz parte desse núcleo e vem realizando desde 2003 trabalhos ousados que não por isso descuidam do tratamento delicado. Foi assim com uma das primeiras peças do grupo, O Marujo Caramujo e a Minhoca Tapioca, cujo tema central era a separação dos pais, e seguiu-se com A Terra Onde Nunca Se Morre, em 2006, que conta a história de um menino que queria viver para sempre mas não foi possível. Agora, a companhia decidiu abordar a aceitação da imagem da menina Malu (Léia Rapozo) e da condição de vida do menino Tim (Alessandro Hernandez).Lendo assim, até se poderia pensar que não há grande novidade aí - não fosse o fato da personagem ter acabado de se recuperar de uma leucemia. É bom ressaltar que o seu maior desafio, no entanto, é se aceitar e voltar a encarar o mundo com os poucos fios de cabelo que agora recomeçam a nascer. Tudo apresentado de forma muito sutil (ela passa a maior parte do tempo com um chapéu e, quando o tira, as luzes se apagam e tudo o que se pode ver é sua sombra), em um espetáculo onde a música conduz os garotos a uma passagem mágica existente dentro do armário e cria um laço de amizade superior à mera aparência."Ao longo do processo procuramos ter o máximo de cuidado, para evitar qualquer tipo de situação constrangedora ou agressiva", diz a atriz Léia, que pouco antes do ensaio realizado na quinta-feira havia acabado de raspar as sobrancelhas. "O tempo todo tivemos em mente a preocupação de não deixar o trabalho pesado, de tratar o tema humanamente e jamais de maneira leviana", completou. Artifício bastante usado no teatro adulto, os atores entram em cena sem figurinos ou maquiagens: o armário mágico é também um camarim aberto, onde eles vão incorporando os personagens enquanto a plateia entra no teatro.A ideia do trabalho surgiu depois do ator Alessandro Hernandez ter lido a obra Pula-Elástico, de Zoran Pongrasic, que acompanha a volta para casa de uma menina após ter enfrentado seis meses em um hospital na cura do câncer. O diretor da companhia Roberto Morettho convidou, então, a dramaturga Paula Chagas para se aventurar na escrita de seu primeiro texto infantil, com base no enredo proposto por Pongrasic."Pedi um tempo para pensar após a leitura. O tema é difícil de ser abordado para crianças", conta Paula. Ressaltou no texto o fato da personagem já ter vencido a doença, mas não a vergonha de sair pelas ruas. Acrescentou à história o contraponto do garoto ser filho de roqueiros (inspiração tirada da vida real da dramaturga) e não conseguir criar vínculos por ser obrigado a viajar com os pais em turnês. "Isso pode nem parecer tão grave se comparado à doença que ela teve, mas ele sofre por não conseguir criar vínculos e, por sua vez, não consegue enxergar problema algum no fato dela ser careca", diz Paula. ServiçoO Armário Mágico. 60 min. Recomendado: 5 anos. CCSP - Sala Paulo Emílio Salles Gomes (110 lug.). R. Vergueiro, 1.000, 3397-4002. Sáb. e dom., 16 h. R$ 10. Até 1.º/3

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