HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

O arcaico é o moderno no 34.º Panorama da Arte Brasileira do MAM

Na atual edição da mostra, o que há de mais contemporâneo são as peças com mais de 1 mil anos encontradas em sambaquis

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 03h00

Com todo o respeito que merecem os seis artistas participantes da 34.ª edição do Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna, chamado Da Terra, Da Pedra, Daqui, o que há de mais contemporâneo na exposição organizada pela curadora Aracy Amaral são pedras polidas com mais de mil anos – algumas com 4 mil anos – encontradas em sambaquis. Nessas montanhas de conchas espalhadas entre a costa meridional do Brasil e o Uruguai, foram catalogadas mais de 300 peças, das quais 60 delas estão no Panorama. É, portanto, uma oportunidade única de ver juntas essas obras que provocam questões perturbadoras sobre o que significa, afinal, arte contemporânea.

As mais antigas obras de arte são de 35 mil anos atrás. Seu propósito não seria tanto o desejo de recriar o mundo à imagem do homem, mas dar a ele uma forma ideal, que poderia ser sugerida pela própria natureza – a forma de uma concha ou de uma pedra –, o que certamente se aplica aos povos que habitaram o Brasil há milênios.

O escultor moderno italiano Marino Marini, cujas obras são marcadas por um acentuado arcaísmo, é um exemplo de apropriação bem-sucedida dessa arte ancestral. A escultura etrusca, no que ela tem de mais abstrata, foi basilar na formação de Marini, assim como a arte africana no caso de Brancusi. Esperava-se diálogo semelhante nesse Panorama de Arte Brasileira, que propõe uma ponte entre a arte dos sambaquieiros e os contemporâneos. No entanto, a ponte virou abismo. O conflito entre as formas harmônicas de nossos ancestrais e a ruidosa desarmonia contemporânea é evidente.

Num momento da arte contemporânea em que tudo vira discurso sociológico, antropológico ou comentário político, contemplar a arte (silenciosa) dos sambaquieiros é uma dádiva. Enfim, o que fascina nesse conjunto de pedras raras, que representam bichos (peixes, aves, mamíferos) e homens, é a forma absoluta, em seu estado puro, pré-linguístico, que se livra da retórica para expor sua essencialidade.

Não se quer dizer com isso que os seis artistas do Panorama devam fidelidade formal aos sambaquieiros, mas querer “interpretar” o ambiente contemporâneo partindo dessa forma absoluta, que exclui a mediação naturalista, me parece um equívoco – tão ou mais grandioso à medida que a analogia com o crescendo da violência da sociedade brasileira privilegia o realismo (como na barulhenta instalação de Berna Reale).

É impossível afirmar que essa falta de disposição para refletir sobre a unidade formal absoluta (das peças dos sambaquieiros) derive de uma visão pós-cubista, fragmentada, que não se sensibiliza com a integridade da barbárie. Brancusi entendeu que o excesso de intelectualismo do cubismo analítico era um armadilha, capaz de afastar o artista contemporâneo do ethos original africano do qual Picasso se apropriou sem saber como lidar com a cultura ancestral. Parece-me que algo semelhante acontece com os artistas do Panorama. Sobrou retórica. Faltou forma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.