O amor sob os ecos do nazismo e sem clichês

Stephen Daldry faz boa costura de assuntos diversos em O Leitor e se mostra sutil ao tratar o delicado tema da colaboração voluntária com o regime de Hitler

Crítica Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

09 de fevereiro de 2009 | 00h00

Interessante a história desse O Leitor, de Stephen Daldry (de Billy Elliot). Primeiro, ela nos joga na sempre tensa relação entre amantes de idades muito diferentes. Depois, nos faz ver um pano de fundo (que, aos poucos salta à frente) referente ao Holocausto, essa eterna ferida que são os campos de concentração e extermínio da 2ª Guerra. Assista ao trailer do filme O Leitor Sobre esse tema particular - o Holocausto - existem duas maneiras básicas de tratamento. A denúncia direta, do tipo A Lista de Schindler, de Spielberg ou do mais recente O Menino do Pijama Listrado. (Inútil compará-los com uma obra-prima como Noite e Neblina, de Alain Resnais.) Ou a menção em filigrana, como um pano de fundo que, tentacular, se insinua do passado para o presente e revela-se vivo, atuante e ameaçador, sob formas simbólicas mais elaboradas. Essa foi a estratégia de Nicolas Klotz em seu brilhante A Questão Humana, ao mostrar que o "discurso" nazista, na modalidade particular da burocracia do extermínio, se recicla na linguagem gerencial das grandes corporações contemporâneas. Daldry não chega a tanto. Mas, se perde em sutileza em relação a Klotz, toca num ponto que talvez seja ainda mais delicado - o da colaboração voluntária do cidadão comum alemão com o regime de Hitler em seus piores aspectos. De certa forma, o filme repete as clássicas perguntas feitas aos alemães no final do conflito: "Onde você estava durante a guerra? O que fazia? O que sabia?"A inteligência do filme é deixar tudo isso em estado de latência enquanto ambienta a história nos anos 50, portanto já alguns anos distante do final da guerra. Envolve o espectador num caso interessante de amor entre um garoto de 15 anos, Michael (David Kross) e Hanna, mulher mais madura (Kate Winslet, no papel que lhe deu o Globo de Ouro e pode lhe valer o Oscar de melhor atriz). Há um encanto assimétrico nessa relação, pois a balzaquiana inicia o menino no amor, inclusive físico, e, em troca, pede que ele leia para ela alguns livros clássicos. Michael é o "leitor" do título. E a narrativa passa pelos seus olhos, já em sua fase adulta (agora interpretado por Ralph Fiennes), chamado a reencontrar a antiga amante da adolescência, em outras e piores circunstâncias.São duas vidas que seguem entrelaçadas, mesmo a distância. De um lado a iniciação sexual; por outro, o menino que cresce, estuda, entra para a Faculdade de Direito e acompanha o julgamento tardio de pessoas que teriam trabalhado nos campos de extermínio. Num aspecto, é a Alemanha purgando-se dos próprios pecados. Em outro, o menino, que nada tem a ver com tudo aquilo, pois não tinha idade para ter participado do que quer que fosse durante a guerra, vendo-se atingido pela infâmia, ainda que indiretamente. Como se a culpa fosse um patrimônio coletivo às avessas, uma espécie de pecado original que as novas gerações herdam das antecessoras. O interessante é a maneira como Daldry costura temas tão diversos: o sexo entre idades diferentes, os ecos do nazismo, a leitura e o analfabetismo. Mais ainda: ao entrar no centro da história, no tema delicado do extermínio dos judeus, evita o que é o lugar-comum nesse tipo de história. Esses clichês se resumem em duas atitudes complementares. Por um lado, tratar seus agentes como monstros incompreensíveis, praticamente exteriores à condição humana; por outro, aceitar a desculpa de que apenas cumpriam ordens, como fizeram alguns carrascos nazistas sob julgamento. Eles não tinham culpa de nada porque as ordens sempre vinham de uma instância superior. Cabia a eles cumpri-las e ponto. Não. Daldry restabelece aqui a margem da responsabilidade moral e das opções pessoais, possíveis mesmo em situações-limite. O Leitor é a soma de todas essas características, uma mistura, diga-se, nem sempre bem balanceada entre a dureza do tema e um certo tom ameno da realização. Ou seja, não é um filme perfeito, longe disso. Mas, tudo considerado, é muito acima da média e revela Kate Winslet como atriz capaz de nuances e intensidade - o que bem pode lhe valer a premiação da Academia. O Leitor também concorre nas categorias de melhor filme, direção, roteiro adaptado e fotografia. A história baseia-se no romance homônimo de Bernhard Schlink, lançado aqui pela Record. ServiçoO Leitor (The Reader, Alemanha-EUA/2008, 124 min.) - Drama. Dir. Stephen Daldry. 16 anos. Cotação: Bom

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