O amor, eterno só enquanto dura?

A Bela Junie inicia o ano retomando as inquietações temáticas e estilísticas do cineasta francês Christophe Honoré

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

Olhe para a foto ao lado. Quem aparece nela é Anne Seydoux, atriz do novo filme de Christophe Honoré. La Belle Personne recebeu no Brasil o título de A Bela Junie. Anne é a própria Junie, protagonista do novo filme do mais talentoso e intrigante autor da nova geração do cinema francês. O ano que se encerrou ontem foi bom para o cinema francês e para o cinéfilo brasileiro - tivemos grandes filmes de Claude Chabrol (A Garota Dividida em Dois), Arnaud Desplechin (Um Conto de Natal) e de Honoré (Canções de Amor). Este último inicia 2009 em alto estilo com A Bela Junie. Olhe de novo para a foto - Anne Seydoux tem algo de uma jovem Anna Karina. A conformação geral do rosto, os olhos - talvez. Anna Karina foi uma das musas de Jean-Luc Godard (e da nouvelle vague). A semelhança pode não ser mera coincidência - Christophe Honoré é um trânsfuga da nouvelle vague que irrompeu no cinema francês 40 anos mais tarde.Há uma tristeza que intriga no cinema deste autor. Em filmes como Em Paris e Canções de Amor, Honoré retomou aquele que François Truffaut, o romântico que desconfiava do romantismo, considerava o maior de todos os temas, senão o único - o amor. Os dois irmãos de Em Paris são diferentes em tudo. Há um trio em Canções de Amor. Tudo gira em torno do amor e a tristeza pode estar um pouco ligada ao tema da morte, sempre presente no cinema do autor. Ou então a essa certeza de que o amor talvez seja, ou é, efêmero. Em Beijos Roubados, Truffaut fez com que Jean-Pierre Léaud conquistasse uma mulher dizendo que todos os outros homens e amores, tudo o mais, era provisório. Ele, e só ele, era definitivo. O homem e a mulher em Honoré sonham com esse absoluto do amor.O gay que ganhava o hétero em Canções de Amor reaparece - não interpretado pelo mesmo ator, mas ele, por sinal, faz desta vez o mais radical dos novos obsessivos amorosos do autor. Viver e morrer de amor. Honoré dialoga com seus ídolos da nouvelle vague que tanto ama - Godard, Truffaut, Eric Rohmer. Há uma maneira de filmar Paris, o amor, de fazer citações que remetem a esses autores. Mas Honoré sabe que o mundo e o cinema mudaram e talvez a grande tristeza de seu cinema venha de uma constatação - ele tenta, ele homenageia, mas sabe que não é mais possível filmar como em 1960.A bela Junie invade essa sala de aula - mas Honoré não está preocupado em fazer um comentário social, ou em reproduzir um microcosmos para representar a França, como faz Laurent Cantet em outro filme francês sobre a escola, Entre les Murs (que venceu a Palma de Ouro em Cannes, em maio passado). Um garoto que parece hétero é gay e, quando ele troca de amante na sala, o rejeitado tenta matá-lo. A garota provoca paixões fulminantes - num colega de aula e no professor de italiano, interpretado por Louis Garrel (leia ao lado). É curioso, neste sentido, comparar A Bela Junie com outro filme francês, mais modesto, em cartaz. Em Félix e Lola, de Patrice Leconte, Charlotte Gainsbourg teme tanto o anonimato que cria uma fantasia - e seu amante, interpretado por Philippe Torreton, quase vira um assassino por causa disso.Junie agora teme tanto a fragilidade do amor - que ele seja eterno somente enquanto dure -, que prefere não arriscar. Uma mulher é uma mulher, como diria Godard. É um enigma, como gostava de sugerir Truffaut, eterno decifrador de esfinges. A Bela Junie, finalmente, além do amor e da nouvelle vague - do amor pela nouvelle vague -, traz mais uma preferência de Honoré, a música. O garoto canta, numa cena-chave, que se refere à morte (como em Canções de Amor). O jovem, na sala de aula, pede um minuto de atenção para os colegas e para o professor e coloca a ária da loucura, da ópera Lucia di Lammermoor, de Donizetti, na voz de Maria Callas. No bar da esquina, a garçonete oferece uma música - da sua juventude - à bela Junie e é Elle Était Si Jolie, de Alain Barrière, dos anos 60. Morrer de amor, enlouquecer de amor, viver de amor, todos os amores. Ela era tão linda/ e eu não ousava amá-la/ Ela era tão linda/ quando o vento a levava embora. Barrière canta, a Callas canta. Pela amostra de A Bela Junie, 2009 vai ser um grande ano para cinéfilos. ServiçoA Bela Junie (La Belle Personne, França/2008, 90 min.) - Drama. Dir. Christophe Honoré. 16 anos. Cotação: Ótimo

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