O amor dá as cartas em Meu Prazer

Novo trabalho de Márcia Milhazes expressa esse sentimento como uma experiência individual a partir de quatro bailarinos

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2008 | 00h00

Uma enxurrada que arrasta os corpos, mas não os ata. Uma experiência que permanece pessoal mesmo nos momentos em que os corpos conseguem se relacionar. A ligação que se estabelece não surge por nenhum acordo: é o olhar do outro que comanda. Aliás, o relacionamento nem parece ser um objetivo a ser realizado. Os corpos pouco se tocam, e, quando isso acontece, mais parecem estar resvalando, tropeçando um no outro, como que movidos por uma circunstância que se impõe de fora, que vem desse olhar que o outro põe sobre mim.Meu Prazer, o novo espetáculo criado por Márcia Milhazes, escreve o que ela chama de ?cartas de amor? com os quatro bailarinos que agora formam a sua companhia. Al Crispinn, Ana Amélia Vianna, Felipe Padilha e Fernanda Reis trabalham o amor como uma experiência individual, que assoma como um turbilhão para o qual não há qualquer forma de resistência. Os corpos só existem porque são acionados por essas ondas que os arrastam, e que a trilha sonora materializa.Segundo Márcia, o amor gosta dos avessos. Os bailarinos estão sempre a se dobrar para trás, e seus braços-galhos se espetam para fora do corpo e se agitam desesperadamente, como se fosse necessário cavar um espaço que ainda não está lá. Presentes ao longo da obra, vão esburacando os espaços, seja em torno do seu próprio corpo ou do rosto do outro. Esses braços-galhos não se estendem em busca de comunicação; eles arrumam o espaço para que o olhar ocupe o seu posto de comando.Pode ser ensimesmamento, pode ser a compulsão do repetir, pode ser um devaneio. O amor é sempre tão exaustivo que leva os corpos ao chão. Mas eles se erguem de novo, pois parecem precisar de alguma proximidade com o jardim suspenso criado por Beatriz Milhazes. A luz de Glauce Milhazes tonaliza esse jardim, fazendo dele uma manifestação exterior dos desejos. Suas cores e formas ficam mais espessas ou mais luminosas e vão funcionando como um mapa das sensações de cada corpo-carta. Para Márcia, são cartas de amor que vão sendo escritas.A riqueza do vocabulário se faz em jorros estonteantes e a qualidade da execução dos quatro bailarinos dá conta da sua complexidade, formada por reentrâncias, dobras, franjas - tudo o que quase escapa. O modo de dançar funciona meio que como uma outra forma de luz e vai montando as situações na quais o olhar atua como a ignição do corpo do outro.Vemos quatro corpos circunscritos a pedaços não comunicantes de um mesmo espaço físico. É a minha observação do outro que o traz para o meu espaço, ou é o olhar dele que me leva para dentro do espaço dele? Meu Prazer nos diz que o amor guarda pouca relação com o que fica de fora. Que ele existe como um fazer tão intenso que ocupa e consome o corpo sem deixar sobras. O amor é uma experiência individual, pessoal, privada, que existe na dedicação plena.A única voz que se ouve é a de Francisco Alves cantando Misterioso Amor, em meio às sonoridades do piano e do acordeão de músicas de Henrique Oswald, Francisco Mignone, Ernesto Nazareth e Maria Kalaniemi, artistas com os quais Márcia tem grande familiaridade. Ruídos da natureza invadem e circunscrevem o que se passa entre humanos e o amor. Não à toa, a dramaturgia nada tem de psicológica.Curiosamente, Meu Prazer pode ser lido também como uma metáfora da sua criadora. Márcia Milhazes pouco se relaciona com o ambiente de dança da cidade onde mora, o Rio de Janeiro. Está sempre olhando para o seu próprio trabalho, fechada, imersa e absorvida nele. Talvez esse amor do qual nos fala agora seja um eco do seu amor pela dança que sabe fazer com uma maestria que se refina sempre. ServiçoMárcia Milhazes. Sesc Anchieta. Teatro (320 lug.). R. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 4.ª e 5.ª, 21 horas. R$ 20. Até 28/8

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