O abraço

Com o tempo, filhos aprendem a cuidar dos pais. Adquirem outro papel: sustentar, tratar ou até interditar. Na reaproximação familiar, muitas descobertas ajudam a reescrever nossas histórias. É a chance, talvez a última, de esclarecermos certos fatos. Elaboramos a vida, convivendo com o envelhecimento deles. Outro dia, minha mãe revelou detalhes de uma passagem, talvez a mais marcante.Ela ficou viúva aos 41 anos. Era uma jovem bonita, que encantava com seu jeito italiano do sul - pele morena e olhos claros, em que misturavam dor e consignação. Eu não me identificava com colegas, que reclamavam do conservadorismo dos pais. Minha mãe tinha amigos "avançados". Freqüentavam a minha casa Lygia Fagundes Telles, Renina Katz, Danda Prado, os editores Caio Graco e Fernando Gasparian, os intelectuais Antonio Candido, Paulo Francis, José Mindlin, Edla e Sábato Magaldi, sem contar inúmeros políticos cassados, ex-exilados e jornalistas em busca de notícia. Havia visitas de correspondentes estrangeiros, representantes de organizações de direitos humanos e de outros governos. Ali estava um ícone da ditadura, prova bem articulada que contestava a versão oficial de que no Brasil não havia tortura ou desaparecimento político. Minha mãe viva negava a mentira criada pelos países do Cone Sul.O entra-e-sai era tamanho, que ela não tinha tempo para futilidades, como reprimir filhas trancadas com namorados. Me flagrou fumando maconha na adolescência. Com a cabeça ocupada, deixou barato. Sabia que eu roubava o seu carro antes de tirar carta. Não reclamava. Viu as inconseqüências da minha vida de moleque com ódio do mundo - desde cedo apontado nas escolas como "o filho do desaparecido", temido em alguns lares, que não queriam se envolver com "subversivos". Fui um garoto vigiado a distância por professores, diretores, bedéis. Mudava de casa a cada ano, de cidade a cada três. No entanto, assistir à sua atuação me ensinou a não alimentar revanchismos. Ao invés de se fazer de vítima, ela falava de um contexto maior, entendia a conjuntura do continente, sabia ser parte de uma luta ideológica. Era mais uma Maria (Maria Eunice), cantada por Elis Regina em O Bêbado e A Equilibrista ("choram Marias e Clarisses, no solo do Brasil...").Nunca se deixou cair no pieguismo, não perdeu o controle diante de câmeras, nem vestiu uma camiseta com o rosto do marido desaparecido. Não culpou esse ou aquele, mas o todo. Não temeu pela vida. Lutou com palavras.*Os familiares de desaparecidos viviam num limbo civil. A burocracia engessava atividades corriqueiras: não podíamos resgatar seguros, aplicações, aposentadorias, vender imóveis ou abrir inventários.Em 1994, tomou posse Fernando Henrique Cardoso, que tinha um grande amigo desaparecido em 1971, meu pai. Eu morava em Stanford (EUA) e aprendia, com acadêmicos orientados por ele, que um país para se redemocratizar precisa reconhecer desaparecidos, punir torturadores e ter controle civil sobre militares.Minha mãe foi me visitar e mostrou a Veja que dizia que o então secretário da Anistia Internacional, o senegalês Pierre Sané, fora ignorado pelo novo governo, quando defendeu uma solução para os desaparecidos. "É um passado complicado de remexer, que incomoda muitos setores", teria dito FHC.Furioso, decidi escrever uma carta à revista. Minha mãe me lembrou o texto Sem Esquecimento, publicado em 1981 na Folha de S.Paulo, pelo colunista Fernando Henrique Cardoso, que defendia o reconhecimento dos desaparecidos. "Somos sobreviventes e temos responsabilidade: assegurar que nada disso se repita", ele escrevera.Os amigos da Veja Paulo Moreira Leite e Mário Sérgio Conti deram destaque à minha carta em maio de 1995. Eu confessava a minha indignação e citava a coluna escrita por Fernando Henrique. Ao final, eu perguntava como o cidadão brasileiro podia estar seguro, já que o autor, ao chegar à Presidência, revelava receio.Peguei pesado demais. Era a minha chance. A repercussão foi imediata. O projeto da Lei dos Desaparecidos foi enviado ao Congresso e aprovado em tempo recorde. Foi sancionada pelo presidente quatro meses depois da minha carta. Estava lá, na cerimônia no Planalto, ao lado dele, a minha mãe. Ao final, ela se levantou e abraçou o amigo Fernando e depois o general Alberto Cardoso, Chefe da Casa Militar. Foi a foto de capa dos jornais brasileiros do dia seguinte.Disse o general, ao jornalista Emanuel Neri: "Eu a conheci ali, pouco antes da cerimônia. Me impressionou o equilíbrio e a simpatia daquela senhora, que, logicamente muito machucada, não exibiu o menor rancor. No abraço, eu senti que ela estava emocionada. O meu abraço foi espontâneo, nada programado. Quando vi, me assustei, mas depois vi que naquela foto o mais importante não era eu estar ali, mas sim o simbolismo. O triângulo ali exposto representava bem a reconciliação. Depois, recebi cumprimentos de colegas de farda."Recentemente, relembrei o abraço. Minha mãe confessou: "Acabou a cerimônia, virei para o lado, vi o Fernando, e o abracei como uma amiga, virei para o outro, estava o general, eu não sabia o que fazer e o abracei também."O abraço não fora premeditado, protocolar, mas sem querer. O que amplia a sua autenticidade, descobri anos depois.*A Comissão dos Desaparecidos criada pela lei seguiu em frente, com a participação dos militares. Conseguiu julgar casos polêmicos, como o de Carlos Lamarca. Porém, a transição não se completou. Rediscutimos a punição a torturadores e a abertura dos arquivos, ou o abraço foi unilateral?A recente guerra entre as duas polícias no Palácio dos Bandeirantes - uma militar, sem treinamento apropriado, e outra descumprindo a lei -, é fruto desse passado em que a violência foi incorporada em detrimento da inteligência.Existem outras prioridades, defendem alguns, como o combate à violência urbana. Mas a cometida contra a garota Eloá não está relacionada a uma polícia malconduzida, patrocinada por um Estado que, sem julgar os excessos do passado, nos dá a sensação de anarquia e impunidade?

Marcelo Rubens Paiva, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2008 | 00h00

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