Novos artistas são anunciados para a 31ª Bienal de São Paulo

Brasileiros Clara Ianni e Thiago Martins de Melo estão confirmados

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2014 | 02h00

Quando se fala de jovens artistas, a curadoria da 31.ª Bienal de São Paulo, que será aberta para o público em 6 de setembro, não considera apenas a idade dos criadores, mas também o que poderia ser o estágio de cristalização de uma linguagem artística. Os brasileiros Clara Ianni, Thiago Martins de Melo, Éder Oliveira, Gabriel Mascaro, Marta Neves e Arthur Scovino, assim, participarão da exposição indicando a aposta que os curadores do principal evento de arte do País - e entre os mais destacados do calendário internacional - fazem pelo novo, pelo frescor.

Os nomes citados acima foram confirmados esta semana ao Estado pela curadora Galit Eilat, completando a presença brasileira na mostra, que será formada ainda pelos artistas Tunga, Tamar Guimarães, Yuri Firmeza, Virginia de Medeiros, Ana Lira, Armando Queiroz, Graziela Kunsch, Romy Pocztaruk, a coreógrafa Lia Rodrigues, o coletivo paulistano Contrafilé e pela historiadora Lilian L’Abbate Kelian, da USP. A edição, sob o título Como Falar de Coisas Que Não Existem? - mas cujo verbo é mutável - contará, no total, com 70 projetos - seja de criador individual ou de autoria coletiva - a serem exibidos no grande Pavilhão Ciccillo Matarazzo no Ibirapuera, edifício desenhado por Oscar Niemeyer - a casa da Bienal. Uma segunda lista de participantes já está pronta e será anunciada este mês.

"A maioria dos artistas brasileiros é jovem, com menos de 40 anos", diz Galit Eilat, que integra a equipe curatorial da 31.ª Bienal ao lado do escocês Charles Esche, dos espanhóis Nuria Enguita Mayo e Pablo Lafuente, do arquiteto israelense Oren Sagiv e dos curadores associados Luiza Proença e Benjamin Seroussi. Do Brasil, uma característica notável é a escolha por criadores de fora do eixo São Paulo-Rio, baseados, por exemplo, em Belém, Salvador, no Recife, em Fortaleza e Porto Alegre.

Segundo a israelense Galit Eilat, a mostra não contará com nenhum nome histórico nacional. Aliás, de forma geral, poucos criadores já mortos estarão representados nesta edição - dá para citar, nesse sentido, o polonês Edward Krasinski (1925-2004), o chileno Juan Downey (1940-1993) e o dinamarquês Asger Jorn (1914-1973).

A 31.ª Bienal começa, assim, a tomar forma, com a apresentação de mais uma leva de projetos que elucidam alguns conceitos da mostra - o primeiro anúncio de 32 participantes do evento ocorreu em março. "Cada artista é como uma sentença. Acredito que fazer uma exposição é como editar", afirma Galit. E há o fator de cerca de metade das obras a serem exibidas no Pavilhão da Bienal, até 7 de dezembro, ser inédita, criada especialmente para o evento, orçado em R$ 24 milhões.

Trabalhos criados para a 31ª Bienal já sugerem o tom que deve marcar a mostra

Muito já se falou que a 31.ª Bienal de São Paulo será uma edição de reflexão político-social com seu olhar para o presente, para um mundo em “condição de conflito”, afirmou o curador escocês Charles Esche. Mas a pergunta essencial que a curadora israelense Galit Eilat coloca, numa maneira de traduzir o pensamento da equipe curatorial, é: “Como podemos engajar as pessoas?”. Ela usa o termo “sedução” para definir o entrelaçamento entre estética e poéticas críticas nos trabalhos de participantes da mostra.

É o caso da artista colombiana Johanna Calle, que vive em Bogotá. Ela está preparando uma obra na qual a forma de uma grande árvore, de cerca de 3 metros, é realizada pelo ato de datilografar, obsessivamente, em um papel especial, como o de um livro antigo, os dizeres de uma lei de seu país referente à divisão de terras indígenas. "Há uma relação entre texto e textura", descreve Galit. Por intermédio de uma imagem forte - e até delicada -, o público é convidado a adentrar no tema do trabalho.

Durante dias, Johanna Calle ficará datilografando, repetidamente, a legislação, em língua espanhola, que os visitantes da Bienal poderão ler ou apenas apreciar a beleza do desenho tipográfico. A árvore é atrativa não apenas por ser um símbolo poderoso, historicamente. A referência ao organismo vegetal se dá pela própria questão que a instalação da colombiana coloca - segundo a curadora, territórios, em áreas agrícolas, são demarcados pela distância entre árvores, exemplifica. Outra camada da obra é trazer à tona o fato de que a ignorância da lei - ou a impossibilidade de os índios a lerem - seja empecilho para a devida defesa das terras.

Este trabalho, intitulado Perímetros, é exemplo de um dos segmentos da 31.ª Bienal, o de reunir criações em torno dos arquivos. Mas, como explica Galit Eilat, as obras desse nicho estariam mais relacionadas a ações que se traduzem como apresentações - diversas - de “acumulação de conhecimento”. “O arquivo é transformado em algo diferente”, afirma ainda.

"Os temas políticos e sociais não aparecem de forma direta", completa a curadora. "Creio que não há nenhum problema com o aspecto formal da arte. Há muitas maneiras de engatilhar as pessoas." Evitando atitudes secas - ou tediosamente panfletárias -, as obras da edição estariam mais relacionadas a convidarem o público a refletir e não a repelir o visitante - "Como não fazer as pessoas se sentirem imediatamente culpadas?", pergunta Galit.

Ditadura. Já em outra instalação, a ser abrigada perto da rampa do segundo piso do Pavilhão da Bienal, a artista chilena Voluspa Jarpa, que viveu no Brasil, traz o tema da ditadura militar na América Latina. Seu trabalho é feito pela exibição de documentos da CIA sobre a Operação Condor, a aliança entre os países que tiveram regimes ditatoriais.

"Como a ditadura brasileira foi a primeira de outras na América do Sul, ela foi uma espécie de modelo", comenta a curadora. “Os documentos criam uma estética, senso de forma, tridimensional”, conta Galit sobre a exibição dos textos em placas plásticas suspensas. “Cria-se uma relação física com a obra." Sem oferecer muitas informações sobre as criações dos brasileiros para a 31.ª Bienal, a curadora conta apenas por alto que a paulistana Clara Ianni tratará da "fronteira embaçada” entre polícia e exército no Brasil, uma “herança" da ditadura militar, considera Galit. As manifestações populares que ocorrem no País desde o ano passado poderiam ser o manancial para o trabalho de Clara.

Outro exemplo de estética aliada à política são os gigantescos desenhos do indiano Prabhakar Pachpute, que criou a obra do cartaz da 31.ª Bienal. Interessado no tema das minas de carvão, ele vai a Minas Gerais para as pesquisas que desencadearão três monumentais painéis gráficos, feitos à mão, a serem exibidos no vão com as rampas que ligam os três andares do prédio. Seus trabalhos, em preto e branco, tratam, basicamente, das questões de poder.

Sem catraca. As reflexões político-sociais desta edição, que terá cerca de 25% de vídeos e filmes, serão muitas - transgressão, transexualismo e religião são alguns exemplos já citados. Pelo projeto expográfico de Oren Sagiv, o térreo do Pavilhão da Bienal será um "espaço público" antes das catracas da mostra, um local para que os visitantes se sintam à vontade para entrar na exposição. É o lugar onde acontece a "interface com o parque” e uma programação de performances e atividades.

Destaques da lista

Brasil

Clara Ianni

Thiago Martins de Melo

Éder Oliveira

Gabriel Mascaro

Marta Neves

Arthur Scovino

Tunga

Tamar Guimarães

Yuri Firmeza

Virginia de Medeiros

Ana Lira

Armando Queiroz

Graziela Kunsch

Romy Pocztaruk

Lia Rodrigues

Contrafilé

Lilian L’Abbate Kelian

Outras nacionalidades

Johanna Calle (Colômbia)

Voluspa Jarpa (Chile)

Edward Krasinski (Polônia)

Bik van der Pol (Holanda)

Yael Bartana (Israel)

Asger Jorn (Dinamarca)

Prabhakar Pachpute (Índia)

Walid Raad (Líbano)

Juan P. Agirregoikoa (Espanha)

Anna Boghngian (Egito)

Danica Dakic (Bósnia)

Bruno Pacheco (Portugal)

Jo Baer (EUA)

Juan Downey (Chile)

Halil Altindere (Turquia)

Yochai Avrahami (Israel)

Sheela Gowda (Índia)

Teresa Lanceta (Espanha)

Imogen Stidworthy (Inglaterra)

Nurit Sharett (Israel)

Leigh Orpaz (Estados Unidos/Israel)

Pedro Romero (Espanha)

Val Del Omar (Espanha)

Ines Doujak (Áustria) e Tony Chakar (Líbano)

John Barker (Inglaterra)

Sandi Hilal (Palestina) e Alessandro Petti (Itália)

Basel Abbas (Chipre) e Ruanne Abou-Rahme (EUA)

Etcétera... (Argentina)

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