Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Novo presidente da Bienal quer abrir os arquivos para o público

Empresário e colecionador de arte, João Carlos de Figueiredo Ferraz assume o comando no dia 1º. de janeiro e tem como principal meta a digitalização do material guardado há 65 anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2016 | 04h00

Num momento de crise econômica, nada como entrar numa instituição com o caixa em dia, sem dívidas. É assim que o empresário João Carlos de Figueiredo Ferraz, dono de uma das mais importantes coleções de arte contemporânea brasileira, vai receber a Bienal de São Paulo das mãos do atual presidente, o também empresário Luís Terepins, no dia 1.º de janeiro. Figueiredo Ferraz, eleito por unanimidade pelo Conselho da Fundação Bienal no último dia 13, assume com o mandato de dois anos – renováveis por mais dois. Seu primeiro compromisso é o de abrir os arquivos da mostra internacional para o grande público.

A digitalização total desse arquivo, que reúne 65 anos de história, é a sua principal meta. “É nossa obrigação abrir a Bienal, tornar acessível esse que é um dos mais importantes arquivos sobre arte contemporânea do mundo”, diz Figueiredo Ferraz, em entrevista ao Estado, revelando que pretende destinar um espaço permanente para os pesquisadores e fornecer bolsas de estudos para acadêmicos e curadores.

A situação da Bienal é bem diferente de quatro anos atrás, quando ficou ameaçada de não abrir suas portas por inadimplência. Após uma grave crise institucional, que resultou na polêmica Bienal do Vazio, em 2008, quando o pavilhão ficou literalmente sem obras, uma nova gestão, liderada por Heitor Martins, hoje presidente do Masp, assumiu e conseguiu salvar a edição de 2012 da mostra. Na época, a decisão do Ministério da Cultura de listar a Bienal como inadimplente, bloqueando R$ 20 milhões do seu orçamento, causou revolta, especialmente entre os artistas. Nuno Ramos chegou a dizer que o Brasil era um país autodestrutivo, que não levava em conta a importância da Bienal para a cultura.

É justamente essa memória que Figueiredo Ferraz pretende preservar ao dedicar particular atenção ao arquivo da instituição. Conta para isso com 36 grandes empresas parceiras (Itaú, Votorantim, entre outras) que ajudaram na reconquista de sua credibilidade. O novo presidente admite todas as críticas que, eventualmente, façam contra uma edição – e a 32.ª, que terminou agora, consumindo R$ 25 milhões, foi bastante criticada –, mas diz que não se pode confundir mostra e instituição.

 “Talvez tenhamos de discutir projetos com o próximo curador, ou curadores, porque não sou favorável a conceder carta branca à curadoria”. Figueiredo Ferraz, que tem livre trânsito entre curadores, marchands e galeristas por sua condição de colecionador, certamente não terá dificuldades para intervir na hora de escolher esses projetos curatoriais. “Há 35 anos mantenho diálogo com artistas e críticos, procurando entender seus pontos de vista, mas não posso concordar quando acusam a Bienal de não retratar a arte do nosso tempo, como se referiram à 32.ª edição, pois é preciso distanciamento para analisar essa produção, que talvez só daqui 50 anos seja entendida.”

A arte, justifica, “precisa de respiro”. A função da Bienal, define o presidente, “é trazer a energia dos contemporâneos para seu pavilhão”. Ele compara a arte contemporânea a uma gripe, cujo vírus incomoda, “mas que depois se incorpora ao corpo e o fortalece”. Quem quiser “ficar na zona de conforto”, acrescenta, deve buscar os grandes mestres nos museus. A Bienal pode até resgatar as salas históricas de edições passadas, mas em outro patamar. “Podemos, por exemplo, montar uma sala assim falando só de Bienal, que tem uma história, mas não é sua função exibir Goya.”

Os grandes mestres do passado podem ser vistos, por exemplo, no MAC ao lado, que ainda ocupa parte das instalações da Bienal para abrigar seu acervo enquanto sua reserva técnica ainda aguarda conclusão. Figueiredo Ferraz pretende conversar com a direção do MAC para desocupar o andar e ampliar a área expositiva da Bienal, hoje em torno de 25 mil metros quadrados. A próxima edição, em 2018, deve consumir algo como US$ 10 milhões na montagem, segundo cálculo do novo presidente.

Figueiredo Ferraz é contra a realização da Bienal em vários lugares, procedimento que muitas mostras internacionais – entre elas a Bienal de Istambul e a Trienal de Aichi, no Japão – têm adotado. “Considero o atual formato bom, porque a exposição fica concentrada num único local e permite melhor mobilidade, não é como em Istambul, onde você tem de cruzar o Bósforo para ver uma exposição do outro lado.”

Sobre a participação do Brasil na próxima Bienal de Veneza, ele não quis adiantar os nomes dos participantes que vão ocupar o pavilhão brasileiro – eles serão anunciados pelo atual curador, Jochen Volz. Figueiredo Ferraz também destacou a necessidade de abrir espaço para artistas latinos nas próximas edições da Bienal.

Além do novo presidente, o Conselho da Bienal elegeu a nova diretoria executiva, composta pelo gestor Eduardo Saron, pela administradora Flávia Buarque de Almeida, pelo publicitário João Livi, pelo empresário Justo Werlang, pela economista Lidia Goldenstein, pela advogada Renata Mei Hsu Guimarães, pelo engenheiro Ricardo Brito Santos Pereira e pelo economista Rodrigo Bresser Pereira. 

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