Novo espírito

Se é que existiu algum dia, o espírito olímpico há anos não comparece às Olimpíadas, cujo lema não declarado tem sido que o importante não é ganhar, é ganhar muito. Os atletas competem pelas suas bandeiras nacionais e as nações competem entre si para provar qual é a mais forte, bem nutrida e abençoada. O ideal do congraçamento universal para festejar os feitos de superação da raça humana não conseguiu vencer a idéia mais simples e realista da competição tribal. Na verdade, o único momento de congraçamento dos jogos - e por isso o mais bonito, pois recupera o ideal derrotado, mesmo que por um instante - é o que vem acontecendo depois dos desfiles de encerramento, quando as delegações se misturam, os atletas se abraçam e todos se comportam, afinal, como uma espécie só. A partir da Olimpíada de 1936 em Berlim, que os nazistas quiseram usar para mostrar a superioridade da raça ariana, a política tem ajudado a abafar os ideais olímpicos., E a partir do atentado contra atletas judeus em Munique, em 1972, as Olimpíadas, como as Copas do Mundo e outros eventos de massa, passaram a conviver com a ameaça do terror. Munique 72 mostrou que era impossível manter sequer um simulacro de distanciamento olímpico das fissuras do mundo, e desde então cada nova Olimpíada, Copa do Mundo, etc., se realiza sob a expectativa do desastre. Por sorte, o desastre não se repetiu depois de Munich, salvo um ou outro boato de bomba, mas a ameaça permanece, cada vez mais preocupante, porque as fissuras aumentam. Agora mesmo, às vésperas dos jogos de Pequim, houve um atentado com mortes de separatistas de uma região da China que poucos sabiam que existia, quanto mais que queria se separar. Mas de quatro em quatro anos se tenta reavivar todas as melhores intenções olímpicas, como se nada tivesse acontecido e pudesse acontecer. O distanciamento olímpico renasce na forma de mentira: vamos fingir que está tudo bem, e que venha a festa. Assim as Olimpíadas se repetem como símbolos de normalidade, apesar de todas as evidências em contrário. E o novo espírito olímpico não tem nada a ver com ideais altissonantes. É um espírito de resistência, um espírito de cidadela sitiada. É isso que você deve pensar, vendo a cerimônia de inauguração, que eu ainda não vi e já achei espetacular. Vai ser tudo mentira, mas a alternativa é entregar a cidadela aos bárbaros.

O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2008 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.