Novas confissões de adolescente

A cineasta marroquina Laila Marrakchi mostra um mundo em processo de transformação no belo Marock

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

Você não precisa conhecer a biografia de Laïla Karrakchi para perceber que ela oferece seu testemunho geracional em Marock. O tom é tão confessional que a ênfase na personagem feminina - Rita - autoriza imaginar que, se o filme não é rigorosamente autobiográfico, com certeza carrega muito da vivência e das experiências da diretora. Testemunha algo mais - as transformações ocorridas em Casablanca. Laïla situa a ação de seu filme em 1997. As garotas passam seus dias ao sol e as noites na balada. Fumam baseados, ouvem seus discos preferidos, trocam beijos com rapazes que não lhes dizem nada, apenas como diversão para matar o tempo. Elas têm de encarar o futuro - o ?bac?, o vestibular, está chegando, mas Laïla não pensa a literatura como sonha seu professor. Ela quer vivenciar a paixão de que ele fala nas aulas sonolentas.A angústia dos rapazes não é menos genuína e dois, em especial, gravitam em torno de Rita. Tirando-se o amigo (e confidente) gay, ela tem o irmão, que volta de uma temporada em Londres e este namorado improvável, um garoto judeu, que como todo mundo sabe, é o que as amigas dizem a Rita, só quer se aproveitar e tirar a virgindade da jovem islâmica. Pois Rita é de origem islâmica e, embora Youri e ela convivam no mesmo espaço, em casas próximas, há um abismo entre eles e suas famílias. As garotas ainda vivem numa estrutura patriarcal. Para salvar a família da bancarrota, uma delas terá de se submeter a um casamento arranjado. Outra vem de uma família que não tem dinheiro para pagar seus estudos no exterior. A problemática dos rapazes é mais intensa.Há uma insatisfação interior, uma angústia que corrói a alma do irmão e do namorado de Rita. Este último tenta aplacá-la na bebida ou, então, na direção de seu carro, lançando-se em alta velocidade nas ruas da cidade meio fantasmagórica. O irmão de Rita já viveu esta vertigem, mas um acidente mudou sua vida e ele agora volta a esta Casablanca laica e que sonha ser ocidental convertido - Laïla Karrakchi pode estar revelando para o público a origem do fundamentalismo islâmico no Marrocos. Neste quadro específico, a trajetória de Rita será singular, apontando para uma emancipação que é a da diretora, refletindo sobre as mulheres de sua geração. A infantilização e a falta de perspectivas talvez façam desses garotos e garotas os ?vitelloni? do Marrocos, boas vidas como os personagens de Federico Fellini em seu clássico de 1953. Que ninguém se iluda - a boa vida é enganosa. Consome-se no vazio. Só existe uma saída. O trem, o avião, ir-se embora. Fellini pode ser invocado, mas o tom é mais de Valerio Zurlini, que também filmava a fragilidade dos jovens em choque com o mundo. O abraço dos irmãos, no desfecho, é coisa de Zurlini. Marock é muito interessante.

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