Nova vitrine para quatro peças da chamada cena experimental

Formação de público é um dos objetivos da programação que começa na quarta no Teatro Imprensa

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

27 de fevereiro de 2009 | 00h00

Na próxima semana quatro peças estreiam no Teatro Imprensa. São elas Comunicação a Uma Academia, protagonizado pela atriz Juliana Galdino, baseado no conhecido, e cáustico, texto de Franz Kafka no qual um macaco ?aprende? a ser humano; Eldorado, solo de Eduardo Okamoto, que vive um cego tocador de rabeca e tem texto escrito especialmente para ele pelo dramaturgo argentino Santiago Serrano; Cachorro Morto, primeiro trabalho de um grupo jovem que atrai a atenção do espectador do início ao fim tanto pela trama bem urdida, uma inteligente abordagem do autismo, quanto pela linguagem cênica; e, por fim, mas não menos importante, Bartleby, adaptação do conto homônimo de Herman Melville, autor de Moby Dick. Por sua atuação no papel do funcionário apático cuja estranha resistência ao trabalho torna-se subversiva, a atriz Cácia Goulart está indicada para o Prêmio Shell de 2008.A temporada ?coletiva? não se dá por mera coincidência, mas é parte de um programa bem elaborado, o Vitrine Cultural. Idealizado por Cintia Abravanel, diretora do Centro Cultural Silvio Santos, trata-se de um projeto que a um só tempo imprime um novo perfil artístico ao Teatro Imprensa, estimula a formação de público e dá visibilidade ao (bom) teatro experimental muitas vezes visto apenas pelos frequentadores de espaços alternativos.Ingressos a preços populares e parcerias com entidades educacionais e assistenciais dão continuidade à formação de público, atividade já presente nas ações da diretoria, só que voltada para o espectador mirim. Desta vez, o ponto de partida era preencher a programação da Sala Vitrine, de 48 lugares, com espetáculos para jovens e adultos, criados a partir de pesquisas de linguagem, que apresentassem diversidade de estéticas e fossem adequados ao reduzido espaço que os abrigaria. Para selecioná-los - entre cerca de 400 inscritos -, Cintia contou com a curadoria do crítico Kil Abreu e do jornalista Valmir Santos, especialmente convidados. "Pelo menos 90 tinham grande qualidade."Foram escolhidos nove espetáculos para a sala Vitrine e ainda outros três para a grande sala do Teatro Imprensa, algo que nem havia sido planejado. "Chamei uma curadoria porque não queria selecionar trabalhos de amigos - e tenho muitos na área -, mas sim uma programação com coerência de critérios", diz Cintia. Ao que tudo indica, tal objetivo foi alcançado. "Considero esse projeto ambicioso, no bom sentido, porque escapa de um equívoco comum nos projetos de formação de plateia: achar que é preciso começar por um espetáculo digestivo, para depois buscar estéticas mais elaboradas", diz Roberto Alvim, diretor de Comunicação a Uma Academia. "Apostar que um leitor de Paulo Coelho vai passar para James Joyce é menosprezar as estratégias da cultura de massa."Quem conhece os trabalhos da dupla Roberto Alvim e Juliana Galdino - como O Quarto, de Harold Pinter, em cartaz na sede do grupo por eles criado, o Club Noir, na Rua Augusta - sabe que nada têm de ?facilitadores?. Pelo contrário, causam forte estranhamento ao se apoiaram numa vertente de linguagem de gestos mínimos, quase imobilidade, compensada pela expressiva partitura sonora. "Mas o texto de Kafka é tão poderoso e tem tantas camadas que ele pediu outra abordagem para dar conta da tensão e das nuances exigidas", diz Alvim. "Claro que nossa linguagem minimal permanece, mas só quando ela se ajusta à dramaturgia, jamais para solapá-la."Ele conta que viu esse texto no palco, pela primeira vez, em 1997 na interpretação de Ítalo Rossi. "Fiquei tão fascinado que precisei de muito tempo para me ?descolar? daquela criação." Sarcástico e ácido, o conto critica com radicalidade a necessidade do homem de se ?adaptar? às exigências do senso comum. "O que é brilhante é que Kafka não vocifera, ele mostra todo o sofrimento que há na transformação do macaco em ser humano. Ao ser ?adestrado?, ele perde suas potencialidades. É uma crítica à aculturação, perfeita para estes tempos de massificação, em que toda singularidade é rejeitada."Pois foi justamente o desejo de pesquisar "formas diferentes de percepção do mundo" que levou o diretor e autor do texto de Cachorro Morto, Leonardo Moreira, e os atores de seu grupo a se debruçarem sobre o autismo. Entrevistas, imersão em instituições voltadas para autistas, livros sobre o tema - Luciana Paez, Bruno Freire, Thiago Amaral e Maria Amélia Farah trabalharam muito para chegar ao resultado cênico a um só tempo simples e fascinante desse espetáculo que tem potencial para agradar a públicos de todas as idades e formação. Os atores se revezam em vários pequenos papéis, e também no protagonista, um garoto autista que decide investigar o ?assassinato? do cachorro da vizinha.O trabalho corporal de mimese é um dos pontos fortes da interpretação de Eduardo Okamoto. Basta olhar as fotos de Eldorado para ficar impressionado com o seu olhar no papel do cego tocador de rabeca. Mas ainda que importante como linguagem, não deixa de ser apenas um canal para trazer ao público o universo desse artista popular e suas histórias, reescritas poeticamente por Santiago Serrano. A busca de um suposto paraíso, Eldorado, dá o mote da peregrinação do personagem.A nova temporada de Bartleby dá a dimensão da importância desse projeto. Apesar dos fartos elogios, a equipe não havia conseguido arcar com os custos de voltar ao cartaz após o fim da primeira temporada no Sesc. Pois agora, quem não viu, tem nova chance. Ganha o público, os artistas, o teatro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.