''Nova poética que busca a exploração dos limites''

O crítico inglês Guy Brett, que acompanha desde a década de 1960 a arte brasileira (próximo a Sergio Camargo, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape), afirma que os artistas do País têm a seu favor a inteligência de uma criação a partir da relação paradoxal entre "corpo e mente, intelecto e sentimento". De uma geração que teve o neoconcretismo e a arte conceitual como fontes, Cildo Meireles cria numa "nova poética impossível de se definir", como diz o diretor do museu, Bartolomeu Marì, que se caracteriza pela busca "de novos significados através do confronto e da exploração dos limites nos âmbitos da estética, percepção, ciência ou a economia" e pela reflexão "sobre seu próprio lugar na arte". Sendo assim, sua obra não se fecha no campo apenas do político e de temas nacionais, tampouco na efêmera sensorialidade. "Não se pode fazer um trabalho fundamentalmente panfletário e que resista a um embate com a história do objeto de arte, que é o que me interessa", diz Cildo. Dentro dessa complexidade, como afirma Brett, é fascinante a maneira com que o artista lida com a escala, indo do muito pequeno, como em Cruzeiro do Sul, em que um minúsculo cubo de carvalho e pinheiro está no chão de um grande espaço, iluminado por um foco de luz, até o grandioso, como a instalação Através, um imenso labirinto com piso de pedaços de cristal que carrega um percurso de "acumulação de proibições" entre arames farpados, redes, portas - e o som do vidro pisado é mais ainda arrebatador. Mesmo as garrafas com as inscrições "Yankees go home!" do Projeto Coca-Cola, de 1970 e presente na mostra, vai além do contexto da censura ditatorial. "Na verdade, é um trabalho sobre escala, dar voz ao minúsculo dentro de uma macroestrutura", explica Cildo. É especial também na mostra a passagem de Missão/Missões, imagem metafórica sobre o choque entre a cultura ocidental e a indígena, o seu massacre, feita de um chão de 800 mil moedas de cobre sob um céu a poucos metros de ossos e tendo no centro uma coluna de hóstias, para a instalação Desvio para o Vermelho, que faz parte da coleção do Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Minas Gerais. A repórter viajou a convite do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA)

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