Nova geração é mais cosmopolita

Leitores preferem autores também jovens, que falem do cotidiano com os avanços tecnológicos e o universo da internet

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

As aventuras do bruxinho Harry Potter começam a frutificar - uma geração de leitores adolescentes que alimentaram o gosto pela leitura a partir da obra da escritora J.K. Rowling já se interessa por outro tipo de história, estimulando uma faixa do mercado editorial que andava esquecida. Nos últimos dez anos, o setor ganhou novas dimensões, a ponto das editoras criarem selos específicos - a Rocco, por exemplo, já mantém sua coleção Safra XXI há três anos, enquanto a Record lança nesta semana o selo Galeria, que chega às livrarias já com 14 títulos.''''Harry Potter foi um marco, pois descobriu o potencial do público jovem para o próprio mercado editorial'''', comenta Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record. ''''Com isso, percebemos a existência de uma importante faixa de consumidores que também é exigente, especialmente entre 12 e 25 anos.'''' Para ela, os novos leitores não têm mais contato com a obra de Monteiro Lobato, como era tradicional. ''''Minha filha, por exemplo, que é uma adolescente, acredita que as histórias de Lobato não tratam de assuntos que interessam à sua geração, que é muito mais cosmopolita.''''O detalhe é, de fato, um diferencial. Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco que cuida da Safra XXI, coleção que se prepara para lançar seu 19º título (Rádio Cidade Perdida, do peruano Daniel Alarcón), acredita que livros sobre o cotidiano exercem um grande poder de atração nos jovens. ''''São leitores que gostam de avanços tecnológicos, que assistem a Matrix no cinema e que não sentem medo do tamanho dos livros'''', observa Vivian que, curiosamente, não agrega ao fenômeno Harry Potter tal poder de criar novos leitores - para ela, os interessados pelas aventuras do bruxinho gostam apenas de seus livros, no máximo por histórias semelhantes. ''''Mas é evidente que os jovens ocupam um novo nicho no mercado.''''O procedimento das editoras, portanto, é criar estruturas especializadas. Assim como Vivian cuida da coleção na Rocco, a Record destacou alguns de seus profissionais para cuidar do Galera, como Ana Lima. O selo passou a abrigar, com isso, nomes consagrados na editora como Meg Cabot, Cecily von Ziegesar, Eoin Colfer, Anthony Horowitz, Charles Higson, Justin Somper e outros, todos com expressivas vendagens - Meg Cabot, aliás, é um caso à parte, pois não apenas já vendeu mais de 500 mil exemplares no País como seus fãs são exigentes: cobram o lançamento de mais títulos e ainda reclamam da tradução, o que obrigou, segundo Luciana Villas-Boas, a se tratar com um cuidado único todas as versões de seus textos.Galera pretende também revelar os novos criadores da literatura para jovens no Brasil e no mundo. Como a obra O Livro Perigoso para Garotos, da dupla Conn e Hal Iggulden, best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde chegou ao topo da lista do The New York Times. Ou ainda Tão Ontem, de Scott Westerfeld, que também freqüentou a lista dos mais vendidos em diversos países (veja texto abaixo).A coleção pretende também abrigar textos de autores brasileiros como Tabajara Ruas, Carlos Heitor Cony e Lya Luft, cujo A Volta da Bruxa Boa já figura nessa primeira fornada de lançamentos. ''''O projeto prevê o lançamento de cinco livros por mês'''', anuncia .Como o público-alvo é formado por pessoas que mantêm uma íntima relação com a internet, a coleção da Record também terá um braço na rede mundial por meio de um site específico (www.galerarecord.com.br), no qual os leitores serão abastecidos continuamente com novidades sobre seus autores preferidos, além da divulgação das novidades.O contato direto com esse público, aliás, é o melhor caminho. Vivian Wyler lembra que, no início da Safra XXI, a editora mantinha um grupo formado por leitores considerados padrão, que faziam a avaliação das obras disponíveis antes da publicação. ''''Eles tinham poder decisivo, até de veto'''', comenta Vivian, cuja meta principal era segurar o chamado leitor esquivo, ou seja, aquele que saía da escola e ingressava na universidade onde a obrigação de ler obras técnicas desestimulava seu gosto pela ficção. ''''Contribuía para essa fuga a falta de títulos atraentes, que trouxessem assuntos que realmente interessavam a esses leitores.''''Com três anos no comando da coleção, Vivian conseguiu detectar preferências. Livros mais líricos, por exemplo, têm pouca aceitação, enquanto autores com idade máxima de 35 anos são os preferidos. ''''Provavelmente por viverem ambos o mesmo universo'''', acredita ela, que também aposta no poder da internet - a Rocco prepara-se para utilizar também essa mídia. ''''As comunidades do Orkut é um exemplo de como os leitores gostam de expressar suas paixões literárias.''''

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