Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Nova exposição no MAB da Faap reflete sobre movimento modernista

Com entrada gratuita, mostra que teve estreia nesta quinta (10) celebra centenário da Semana de Arte Moderna e criação da Fundação

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 20h00

As suntuosas paredes da Rua Alagoas já declaram a importância do prédio da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) para a arquitetura e arte brasileiras. Ao entrar, a certeza fica ainda mais forte com o jardim de esculturas e o inigualável saguão do local, repleto de cores por conta de seus vitrais, os quais reúnem 59 projetos, incluindo dos modernistas Tarsila do Amaral e Cândido Portinari.

“A Faap surgiu como um dos frutos do desenvolvimento do Modernismo no Brasil, inscrevendo-se numa tentativa de democratização e de estimulação da arte e da cultura por meio da criação de cursos de arte e de um Museu de Arte Brasileira (MAB)”, conta Laura Rodríguez, cocuradora da exposição Modernos. A mostra, que está aberta no MAB, celebra os cem anos de um dos mais emblemáticos eventos da história nacional, a Semana da Arte Moderna, assim como os 75 anos da Faap.

“A Faap é a grande herança pedagógica da Semana de 22”, sintetiza o curador e professor da Faap Felipe Chaimovich. Vinte e cinco anos depois da Semana de 22, a escola de artes, o último desejo de Armando Penteado registrado em seu testamento, foi construída pelo arquiteto francês Auguste Perret, um dos precursores do Modernismo na arquitetura. Já o MAB abriu as portas ao público somente em 1961, com a mostra Barroco no Brasil, que reuniu cerca de 300 peças, incluindo esculturas de Aleijadinho moldadas em gesso que continuam no local.

HISTÓRIA. É interessante notar que, assim como pode ser visto no saguão, o nascimento do movimento modernista também fala sobre a aliança entre São Paulo e Minas Gerais. A mescla entre os elementos arquitetônicos feitos de pedras contrasta com os vidros pintados, tanto nos vitrais quanto no teto, um projeto de Cláudia Andujar, artista suíça naturalizada brasileira. “Fala tanto da história do Brasil colonial, quanto da história moderna”, diz Felipe.

O filósofo Friedrich Nietzsche dizia que “temos a arte para não morrer da verdade”. Afinal de contas, foi nas telas, esculturas, músicas e peças que os artistas conseguiram inventar e abrir novos caminhos.

Atualmente, a arte continua com seu legado de mudança, mas também ajuda a compreender o passado para a conexão com os marcos da época. Assim, é possível perceber que a Semana de 1922 foi um passo importante no movimento modernista, mas não o seu ponto de partida. 

Para garantir a análise completa do movimento de arte, entender suas origens e heranças, a exposição é dividida em duas partes. A primeira, Antes de 1922, fica três meses em cartaz mostrando as diversas manifestações que já apontavam o desejo de ruptura com padrões. E Depois de 1922, que começa em junho e segue até novembro, mostrando o legado dessa mudança.

Entre os artistas expostos, Antônio Parreiras, Eliseu Visconti, Estevão Silva, Georg Grimm e João Batista Castagneto. Além dos clássicos: Emiliano Di Cavalcanti, Ismael Nery, Flávio de Carvalho e Anita Malfatti, que ganha destaque especial na exposição com quatro obras, incluindo O Homem das Sete Cores, que fez parte da exposição original, em 1922.

Para realizar a exposição, o museu utilizou o próprio acervo – hoje com cerca de 3 mil obras de artes – contou com a parceria de outras instituições que emprestaram obras, como a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), o Museu Afro Brasil, o Itaú Cultural, o Museu Antônio Parreiras (RJ) e o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

VISITA. Na sala redonda que expõe o material, há três corredores. A visita começa pelo meio, o qual explica o envolvimento da família Prado com as artes e o financiamento da Semana de 22 pelo escritor Paulo Prado. A história começa em 1919, quando foi encenada no Teatro Municipal a ópera O Colecionador de Diamantes, de Afonso Arinos, narrando o mito da proeminência de São Paulo e Minas Gerais na constituição da nacionalidade brasileira, estrelada por Eglantina Álvares Penteado Prado, Yolanda Penteado, Julio de Mesquita Filho, Dino Crespi, Maria Helena e Yolanda Prado. “É aí que começa a se instituir essa ideia do protagonismo de São Paulo na história do Brasil como um todo”, explica Felipe Chaimovich. “Esse mesmo grupo vai formar o comitê organizador da Semana de 22, presidido por René Thiollier.”

CRONOLOGIA. Já no final do corredor, um grande painel com cronologia aponta os eventos de maior importância, determinantes na sucessão de transformações que foram ocorrendo nas principais capitais – uma proposta educativa, como já é costume nas exposições da instituição. Na sequência, seguir para a direita ou esquerda é indiferente, uma vez que as duas se complementam, trazendo reverberações do Modernismo e da arte popular de outras regiões do Brasil.

O objetivo, segundo a curadora Laura Rodríguez, é mostrar a ebulição característica das vanguardas até o surgimento dos grupos concretistas.

Em junho, a mostra também incluirá obras dos grupos Concretistas de São Paulo e Rio de Janeiro, do grupo Realismo Mágico liderado por Wesley Duke Lee e por uma seleção dos primeiros professores e alunos da Faap.

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