Nova exposição de Guignard reúne 48 trabalhos históricos de coleções particulares

'Sonhos e Sussurros' será aberta na Galeria Almeida e Dale

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2014 | 03h00

Para receber a retrospectiva Sonhos e Sussurros, com 48 históricas pinturas do pintor Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), a Galeria Almeida e Dale teve de adaptar suas instalações às condições climáticas exigidas por obras-primas que já passaram pelas maiores casas de leilões do mundo, como a Sotheby’s, ou jamais saíram do local de origem. Uma condição museológica, enfim, para uma mostra de caráter não comercial, em que 99% das pinturas não estarão à venda. Elas pertencem a grandes coleções particulares, entre elas as de Ângela Gutierrez, Gilberto Chateaubriand, Roberto Marinho, Ronaldo Cezar Coelho, Sílvio Frota, ou instituições, como a Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza.

Valeu a pena o esforço dos proprietários da galeria, Antonio Almeida e Carlos Dale Jr., e da curadora Denise Mattar, que conseguiram reunir um número expressivo de obras representativas de todas as fases de Guignard, o pintor da paisagem mineira que deu novo sentido à modernidade justamente por sua reverência à tradição. Seu exemplo volta a ser seguido por jovens pintores contemporâneos que também operam nesse registro (por exemplo, Marina Rheingantz e Bruno Dunley, cujas obras podem ser vistas no Sesc Belenzinho ao lado do mestre de ambos, Paulo Pasta).

Algumas retrospectivas foram dedicadas ao pintor desde a sua morte, sendo a principal delas a organizada por Jean Boghici no Museu de Belas Artes do Rio e no Masp há 14 anos. No entanto, a atual conseguiu a proeza de tirar da Casa Guignard, pela primeira vez, uma das maiores telas do artista, Paisagem, de 1947, pertencente ao Museu da Inconfidência, após negociações com a direção do museu onde ele morou, em Ouro Preto. “Tivemos de deixar uma réplica em Minas para mostrar a paisagem aos paulistas”, conta a curadora.

A paisagem, que pode ser vista nesta página, atrás do retrato da curadora, é representativa de uma fase de transição da pintura de Guignard, em que a forma parece se dissolver para privilegiar a luz. A curadora lembra que o fim da década de 1940 marca o advento da pintura quase aquarelada que Guignard exercita ao chegar em Minas, técnica que fez muitos críticos aproximarem sua pintura do universo do fauvista francês Raoul Dufy (1877-1953). O pintor e professor carioca Carlos Zilio já observou que o desafio de um novo cromatismo se tornou um problema para o pintor quando ele retornou da Europa nos anos 1930, após viver dos 11 aos 33 anos em Munique. “Pacientemente, Guignard foi elaborando soluções capazes de apreender as cores tropicais”, escreveu Zilio.

Há casos radicais dessa apreensão cromática, como a do pintor venezuelano Reverón (1889-1954), que, em seu “período sépia” (anos 1940), reduziu a paleta a um monocromatismo perturbador, para mostrar a impossibilidade de pintar sob a luz dos trópicos, que cega e não permite ver direito as formas. Guignard, vindo da Alemanha e de um convívio estreito com expressionistas, estava habituado a amalgamar desenho e pintura, obrigando seus alunos - entre eles Iberê Camargo e Amilcar de Castro - a usar o lápis duro, que marca o papel, não permite volta e afirma o traço.

Ao desembarcar no Rio, nos anos 1930, Guignard ainda trazia as marcas da contemplação dos quadros de Cézanne e Matisse, pintores que raramente citava, mas que, segundo Zilio “impregnam sua pintura”. De Cézanne, ainda de acordo com Zilio, “é nítida a influência na divisão do espaço, o que pode ser constatado nas naturezas-mortas”. Já de Matisse, o professor identifica essa influência nos arabescos que definem as áreas e no emprego da janela como elemento de ligação entre interior e exterior.

Uma tela muito reproduzida após ser comprada num leilão da Sotheby’s, em 1999, pelo colecionador Ronaldo Cezar Coelho por US$ 759 mil (hoje seu valor ultrapassa US$ 2 milhões) confirma a observação de Zilio: Vaso de Flores, de 1931, une dois gêneros, natureza-morta e paisagem, apenas pela presença d e uma janela aberta em segundo plano. A curadora Denise Mattar nota que as paisagens dessa primeira fase da volta ao Brasil são mais afirmativas, “matéricas”, que a dos anos 1940, quando o pintor, a convite de Juscelino Kubitschek, se instala em Minas para criar uma escola de pintura.

Na exposição há exemplos das duas épocas. No caso da fase inicial mineira, ela aponta para uma paisagem do Parque Municipal de Belo Horizonte, dos anos 1940, que retoma, em outro nível, as questões presentes nas paisagens inaugurais de sua volta ao Brasil, feitas no Jardim Botânico do Rio. “Ela é menos matérica, por assim dizer, os traços mais dissolvidos”, compara. Essa dissolução, que domina grande parte da produção de Guignard, segundo o crítico Rodrigo Naves, “não resulta da imposição de formas que desfaçam cruel e violentamente a feição natural das coisas”. As noites frias de São João, com balões que tingem a tela de um brilho de joias, como observou Alfred Bahr, ex-diretor do MoMa de Nova York, “recobrem as coisas com uma neblina espessa, que dissolve as forças que elas poderiam conter”, conclui Naves, lembrando a simetria entre obra e vida que marca a pintura de Guignard.

Introspecção e timidez. Entre as obras mais impressionantes da mostra, aliás, chamam a atenção essas paisagens um tanto simbólicas que remetem à infância do pintor (o pai de Guignard nasceu no dia de São João). Introspectivo, melancólico, tímido por causa do seu lábio leporino, a vida de Guignard é uma tragédia digna de um filme de Douglas Sirk: foi abandonado pela mulher na lua de mel, passado para trás em sua herança pelo padrasto e chegou a trocar quadros por bebida em seus piores dias como dependente de álcool.

Esse sofrimento, que o identificava com Cristo, fez com que Guignard pintasse o Messias com cores dilacerantes. Ninguém vai passar indiferente diante de uma tela como Cristo no Horto das Oliveiras (1957), da coleção de Priscila Freire, amiga do artista. Ou das paisagens imaginárias, os óleos de maiores dimensões. “Neles, é possível notar principalmente a influência da pintura chinesa”, diz a curadora. Embora o pintor nunca tenha feito referência à arte oriental, com certeza é uma observação pertinente.

Óleos do pintor podem alcançar até R$ 6 milhões

Um dos pintores mais valorizados do modernismo brasileiro, Guignard desperta nos colecionadores interesse especial, assim como Volpi e Di Cavalcanti. Segundo os galeristas Antonio Almeida e Carlos Dale Jr., uma boa tela do pintor alcança hoje entre R$ 5 e R$ 6 milhões, como o Vaso de Flores (1931), que foi adquirido pelo colecionador Ronaldo Cezar Coelho num leilão da Sotheby’s, em 1999, por US$ 759 mil (na ocasião, ele descobriu que tinha de pagar US$ 200 mil de impostos para trazer a obra de volta do Brasil. “É difícil encontrar um quadro como esse à venda, hoje, no Brasil”, garante o marchand Carlos Dale Jr. Seu sócio, Antonio Almeida, revela que as paisagens imaginárias de Guignard, seus trabalhos que podem alcançar grandes dimensões, são ainda mais raros. Ele calcula que o pintor tenha produzido algo em torno de 2 mil telas no Brasil. As pinturas da fase alemã são quase impossíveis de encontrar.

GUIGNARD

Galeria Almeida e Dale. R. Caconde 152, 3882-7120. 2ª a 6ª, 10 h/ 18 h; sáb., 10 h/ 14 h. Grátis. Até 29/11. Abertura terça-feira, 19 h, para convidados.

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