Notícias da Podrebras

Não há dia em que os jornais não estejam tomados por notícias políticas que, se levadas a sério, provocariam depressão coletiva. Talvez os cidadãos devessem receber um auxílio-escândalo ou um adicional de insalubridade para, aí sim, sair da anestesia moral e ir às ruas protestar? Vamos às manchetes da Podrebras, agência que divulga a podridão do poder público:Renan Calheiros e Fernando Collor Comandam CPI da Petrobras - Mais uma da série "seria hilário se não fosse trágico", em cartaz em todas as cidades do Brasil. Calheiros ainda não explicou de onde vinha o dinheiro para pagar a pensão de seu filho; nem ao menos foi punido por brandir notas falsas em plenário. Collor dispensa apresentações, mas não era ele que ia privatizar tudo, inclusive a Petrobras, essa plataforma de marajás? E eles, Collor e Calheiros, não eram inimigos? Que ambos sigam na política já é lamentável. Que agora sejam a tropa de choque parlamentar do PT, na antessala da campanha de 2010, diz uma enciclopédia sobre a política brasileira.Senador Sarney recebe auxílio-moradia - Deve ser uma ajuda de custo para manter a ilha de sua propriedade? Ou um de seus outros latifúndios? Claro, ele rapidamente aplicou a tática do "eu não sabia". Como é que poderia ter reparado num depósito tão irrisório em suas milionárias contas, como aquela que tinha no Banco Santos? Por muito menos o líder do Parlamento inglês renunciou e muitos de seus membros devolveram o dinheiro. Se corrupção existe em toda parte, como se fala tanto no Brasil (vide Ibsen Pinheiro, pai de natimorta reforma política), a impunidade tem forte cor local.Lula diz que investigar a Petrobras é irresponsabilidade - Isso significa que o chefe do Executivo nacional desautoriza tudo que Polícia Federal, Ministério Público e Tribunal de Contas têm revelado a respeito de licitações suspeitas, patrocínios clubistas, aditivos contratuais e outros problemas "administrativos" numa das maiores estatais do mundo. Mas Lula em seguida deixou claro seus motivos: contou ao democrata Hugo Chávez que pensa em arranjar um emprego na Petrobras ao fim do mandato, talvez para frequentar entre um churrasquinho de coelho e outro.Yeda Crusius é acusada de fazer caixa 2 - A governadora mostra a tocaia moral em que os tucanos se enfiaram desde o governo Lula. Eles achavam que a continuidade de sua política econômica mostraria o acerto do governo FHC, mas esqueceram que a continuidade de suas práticas políticas mostraria que, se todos são iguais, é melhor ficar com alguém que é mais igual ao povo do que os outros. O esquema de Marcos Valério começou com o PSDB, e isso foi suficiente para tirar credibilidade do tucanato aos olhos da população. No Rio Grande do Sul, onde o PT já mostrara tão bem o que era, a coisa ficou ainda mais feia.Thomaz Bastos diz que mensalão não existiu - Se não existiu, o que foram aqueles depósitos no BMG e Rural? De onde veio aquele carro de Silvinho Pereira? Por que Valério não executou os serviços públicos para os quais sua empresa foi contratada? A quem Lula se referiu quando se disse traído, embora aquela fosse apenas uma "praxe" dos partidos brasileiros? Por que Duda Mendonça afirmou ter recebido via paraíso fiscal? E por que José Alencar disse que houve um "sacolão", o pagamento aos aliados do PTB et caterva? Ah, esquece essas perguntas velhas, isso já passou, o Brasil é o país do futuro...Promotoria pede rejeição de contas de Kassab - Como se não bastasse, onde estão as promessas feitas nessa mesma campanha? Basta circular pela cidade (essa antiga atribuição de repórteres) e ver a quantidade de problemas. Cidade Limpa significa basicamente que tem menos outdoors e menores letreiros, pois as ruas e praças estão sujas, além de mal iluminadas, congestionadas e cada vez mais inseguras. O número de pessoas morando em favelas aumentou. A manutenção da cidade também merece ser rejeitada.Mas agora chega, que o leitor já me entendeu. Não preciso falar do deputado do castelo, do outro que deu carteirada para não passar no bafômetro, etc. Num país de cultura oligárquica, onde a classe política sempre se protege da opinião pública por mais que brigue entre si, cidadania é sempre uma palavra bonita, não uma representação real. Aqui a máxima de que "à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta" sofreu ligeira adaptação: à mulher de César não importa ser desonesta, basta parecer honesta. Ave.RODAPÉNão, o livro Animal Spirits, de George A. Akerlof e Robert J. Shiller (Princeton), não é sobre os políticos. É sobre um tema que, felizmente, mais e mais vem provocando bons autores: a interdependência entre economia e cultura, o modo pelo qual a psicologia humana determina decisões que muitas vezes são interpretadas como opções racionais de mercado - de acordo com a visão tecnocrática de mundo que levou o mundo à atual crise e propunha a mesma fórmula fundamental para salvar economias dos mais variados tipos. Confiabilidade, justiça e outros valores têm pesos relativos maiores do que se imaginam, e a própria atribuição de preços e juros contém variantes extramonetárias. Sobre a atual crise, eles mostram como a crença generalizada entre americanos de que não havia riscos na alavancagem de financiamentos habitacionais deu overdose de confiança. O livro não vai fundo, mas pelo menos aponta para questões maiores do que liquidez e câmbio.UMA LÁGRIMAPara o pintor Arcangelo Ianelli. Suas telas podiam às vezes parecer repetitivas, variações mínimas demais de áreas de cor de contorno geométrico, mas ele havia chegado ali por um caminho íntegro, pessoal, que começa na sua fase figurativa e vai gradualmente se diluindo em abstração sugestiva. Ele usava cores vivas e as modulava para uma textura sombria, reduzindo a vibração e ao mesmo tempo apontando para ela - num procedimento curiosamente inverso ao de seu irmão Thomaz, também morto, que usava figuras tremidas e liquefeitas que pareciam sumir no fundo. Vista isoladamente, é uma arte que se aproxima do decorativo, mas em conjunto ela estabelecia seu clima, sua identidade.Outra lágrima, atrasada, para o escritor uruguaio Mario Benedetti, poeta e ensaísta prolífico, mais conhecido por seu romance A Trégua, de um intimismo raro em sua geração latino-americana (Márquez, Llosa, etc.). O outro grande escritor de seu país, Juan Carlos Onetti, de quem se comemora o centenário agora, deixou uma obra mais poderosa, mais densa, só que isso não diminui em nada o lugar que Benedetti conquistou na memória das letras.DE LA MUSIQUENas Sonatas para Flauta de Johann Sebastian Bach, CD que o selo Clássicos acaba de lançar no mercado, a flautista italiana Livia Lanfranchi e o cravista brasileiro Alessandro Santoro tocam com instrumentos construídos nos moldes da época, século 18, mas para o ouvinte contemporâneo. Os afetos não viram afetações, e a dinâmica e o colorido de Bach - sua dança de ideias, sua conversa com o invisível - estão todos ali, num simples dueto de câmara.CADERNOS DO CINEMABudapeste, o filme de Walter Carvalho baseado no romance de Chico Buarque, não "pega". Há alguns achados de roteiro, a fotografia é bonita, Leonardo Medeiros é ator de recursos, mas o filme não consegue fluir como o livro, entre a margem da narrativa realista e a da metalinguagem pós-moderna. É difícil levar para o audiovisual uma voz em primeira pessoa exasperada, como que dentro de um labirinto do qual tenta fugir sem conseguir, e um "off" em excesso não adiantaria. Mas em muitos momentos o filme se arrasta em cenas como as das aulas de húngaro; em outros parece querer de toda forma não ficar chato, como ao mostrar cinco nus frontais na primeira meia hora.A história é sobre um ghost-writer que tenta fugir à língua materna exilando-se no "diabólico" húngaro. Logo, momentos como aquele em que telefona para o Brasil e fica dizendo para si mesmo palavras como "Guanabara", saboreando as vogais melífluas do português, são mais importantes do que outros; mas o filme o mostra de fora da cabine, rapidamente, como se aquilo fosse apenas um dos problemas. Não que o romance não tenha seus clichês gilbertofreyrianos, mas é muito mais convincente como narrativa autoral.POR QUE NÃO ME UFANOA recusa de Ellen Gracie na OMC e o fracasso das propostas de Lula em sua viagem à China contrariam todo o discurso oficial sobre a importância do Brasil e do "cara" no cenário internacional. Importância o Brasil tem alguma, mas superestimá-la é a forma mais veloz de colocá-la em risco.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.