Nos recantos da condição humana

Convidado da Osesp, maestro alemão Helmuth Rilling fala sobre o Réquiem de Brahms, mensagem de consolo perante a morte

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

02 de outubro de 2008 | 00h00

"Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a vindoura." Não é de hoje que a morte fascina os mais diferentes artistas - e, entre eles, os compositores. Haendel, Bach, Mozart, Beethoven, Verdi, Fauré, Britten - todos eles fizeram incursões pelos textos da liturgia católica na busca por definir o fim ou renascimento que a morte pode sugerir. E, na lista, lugar especial tem o alemão Johannes Brahms. "Seu Réquiem Alemão destaca-se como uma das obras mais pessoais dedicadas ao tema", diz o maestro Helmuth Rilling, que rege a peça a partir de hoje na Sala São Paulo à frente da Osesp e de seu coro. No mundo dos clássicos, há artistas que se dedicam com tal ênfase a certo repertório que suas interpretações se misturam à própria idéia que temos das obras. É assim com Rilling e a música de Bach. Criador da Stuttgart Bach Academy, responsável por uma série de estudos e edições da música do compositor, ele já gravou todas as suas obras corais - 170 discos, mil peças, muitas delas revisitadas em segundas gravações. E é então que a conversa, na tarde de terça, após ensaio com Osesp, chega a Brahms. "A música coral sempre foi uma de suas paixões. Era um artista do século 19, mas muito interessado na música do século 18 ou mesmo do século 17. As tradições italiana e germânica, a música de Bach e Haendel - tudo isso No, Réquiem não é diferente."Brahms (1833-1897) começou a escrever seu Réquiem, a missa dos mortos da tradição católica, na década de 1860. Ele próprio jamais fez menção ao fato, mas especialistas, a partir de cartas e de trechos do texto da obra, colocam como inspiração a morte de sua mãe, em 1865. Dez anos antes, ele escrevera suas primeiras obras de temática religiosa, o coral Geistliches Lied e o moteto Schaffe in mir, Gott. Nessa época, Clara, pianista, compositora e viúva de Robert Schumann, já alertava: a volta acadêmica ao passado da composição, ao ser aplicada à religião, mostrava um compositor bagunçando os limites entre crença espiritual e artística. Essa mistura de religião e jornada pessoal seria fundamental para a compreensão não apenas do Réquiem mas também da personalidade de Brahms. O compositor Antonin Dvorák disse certa vez que "ali estava um grande homem, uma grande alma, mas incapaz de acreditar em alguma coisa". O veredicto, a história mostrou, foi precipitado. Brahms não era ateu (que não crê em deus) nem agnóstico (que não acredita em nada que não caia sob o domínio dos sentidos). Refutava, no entanto, a doutrina religiosa. Para ele, a fé e a crença em deus eram necessidades intrínsecas da condição humana, e não deveriam respeitar regras colocadas por instituições."Quando pensamos no Réquiem de Mozart, ou mesmo no de Verdi, duas peças grandiosas, vemos que os compositores utilizaram o texto em latim retirado da tradição católica. No de Verdi, por exemplo, é impactante o Dies Iraes, o dia de fúria, em que a humanidade é confrontada com seus pecados no momento do juízo final", lembra Rilling. "Brahms, no entanto, opta por não reproduzir o texto latino. Ele vasculha a Bíblia em busca de frases e temas que lhe interessam. E aí fica muito claro seu objetivo. Para ele, a função do réquiem é oferecer consolo às pessoas perante a morte." Entre muitos exemplos, Rilling cita uma passagem específica. Em seu Evangelho, São João escreve que Deus, por amar o homem, e ofereceu a ele seu único filho para que aqueles que nele acreditassem alcançassem a vida eterna. Brahms substituiu esta por outra passagem: "Abençoados são aqueles que morrem em Deus desse momento em diante". Em outras palavras, o compositor rechaça tanto a idéia de Cristo como redentor quanto a crença de que apenas uma vida de correção, livre do pecado, daria ao homem o direito à existência eterna. "Quem sofre, acredita o homem Brahms, precisa ser confortado. É essa a mensagem. Ao falar da morte, Brahms não trata de religião. Fala de si mesmo", diz Rilling.A peça utiliza orquestra sinfônica completa, coro e dois solistas (aqui, o barítono Michael Nagy e a soprano Letizia Scherrer). Sua "primeira" estréia, em Viena, despertou críticas mistas por parte de público e especialistas, que ressaltaram negativamente a volta ao passado proposta pelo compositor. Dois anos mais tarde, em Bremen, onde a estréia original deveria ter acontecido, a situação foi diferente. "As condições adversas do concerto em Viena já não eram mais um problema", conta Rilling. "E a inclusão de uma ária de Haendel para complementar o programa jogou nova luz sobre o Réquiem, tanto que o próprio compositor acabou por inserir um sétimo movimento, que contém uma ária para soprano que se tornaria uma das favoritas do repertório sacro."Se Brahms fascinou-se pela música coral, o mesmo pode ser dito de Rilling, que desde cedo dedicou-se ao gênero, formando novos corais na Alemanha e assumindo a regência dos mais tradicionais conjuntos europeus. Mais do que isso, ele também exportou o trabalho da Stuttgart Bach Academy para outros países, formando pólos, tanto nos Estados Unidos quanto no Japão, de pesquisa e interpretação da música de Bach. "O que me atraiu nesse repertório, desde cedo, foi a possibilidade de união entre texto e música. O homem é um ser sensível mas também racional. A fruição musical é resultado da articulação desses dois momentos, que fica ainda mais clara quando texto e música se combinam. Veja o caso do Réquiem. Momentos conflituosos vão dando lugar à uma música de beleza rara à medida em que o drama é substituído pelo conforto, pelo consolo. E é isso que faz com que obras assim continuem nos dizendo algo."O mesmo ele identifica na obra de Bach. "Depois de anos de pesquisa, hoje temos um conhecimento muito maior de sua obra e acho interessante o processo de resgate histórico de suas partituras, que tentam recuperar o estilo da época em que foram escritas. Mas não se deve nunca esquecer que o público da época de Bach não é igual ao nosso público. E que nós vamos ler essa música de uma maneira diferente. É isso o mais importante." ServiçoOsesp. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes, s/nº, 3223-3966. 5.ª e 6.ª, 21h; sáb., 16h30. R$ 28 a R$ 98O ?Réquiem?Com texto na língua do compositor, o réquiem de Brahms ganhou o nome de ?Réquiem Alemão?. O compositor, no entanto, ao discutir a questão, disse que, pela temática e inspiração, poderia se chamar ?Réquiem da Humanidade?. A obra está dividida em sete partes:PRIMEIRO MOVIMENTO: Com texto retirado do Sermão da Montanha, começa com um tom sóbrio e perturbador que, aos poucos, vai dando espaço a uma música mais clara, levando o ouvinte do luto ao conforto.SEGUNDO MOVIMENTO: Uma marcha fúnebre nos relembra a onipresença do fim, dividindo espaço com uma música mais leve que, no final, emerge em um allegro, mais uma vez levando em direção ao consolo.TERCEIRO MOVIMENTO: A efemeridade da vida humana é o tema do solo do barítono em um pano de fundo tenso.QUARTO MOVIMENTO: Uma cena pastoral oferece oportunidade para contemplação e conforto após o início da obra.QUINTO MOVIMENTO: Aqui, no primeiro solo da soprano, a mensagem central faz referência ao consolo materno.SEXTO MOVIMENTO: Contém a música mais dramática da obra. "Morte, onde estás?", pergunta o barítono.SÉTIMO MOVIMENTO: Uma radiante melodia leva ao retorno gradual do início da sinfonia. No canto, a obra se encerra com a mesma palavra com que se iniciou: "Selig" (Abençoado).

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