''''Nós, os coletivos...''''

Os Satyros encenam Divinas Palavras, peça que é considerada uma verdadeira armadilha

Erika Riedel, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2007 | 00h00

Depois de duas peças da dramaturga alemã Dea Loher (A Vida na Praça Roosevelt e Inocência), foi de um espanhol, Ramón Del Valle-Inclán, o texto escolhido para a nova montagem da Cia. Os Satyros.Divinas Palavras, que estréia amanhã, no Espaço dos Satyros Um, conta a história de uma mendiga alcoólatra, Joana Rainha, que explora o filho Laureano, portador de deficiências mentais e físicas para conseguir dinheiro. Quando Joana morre, Laureano, uma boa fonte de renda, passa a ser disputado por suas tias.Essa não é a primeira vez que Os Satyros montam um texto do autor. Em 2000, o grupo encenou Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte. ''''Ele é um dos maiores dramaturgos do século 20. Curiosamente, no Brasil pouco se fala dele. Há vários pesquisadores que colocam a obra de Valle-Inclán acima da de García Lorca. Há nele uma urgência na pesquisa de temas pouco explorados pela dramaturgia de sua época: a mesquinhez, a avareza, a ganância, por exemplo'''', explica Ivam Cabral, que interpreta Laureano e assina a tradução e a adaptação da obra ao lado de Rodolfo García Vázquez, o diretor.''''Suas personagens vêm de escombros, da miséria. Ele retratou, como poucos, a problemática de uma classe mais desfavorecida e a Galícia do seu tempo, cenário da maioria de sua obra, é muito próxima do Brasil de hoje: corrupção, pobreza, falta de perspectivas.''''Para contar sua versão da história, o grupo transformou os miseráveis em artistas e, em vez de ir de um povoado a outro na Galícia, como no original, as personagens ganham o mundo e vão da Praça Roosevelt a Paris e à Nova York. ''''Ao colocar os artistas no lugar dos mendigos, queremos refletir sobre a nossa história - não só a do Satyros, mas do teatro produzido por nós, coletivos, neste momento. Há uma miséria pairando sobre a cena brasileira, atualmente. Embora criativa, há muito o que fazer por ela'''', diz Cabral.Refletir sobre os miseráveis e excluídos, sejam eles anônimos, mendigos, travestis ou artistas, é um tema constante no repertório da companhia. E não por acaso. ''''Pensamos que o artista tem sempre uma responsabilidade social. O nosso teatro trabalha com isso o tempo todo. Não tem nos interessado falar da burguesia. Pelo menos da forma como ela tem sido retratada ultimamente. Depois, porque existem muitas pessoas falando sobre esses universos. E porque a voz da exclusão nunca poderá ser ouvida, continuaremos nosso trajeto. Também precisamos nos comunicar com o nosso entorno. Trabalhamos no centro de uma das maiores e mais problemáticas metrópoles do planeta. Há muita coisa a dizer ainda.''''A nova empreitada dos Satyros reafirma o perfil persistente e quase teimoso do grupo que acredita que a arte não tem e não pode ter limites. ''''Exatamente por isso é que a gente resolveu meter os pés pelas mãos. Sabemos da dificuldade de se adaptar um clássico como Divinas Palavras. O texto é considerado uma arapuca para a maioria dos criadores. O Antonio Abujamra me disse recentemente que esta obra é uma armadilha, que nenhum grande encenador se deu bem com ela. De fato, quando se lê o texto de Valle-Inclán, a primeira coisa que vem à cabeça é exatamente isto: como realizar um texto desses? Por isso a peça, escrita em 1920, demorou muito para ser encenada. Consideravam-na uma obra impossível de se levar para os palcos.'''' Assim, a tarefa parece árdua demais, mas não é. Basta lembrar que o grupo é o grande responsável pelo ressurgimento da Praça Roosevelt como um dos mais importantes pólos culturais da cidade atualmente.Serviço Divinas Palavras. 90 min. 14 anos. Espaço dos Satyros Um (70 lug.). Praça Roosevelt, 214, 3258-6345, Centro. 6.ª e sáb., 21h30; dom., 21h. R$ 25. Até 16/12

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