Nós, animais

Talvez o único sinal distintivo da espécie humana seja sua ansiedade em definir o que a distingue das outras espécies. Como nota o biólogo holandês Frans de Waal no livro Eu, Primata (Companhia das Letras), desde o "bípede implume" de Platão até o "animal moral" de Richard Wright há uma tentativa de catalogar nossa espécie como singular, especial, portanto superior aos demais animais - na verdade, nem sequer nos vendo como animais. A discussão sobre "o lugar do homem na natureza", para citar o título de um artigo de 1863 do brilhante evolucionista Thomas Huxley, termina sempre ditada pela necessidade de reafirmá-lo como um lugar essencialmente próprio. E este é o problema. Frans de Waal, um primatologista muito conhecido, radicado nos EUA, estudou algumas espécies de símios, mas em seu livro destaca os bononos. Como a maioria dos estudos sobre o comportamento dos animais (a etologia) trabalhou com chimpanzés ou gorilas a fim de ensaiar comparações com os homens, ele dá ênfase aos bononos por seu comportamento menos agressivo, mais empático, com o objetivo de mostrar que nossas semelhanças com tais parentes não passa apenas pela questão dos instintos. Ele parte de uma provocação de outro genial evolucionista, Stephen Jay Gould: "Por que não procurar a continuidade com outros animais também para as nossas características ?nobres??" Desconfio um pouco dessas ilações etológicas (em especial quando dizem, por exemplo, que o homem é "por natureza" poligâmico ou monogâmico), mas é importante notar que De Waal não cai nesse erro de decretar características da natureza humana a partir de seus estudos. E concordo com seu ponto principal: não dá para tachá-la de eminentemente agressiva ou egoísta, como fizeram muitos - entre eles Richard Dawkins, bastante criticado no livro -, nem de eminentemente bondosa ou inocente, como Rousseau e seus seguidores. A principal contribuição de De Waal é mostrar que não são apenas os instintos que partilhamos com os macacos, mas muito mais do que isso. Há uma gama de sentimentos, habilidades e, sim, valores comuns, derivados da interação entre indivíduo e coletividade, com origem ou expressão em nossa biologia. Competição e cooperação se confundem, e o mesmo feixe de impulsos pode implicar tanto a guerra quanto a moralidade. A natureza não é uma programação prévia de todos os nossos atos, pois estamos em interação constante com os outros seres. "Somos improvisadores." A oposição entre natureza e cultura é falsa. Lendo O Dilema do Onívoro (Intrínseca), o best-seller do jornalista americano Michael Pollany, é inevitável pensar a mesma coisa, só que com a ressalva de que nossa cultura tende a nos fazer ignorar a natureza com a qual se relaciona tão profundamente. Pollany mostra como desconhecemos a cadeia industrial que separa a origem dos alimentos e a nossa boca - incluindo nessa crítica, por exemplo, a moda dos orgânicos. Também destoa do coro politicamente correto ao defender que se coma carne vermelha, não de animais confinados que se alimentam de grãos, mas dos que comem capim, rico em ômega-3, e são abatidos de modo limpo. Sua objeção central é às dietas radicais, que demonizam ora carboidratos ora gorduras e que deixam de lado os fatores do prazer e da tradição. Nossa vocação, por razões evolutivas, é comer de tudo; o problema está mais na produção do que na característica do alimento. Uma cultura que nos aliena de nossa natureza atinge, antes de mais nada, a própria cultura. Temos dificuldades em nos vermos como corpos, entes fisiológicos, aos quais não queremos ser reduzidos porque dotados de alma ou consciência; gostamos de pensar que nossas opções são baseadas em critérios ideais, não em propensões materiais. Fingimos que podemos separar o amor do ciúme, a admiração da inveja, a amizade do interesse, o prazer da necessidade - e o resultado é que estragamos essas boas emoções ao ver que não são totalmente puras. Não assumimos que existe, digamos, uma sutil hierarquia sexual em nosso cotidiano, segundo a qual as pessoas procuram companhia nas que estão em degraus semelhantes de atratividade, ainda que as mulheres relativizem mais esse dado. E nem sequer paramos para notar como os ciclos da vida estão relacionados com o estado hormonal; só quando se fala na adolescência se lembra disso. A distinção da espécie humana não está em gênero, mas em grau. Não é uma diferença de essência; é de complexidade. Esta deriva de uma série de particularidades que são, antes de mais nada, biológicas. Por exemplo: o tamanho maior do nosso cérebro, em destaque pela região pré-frontal - envolvida justamente com a linguagem e a empatia -, leva ao fato de que nascemos de modo mais indefeso do que a maioria dos animais. Isso significa que necessitamos de maior proteção familiar e que essa influência se torna inerente à formação cerebral. Outro exemplo, divulgado em pesquisa recente: andar ereto sobre dois pés permitiu que nosso organismo gastasse menos energia com a locomoção, liberando o cérebro para desenvolver outras capacidades. Ainda estamos longe de ver as implicações dessas pequenas grandes diferenças. "Somos bipolares", diz Frans de Waal; eu diria "ambivalentes". Sim, criamos armas nucleares - cada dia mais acessíveis em qualquer parte do mundo, como alerta William Langewiesche em outro livro recém-lançado, O Bazar Atômico, reportagem interessante ainda que superficial. Mas também fazemos uso de uma variedade de temperos para cozinhar nossas carnes como nenhum outro animal no planeta. Deve ser por isso que se diz que a variedade é o tempero da vida. Ela também é o mais humano dos atributos. RODAPÉ Os três livros comentados acima mostram de novo como é forte a onda de não-ficção, de livros de ensaio, história, biografia, jornalismo, etc., cada vez mais lidos do que romances. Há muitos outros exemplos chegando às livrarias brasileiras, como A Dança dos Deuses, de Hilário Franco Júnior, sobre a relação entre futebol e sociedade, sobre como o esporte é síntese dos momentos históricos brasileiros e mundiais, servindo de metáfora sociológica, antropológica, religiosa, psicológica e até lingüística do mundo contemporâneo. "Guerra simbólica", faz uma ligação entre o espírito tribal do homem e seus complexos jogos de identidade numa realidade móvel, tal como um teatro não-verbal, dominado pelas contradições da existência. Leia. Há também livros de não-ficção lançados há tempo que ainda não haviam sido traduzidos. Uma beleza é o álbum Sigmund Freud, de Ralph Steadman (Ediouro), biografia que se concentra nas teses de Freud sobre o chiste e as ilustra de forma brilhante, em cartuns a ponta-seca e nanquim adequados aos tormentos e ironias do pensador. POR QUE NÃO ME UFANO (1) O governo estava ansioso para "provar" que o acidente da TAM não teve relação com o caos aéreo. O gesto "top, top, top" de Marco Aurélio Garcia é o exemplo mais desagradável disso. Mas nem assim Lula e companhia puderam ignorar a pressão da sociedade para que os aeroportos sejam seguros, tanto que precisou sacar da gaveta um plano para Congonhas que, mesmo assim, está longe de resolver os problemas, caso venha de fato a ser executado. Desde então só se viu mais confusão, apagão, deficiências de infra-estrutura e gestão. O setor é um símbolo do capitalismo à brasileira: com o duopólio de TAM e Gol, não tem concorrência, não tem regras claras, não é fiscalizado; o Estado só se locupleta, entregue a uma gente despreparada e partidarizada. A escolha de Nelson Jobim segue a mesma linha, exceto pelo fato de que ele simboliza mais "pulso firme" do que Waldir Pires. É uma escolha baseada não em critérios profissionais, que soa como agradecimento aos favores prestados por ele quando ministro do STF. Peemedebista que não esconde seus sonhos de ocupar o Palácio do Planalto, ele até agora não disse qual modelo enxerga, se mais civil ou não, se mais privatizado ou não. Não deve fazer a mínima idéia, como, de resto, seu chefe, o presidente Lula, que passa a maior parte do discurso transmitindo tranqüilidade à população, dizendo que entrega a alma a Deus quando entra em avião... É esse que chamam de "nosso guia espiritual". POR QUE NÃO ME UFANO (2) Os obituários, como sempre no Brasil, capricharam na pátina ao noticiar a morte do senador Antonio Carlos Magalhães. Numa pretensa eqüidistância, falaram de suas ligações com o regime militar e seus traços coronelistas, de "malvadeza", e também disseram que ele "modernizou a Bahia" e tinha um lado "ternura". Esses elogios me fizeram lembrar daqueles que diziam que "no regime militar pelo menos houve o ?milagre? econômico". O fato é que ACM era um oligarca riquíssimo, com sua típica mistura de paternalismo e autoritarismo - a confusão entre laços pessoais e máquina pública que se tornou padrão na vida brasileira, como se vê na atualidade -, dominou sua região pela mídia e pela autopromoção e participou de inúmeros atentados à democracia e ao decoro parlamentar ao longo de sua carreira. Não há como atenuar esse legado. ''''A oposição entre natureza e cultura é falsa. Mas nossa cultura nos aliena da natureza'''' ''''O setor aeroviário é um símbolo do capitalismo à brasileira: o Estado só se locupleta''''

DANIEL PIZA, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

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