Noite de emoção, humor e sem gafes

Primeira edição do Prêmio da Cooperativa Paulista inova nas categorias e tem ambiciosa amplitude, mas requer aprimoramento

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

18 de fevereiro de 2009 | 00h00

O clima foi informal e a cerimônia sem gafes e bem-humorada - de verdade, sem piadinhas forçadas -, um feito raro em noite de entrega de prêmios. A festa na qual foram conhecidos os vencedores do Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro 2008 se deu anteontem à noite no Espaço Parlapatões. Foi a 1ª edição dessa premiação idealizada pela cooperativa, que deu aos artistas uma escultura desmontável, cujo desenho remete ao espírito coletivo da atividade teatral, criada pela cenógrafa Luciana Bueno.Os atores anfitriões Hugo Possolo e Raul Barreto foram os apresentadores nada cerimoniosos da ?cerimônia?. Na abertura, o presidente da cooperativa Ney Piacentini explicou que a ideia do prêmio surgiu em 2007 e o formato foi muito discutido em reuniões, pois se buscava atender à forma de produção do teatro de grupo. "A ideia foi priorizar o trabalho coletivo sobre a personalidade. Mas o conceito está em processo. Por favor, façam críticas, deem sugestões", pediu à plateia. "É mesmo uma experiência, queremos aperfeiçoá-la. Não é um prêmio para cooperados, tem de ser para a cena", falou ao Estado pouco antes da festa.A inovação buscada se faz notar, por exemplo, na categoria ?elenco?, que substitui o destaque para intérpretes. O ator Domingos Montagner subiu ao palco com o parceiro artístico de longa data Fernando Sampaio para receber o prêmio de ?elenco? por A Noite dos Palhaços Mudos e brincou: "O importante mesmo não é a premiação, é o trabalho - mentira, mentira", disse agarrando a escultura.Também inovadora é a categoria ?projeto visual?, que pode abarcar iluminação, cenografia, figurinos e até design gráfico. Pois era exatamente o caso do vencedor Renato Bolelli Rebouças, do Grupo XIX de Teatro, que acompanhou a criação de Arrufos desde o primeiro dia de preparação e de suas ?provocações? ao elenco, por meio de tecidos e objetos levados aos ensaios, nasceu a ?visualidade? do espetáculo. Quem viu sabe que é impossível separar elementos, da cenografia, uma espécie de coreto que abriga espectador e atores, à iluminação, que vem de abajures na plateia. "Arrufos se dá num teatro que a gente construiu", disse Bolelli.O desejo de ser "menos injusto", como disse Ney Piacentini - "impossível ser totalmente justo numa premiação" -, não resultou em inovação a qualquer custo. Foram mantidas indicações como direção. O vencedor dessa categoria, Antunes Filho, foi o único explicitamente emocionado ao receber sua escultura por Foi Carmen, um trabalho que faz jus ao nome de "experiência", uma criação plena de silêncios e gestos, definida por alguns como teatro-dança, e bem diferente da recente linha de pesquisa do diretor. "Fiquei realmente surpreso e feliz", disse ao Estado depois da festa. No palco, também externou a sua surpresa e, depois de dizer que o prêmio era para o Centro de Pesquisa Teatral (CPT-Sesc), ele tirou um papel do bolso e generosamente fez questão de citar nominalmente cada um dos envolvidos na criação de Foi Carmen. "Eles criaram e preservaram esse trabalho, obrigado", encerrou Antunes.Outra característica original do prêmio, e talvez a mais difícil de ser devidamente cumprida, é a sua amplitude. Há categorias voltadas para trabalhos dirigidos para crianças e jovens, mas nada impede que espetáculos para esse público sejam premiados em outros aspectos. Foi o que ocorreu com Sapecado, da Banda Mirim, que venceu em sua categoria específica e também deu a Kleber Albuquerque e Tata Fernandes o prêmio de projeto sonoro. O problema que salta aos olhos nesse caso é a dificuldade da curadoria - nesta 1ª edição formada pelo crítico Kil Abreu, o dramaturgo Rogério Toscano e o ator e diretor Gabriel Guimard - em acompanhar a intensa produção teatral. "Daí a importância de aperfeiçoar o formato", argumenta Ney Piacentini.A premiação buscou lançar foco sobre trabalhos ainda ocultos de grupos atuantes fora do chamado ?circuito? central, um espaço na verdade difícil de ser determinado geograficamente, pois cada vez mais se amplia. Por exemplo, o experiente grupo Pombas Urbanas instalado em Cidade Tiradentes pode ser considerado periférico? Mas sem dúvida, nesse aspecto, saiu ganhando o Grupo Clariô, instalado em Taboão da Serra, que venceu em três categorias, o mais premiado da noite.Mas o ?problema? da abrangência refletiu-se na não indicação na categoria publicações, ainda que muitas tenham sido lançadas no ano passado. "A curadoria não se sentiu capaz de fazer uma seleção justa", disse Hugo Possolo. Simbolicamente, foi dado um prêmio especial, mais do que merecido, à fotógrafa Lenise Pinheiro por seu belo livro Fotografia de Palco.Grande ausente da noite, José Celso Martinez Corrêa foi substituído no palco pela diretora Cibele Forjaz. E a festa terminou com o belo canto das atrizes Isabel Teixeira e Georgette Fadel. VencedoresESPECIALLenise Pinheiro pelo livro Fotografia de PalcoELENCOA Noite dos Palhaços Mudos (Grupo La Mínima)DIREÇÃO Foi Carmen (Antunes Filho, Centro de Pesquisa Teatral)DRAMATURGIA Cindy Hip-Hop (Claudia Schapira, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos)PROJETO VISUALArrufos (Renato Bolelli Rebouças, do Grupo XIX de Teatro)PROJETO SONOROSapecado (Kleber Albuquerque e Tata Fernandes, da Banda Mirim)OCUPAÇÃO DE ESPAÇO Grupo Clariô, pela ocupação e criação do Espaço Clariô, em Taboão da SerraTRABALHO APRESENTADO EM RUAA Brava (Brava Companhia)GRUPO OU COMPANHIA REVELAÇÃOGrupo ClariôTRABALHO PARA PLATEIA INFANTO-JUVENILSapecado (Banda Mirim)PUBLICAÇÃO DEDICADA AO UNIVERSO DO TEATRONão houve indicaçõesTRABALHO APRESENTADO EM SALA CONVENCIONAL A Noite dos Palhaços Mudos (Grupo La Mínima)TRABALHO APRESENTADO EM SALA NÃO-CONVENCIONALVento Forte Para Papagaio Subir (Teatro Oficina Uzyna Uzona)TRABALHO NO INTERIOR E LITORAL PAULISTAHospital da Gente (Grupo Clariô, de Taboão da Serra)

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