Nóbrega, naturalmente e com o requinte dos sábios

Em Teoria e Jogo, ele formula léxico universal que serve como guia para dançar todo e qualquer tipo de música e faz desabrochar os seus modos autorais

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Demorou um tanto. Na verdade, quase 40 anos. Mas, em Naturalmente, Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira, seu mais recente espetáculo, aquele que chama de "sua tese", e que apresentou até ontem, no Sesc Vila Mariana, Antonio Nóbrega formula a sua proposta para a querela que marcou, nos anos 70, o Movimento Armorial. Naquela ocasião, Ariano Suassuna advogou pela criação de uma arte brasileira a partir da junção do erudito com o popular. Dela nasceu o Balé Armorial, dirigido por Flávia Barros e, pouco depois, o Balé Popular do Recife, de André Madureira, que Ariano não reconheceu como armorial porque não usava a linguagem europeizada do balé como ingrediente principal.Foi no contexto do Movimento Armorial que Nóbrega começou a sua carreira profissional de músico e descobriu a dança. Mas, em vez de levar adiante um balé erudito abrigando passos das danças populares, Toninho Nóbrega deu outro rumo ao que Suassuna havia idealizado. Sem nenhuma ênfase nacionalista em torno do folclore, parte do entendimento de que essas já são danças que nasceram da mistura e que, então, cabe descobrir as dosagens certas para que o processo das misturas permaneça ativo. A diferença com a proposta armorial dos anos 70 é que nesta não se confere posição hegemônica a nenhum dos materiais trazidos para a mistura. Não à toa, lá estão os rastros de danças indianas e do flamenco, dentre outras daquelas que Peter Brook chama de Os Grandes Teatros Diferentes do Mundo.Naturalmente começa de forma didática, projetando imagens dos passos das danças populares com os seus praticantes e nas regiões nas quais são cultivadas. Tira esses passos não somente da tela, mas sobretudo, da sua forma de serem mostrados. Vai desmantelando os vínculos habituais que os sequenciam para demonstrar que as matrizes populares podem ser codificadas em um léxico que sirva para dançar com todo e qualquer tipo de música. Exemplo: passos de frevo, maracatu, coco ou capoeira se combinando ao som de Bach ou de Erik Satie. Ele mesmo dança essa sua tese, usando a abertura da Suíte em Ré Maior (Bach), e monta um personagem popular, a Gaiata, com o tema de outra Suíte, a do balé O Quebra-Nozes (Tchaikovsky), em transcrição de Edson Alves. São três corpos distintos - o seu, o de Maria Eugênia Almeida e o de Marina Cansusso - que vão nos revelando a potência dessas misturas. Em Maria Eugênia está o vigor do ataque aprendido na sua formação nas danças populares e em Marina, a precisão de linhas vindas do balé e da ginástica olímpica. De Passo (2008), o espetáculo anterior de Toninho Nóbrega no qual se apresentaram para hoje, ambas refinaram as suas qualidades específicas e nelas começa a desabrochar modos autorais de lidar com esse rico vocabulário.A importância do que está apontado em Naturalmente não pode ter o mesmo destino de Passo, que não circulou e desapareceu. Aqui se tem, já a partir do nome, um caminho sério de pesquisa. Em cena, Nóbrega conta que o ?naturalmente? vem de uma composição que Dominguinhos fez ao vivo, assim no de repente. E que o Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira vem de Lorca (1898- 1936), do seu discurso Teoria e Jogo do Duende (1933), no qual fala, dentre outros temas, sobre o que opera no corpo da bailarina. As misturas de erudito e popular começam no nome do espetáculo, mas é no corpo que elas se resolvem, agregando consistência na conversa sobre dança brasileira. Aos 57 anos, Toninho Nóbrega dança com o requinte dos sábios. Em Naturalmente, à feição dos estudos de Gramsci (1891-1937) sobre cultura popular, ele trabalha o folclore como um fato propício ao uso, e não como uma manifestação a ser preservada na sua autenticidade. Nesse sentido, se junta aos que oferecem resistência ao risco da despossessão cultural. E também por isso, merece apoio para desenvolver o que despontou nesta preciosa aula-espetáculo.

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