No Tuca, artes e ministro encenam drama cultural

Na quarta-feira, Juca Ferreira reuniu-se com produtores e artistas em São Paulo e, no compasso da mudança do financiamento da cultura, ouviu reivindicações

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

"Somos da crise. Se ela vier, cultura para quem quiser", cantarolou Zé Celso Martinez Correa, de pé, no meio da platéia, em eterna campanha para deter o avanço do Shopping Silvio Santos (ou "cifrão cifrão", como ele o chama). "Nós acabamos de ver uma eleição em São Paulo que nem tocou na cultura", bradou a atriz Graça Berman, pedindo a regionalização das análises culturais da Lei Rouanet."Como está gordo o Sérgio Mamberti", murmurou Antonio Abujamra, eterno Cardeal Richelieu da cultura nacional, monumento da espirituosidade."A gente vai ao encontro do interesse público e da cidadania", discursou Ney Piacentini, lendo manifesto de apoio irrestrito do Conselho de Entidades de Cultura do Estado (que inclui a Cooperativa Paulista de Teatro, de Música, Apetesp, Apasci, Arte contra a Barbárie, entre outras dezenas de entidades)."Duas notícias que vêm dos Estados Unidos, uma boa e uma ruim. A boa é a eleição de Obama e a ruim é a crise financeira. Vemos o fim de uma era que começou com a queda do muro de Berlim e terminou com a queda da rua do muro, Wall Street", improvisou Juca Ferreira, ministro da Cultura, frasista incorrigível.Na primeira reunião entre o primeiro escalão do Ministério da Cultura e os artistas e produtores culturais paulistas, quarta-feira à tarde, no Tuca, em São Paulo, ficou difícil equacionar o resultado. Entre estatísticas flutuantes, gags involuntárias e demonstrações públicas de personalismo, esboçou-se um diagnóstico de uma área complexa, cheia de dissensões e pouco objetiva em suas reivindicações.O Tuca, na Rua Monte Alegre, é um antigo reduto da esquerda em São Paulo. Anteontem, recebeu um amplo espectro ideológico: estavam lá os atores Juca de Oliveira e Beatriz Segall, o empresário Manoel Pires da Costa (presidente da Bienal), o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, o cartunista Jal e mais uma centena de outros. O novo ministro, Juca Ferreira, preparava os espíritos para um decreto presidencial que modificará a Lei Rouanet, e do qual se sabe ainda muito pouco.Juca Ferreira está numa espécie de missão catequizadora pelo País: tem de mostrar serviço e também apaziguar ânimos exaltados de toda espécie, como o medo de que sobrevenha um novo governo que mude de novo toda a legislação de acordo com seu novo interesse. "Dirigismo? Há essa possibilidade, mas é preciso construir uma vacina", afirmou. "A gente acha que o Estado não é butim de guerra dos partidos que ganham as eleições."É ele mesmo quem dimensiona o tamanho do desafio. "Os números da cultura são escandalosos. Caracterizam um apartheid cultural no País". 92% nunca foram a museus, 93% nunca viram um espetáculo de dança - embora saiam para dançar, enfatizou o dirigente. Mas não é só o acesso à cultura o nó a ser desatado. De cada R$ 10 captados para incentivo cultural no País, R$ 9 são oriundos dos cofres públicos, atesta o MinC. A iniciativa privada entra com apenas R$ 1 de seu próprio caixa.Quase tudo cai nas costas do incentivo fiscal. "A Lei Rouanet, como está estruturada, gerou dependência. Precisamos de uma dose diária de Lei Rouanet para sobreviver", afirmou Ferreira. São 18 mil processos pedindo o benefício por ano (eram 3 mil em média em 2003).Ferreira cobrou ainda maior envolvimento dos governos estaduais no financiamento de estruturas como museus. "O Estado criou, tem de manter. Não pode transferir para a Lei Rouanet". Nesse ponto, Beatriz Segall aplaudiu com entusiasmo, mas - ativa na política cultural - saiu sem pedir a palavra."Quem sabe que o governo federal investiu R$ 17 milhões no Museu do Futebol? Quem sabe que investiu 100% no Museu da Língua Portuguesa?", indagou o ministro.O governo estadual, citado de forma crítica, também estava na platéia, mas ficou na miúda. "Isso é mau. Todos nós somos brasileiros. A participação federal deve estar nos Estados e municípios. O que não pode é só o Estado de São Paulo arcar com toda a despesa de equipamentos culturais que atingem todos os brasileiros", disse Ronaldo Bianchi, secretário-adjunto de Cultura de São Paulo.Antonio Abujamra, 77 anos de idade e 58 de teatro e televisão, volta à carga. "Vocês têm esperança mesmo?", perguntou. "Eu não substituí a esperança. Já tive uma expectativa linear, achava que era uma fatalidade a humanidade dar certo. Mas não sou nem otimista nem pessimista por natureza", respondeu o ministro. Mas o perguntador já tinha ido embora.

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