No tempo das gafieiras

Aos 86 anos e lançando um disco precioso que recupera o som das casas cariocas dos anos 50, o cearense Zé Menezes é um caso típico de talento quase anônimo

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

Há 78 anos, José Menezes de França dedilhava um cavaquinho para o padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço. As notas produzidas pelas quatro cordas do instrumento, que ele aprendera a tocar ''''no olho'''', soavam naquele momento como uma profecia e eram a primeira composição do multiinstrumentista de Cariri, no Ceará: Meus Oito Anos. ''''Sentado num trono, parecido com o do papa, Padim Ciço, com a mão sobre a minha cabeça, me disse: ''''Você vai ser um grande músico.'''''''' Não só grande, como longevo, embora pouco conhecido fora do meio musical brasileiro em que os instrumentos de corda são protagonistas, Zé Menezes completa 86 anos com novo trabalho - Zé Menezes, Autoral, Gafieira Carioca. ''''Eu fiz este disco com arranjos que resgatam o ambiente das gafieiras cariocas dos anos 50, em que brilhavam as big bands'''', diz Menezes, que alterna entre guitarra, cavaco e violão tenor nas 14 faixas do CD. No disco, o músico cearense incluiu consagrações como Encabulado - ''''meu primeiro sucesso com cavaquinho'''' -, Nova Ilusão - ''''meu hino, a mais tocada, gravada por Os Cariocas, Dick Farney e até na África''''- e a abertura para o programa dos Trapalhões, feita numa disputa contra Radamés Gnattali e Eumir Deodato, quando a trupe humorística se transferiu da TV Tupi para a Rede Globo, onde Zé trabalhou como maestro na época em que a emissora dispunha de departamento musical. ''''Apesar de muitos não saberem que sou o autor da música dos Trapalhões, essa eu sempre tenho de tocar, nem que seja só vinheta'''', diz. Para o violonista Paulo Bellinati, que tocou com Zé Menezes pela primeira vez há dez anos, embora já o conhecesse por obra do maestro Gnattali, o músico cearense é mais um exemplo perfeito do anonimato de um artista fundamental para o País. ''''Apesar de ter feito muitos arranjos e acompanhado vários artistas em rádio, televisão e shows, ele é dos nossos brilhantes e geniais músicos, mas anônimos, como Garoto, Meira, Isaías Sávio, Israel de Almeida'''', diz Bellinati. Gafieira Carioca é o segundo álbum do Projeto Autoral, do selo ABZ Digital e com patrocínio da Petrobrás, que já colocou no mercado Zé Menezes, Autoral, Regional do Choro (2004). Ele interpreta 14 choros da própria lavra, aos quais incorpora elementos da cultura nordestina, como Contrapontando e Saudade do Cariri. Os outros dois discos do projeto vão trazer Zé Menezes tocando vários instrumentos de corda - ''''nesse disco, o grupo sou eu mesmo''''- e convidados executando as músicas do multiinstrumentista cearense.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.