No Rio, documentários dão show

Em competição ou fora de concurso, o gênero está dando uma banho na ficção nos primeiros dias da Première Brasil

Luiz Carlos Merten, RIO, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2008 | 00h00

Iniciado na sexta-feira para o público, o Festival do Rio tem registrado extraordinária procura por alguns filmes que não são exatamente os mais alternativos. Neste sentido, o carioca não difere muito do cinéfilo paulistano, que também vai à Mostra muitas vezes apenas para ver antes os filmes mais badalados (e que já estão a caminho das telas do País). Gomorra, o poderoso painel sobre a Máfia napolitana de Matteo Garrone, e Queime Depois de Ler, o novo filme dos irmãos Coen, têm registrado excepcional procura por ingressos. O mesmo ocorre com o novo Woody Allen, Vicky, Cristina, Barcelona. Não é à toa que o MarketRio, o braço do festival para discutir o mercado, inicia hoje um seminário justamente para tentar traçar o perfil do espectador, a partir de uma pesquisa encomenda pelo próprio evento.Enquanto isso, a Première Brasil - grande vitrine do cinema brasileiro - já começa a receber críticas negativas. Havia gente revoltada no fim da sessão de A Guerra dos Rocha, considerando a comédia ?italiana? de Jorge Fernando - o Parente É Serpente do diretor - um acinte para o cinema brasileiro. A Guerra dos Rocha iniciou a seleção de 2008 da Première fora de concurso. Sua estética pode até ser televisiva, mas a platéia divertiu-se muito, especialmente com as piadas mais preconceituosas. Houve exagero da crítica, em sua reação negativa. Ary Fontoura, que faz, em travesti, a mãe renegada pelos três filhos, evita a caricatura e transforma essa ?mãe redentora?, para lembrar o velho melodrama de King Vidor nos anos 30 - Stella Dallas -, em algo real.Andréa Cals, que apresenta as sessões da Première Brasil, lembrou que há dez anos, em sua primeira edição, a vitrine da produção nacional tinha apenas sete títulos para exibir. Este ano, a Première programou 65 filmes, entre curtas e longas, documentários e ficções, e só isso dá a medida do crescimento da produção nacional. O festival optou por não mostrar somente filmes ?de arte?. Justamente por ser uma vitrine, a Première contempla as várias faces da produção brasileira, do filme de autor ao mais comercial. A mostra competitiva começou no sábado, com o documentário Palavra (En)Cantada, de Helena Solberg, e a ficção A Rinha, de Marcelo Galvão, que já havia provocado certa sensação na Mostra de São Paulo, há dois anos, com Quarta B. Ambos os filmes foram precedidos por dois programas da mostra Retratos. Nós Somos Um Poema, de Sérgio Sbragia e Beth Formaggini, e Só Dez por Cento É Mentira, de Pedro Cezar. A parte documentária da Premiére Brasil de sábado deu de dez na de ficção.Nós Somos Um Poema recupera a parceria entre Pixinguinha e Vinicius de Moraes, que criaram a trilha para o filme de Alex Viany, Sol Sobre a Lama, nos anos 60. O resgate histórico deixou a platéia em êxtase, porque a trilha é maravilhosa - como não ser? -, mas o espectador, de alguma forma, fica com fome de saber sobre o filme que originou a parceria, Sol Sobre a Lama. É verdade que isso poderia desequilibrar o ?reatrato?, que é sobre Pixinguinha e Vinicius, mas seria ótimo se, com o CD anunciado da trilha, o próprio filme de Alex Viany ganhasse vida nova em DVD. Afinal, o diretor também é uma figura histórica do cinema brasileiro e merece ser (re)avaliado. Música e poesia deram as cartas no sábado. Logo após a dupla Pixinguinha/Vinicius, o diretor Pedro Cezar entrou em cena com sua (des)biografia do poeta Manoel de Barros. O próprio Manoel diz, em cena, que não é biografável, mas Pedro Cézar conseguiu vencer o desafio de decifrar o enigma da vida do autor, que se autodefine como vagabundo profissional, e tornar transparente sua poesia, que ele dizia ser inútil (e não é). Se Só Dez por Cento tem algum defeito, é o de ser um pouco longo, mas é muito rico como invenção, à altura de seu extraordinário personagem. Palavra (En)Cantada confirma que o projeto de Helena Solberg, na ficção ou no documentário, nasce do desejo da talentosa diretora de ir às raízes do Brasil. Yes, Nós Temos Bananas e Vida de Menina já revelavam uma verdadeira sensibilidade de cineasta. O novo longa é festa para os olhos e ouvidos, além de conter uma acurada discussão sobre as relações entre poesia e música no País. Tudo a ver com Nós Somos Um Poema e Só Dez por Cento É Mentira. Helena dispensou falastrões que vivem teorizando sobre o assunto, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. O primeiro ainda aparece numa imagem de arquivo, do tempo dos festivais da Record, nos anos 60, mostrando que sua birra com a imprensa é coisa antiga. Além de imagens raras de arquivo, Palavra (En)Cantada traz depoimentos notáveis de Chico Buarque, Tom Zé, Maria Bethânia, Lenine e Adriana Calcanhoto, que abre e fecha o filme, para não falar de José Miguel Wisnik, que faz a ponte entre o erudito e o popular da cultura brasileira com aquela propriedade que lhe é característica. O problema, se é que se trata mesmo de um problema, é que o assunto é vasto e Helena terminou querendo abraçar o mundo. Palavra (En)Cantada ficou longo, ou parece longo. Uma edição mais serrada só faria o trabalho crescer e, depois, para aproveitar a riqueza de seu material, a diretora poderia fazer outra edição para TV, em formato de série.A Rinha é um filme de ação, de lutas, que Marcelo Galvão fez para ganhar dinheiro para outro projeto. Galvão não encontra apoio para um filme - Colegas - que quer fazer sobre a síndrome de Down. Em vez de atacar o projeto de seu coração, mesmo sem dinheiro - será tão caro? -, o diretor fez antes esse filme na linha de Mortal Kombat, mas sem o game para torná-lo atraente para o público. Só lutas, costuradas por uma história tão tênue que parece inexistente, mas que o diretor acredita encerrar uma crítica à elite brasileira, focando a questão da violência de outro ângulo. A Rinha não tem muito o que fazer na mostra competitiva de um grande festival de cinema. A desculpa pode ser que a organização quis oferecer um amplo espectro das tendências do cinema brasileiro atual, no qual o filme de Galvão se enquadraria, de olho no mercado internacional. Tanto isso é verdade que o diretor já fez A Rinha em inglês.

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