No palco, mitos de carne e osso

Para o diretor André Heller, Sansão e Dalila fala do embate entre fé e desejo

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Respeitar a dualidade de concepção de Sansão e Dalila, de Camille Saint-Saëns - que, iniciado como um oratório dramático, converteu-se em ópera por sugestão de Franz Liszt, que haveria de estreá-la em Weimar - foi a preocupação que guiou o diretor cênico André Heller-Lopes na concepção da montagem que estréia sábado no Teatro Municipal de São Paulo. Em conversa com o Estado, ele chamou a atenção para "a natureza essencialmente de uma obra que se equilibra entre o religioso e o profano, e mostra Sansão como o homem público, juiz e líder, e como o homem apaixonado e atormentado pela solidão e seu destino fatal". "Ao invés de tentar solucionar essas ambigüidades, preferi investir nelas como fio condutor da encenação", diz o diretor. Em Londres, onde trabalhou como assistente de direção no Covent Garden e dirigiu seus próprios espetáculos, Heller diz ter observado montagens que querem "atualizar o contexto criando escândalo, como se faz desde os anos 80 e, infelizmente, ainda com muita frequência hoje em dia". Mas também teve contato com produções que "buscam um entendimento renovado da obra, que permitam ao público de hoje comunicar-se com o drama e a música com a mesma intensidade que o da época da estréia". Nesse sentido, para ele, "o papel do diretor é o de ser um canal por meio do qual compositor, artistas e obra possam mais facilmente provocar emoção ao publico". "E, para isso, a música é a fonte de inspiração primária para criar as imagens e cenas." "O libreto tem de ser levado muito a sério", diz Heller - e essa é uma preocupação que o norteou em suas bem-sucedidas montagens para o Teatro Municipal: La Fille du Régiment ou a recente Ariadne auf Naxos. "Acho importante acreditar no compositor e no libretista - você pode até me chamar de fora de moda, por isso - e, num drama histórico, numa ópera em que os personagens principais são pessoas reais, ou mitos criados a partir de pessoas de carne osso, é fundamental buscar alimento para a imaginação na documentação que os cerca: no caso, o Livro do Juízes, na Bíblia. Ela amplia os limites necessariamente mais estreitos do libreto, permitindo maior compreensão da natureza humana dos personagens."Para o diretor, "Sansão é um herói que, como os heróis da tragédia grega, é um ser especial pela forma digna, sobre-humana, como enfrenta um destino adverso, traçado para ele por uma forca superior". "É um homem marcado pela missão de ter sido consagrado a Deus para libertar Israel. A sua força sobre-humana o destaca de seu próprio povo e o torna objeto do ódio dos filisteus. É um homem solitário, que procura relações afetivas, mas elas são essencialmente autodestrutivas, pois lhe roubarão a sua força e o transformarão num homem como os outros. É um líder sanguinário, responsável por dezenas de mortes, e que se suicida causando, como está na Bíblia, a destruição de mais homens do que tinha matado em toda sua vida." "Do libreto de Lemaire, veio a concepção dos dois outros personagens principais do espetáculo. Dalila é descrita de forma muito breve na Bíblia, e o sumo-sacerdote é criação do libretista. Dalila, imaginada para a diva Pauline Viardot, reflete uma percepção do feminino típica da segunda metade do século 19: a mulher que, a pretexto de defender o seu povo, vinga-se cruelmente por seu amor ter sido desprezado. Ela foi trocada, traída, por assim dizer, por um deus que não é o dela, e que lhe é estranho, incompreensível". Heller dá exemplos tirados da partitura: "Na ária Printemps Qui commence, com sua sedução velada, através de signos da natureza, e em Mon Coeur S?ouvre à ta Voix, ela usa toda a fragilidade e doçura femininas para enganar Sansão. Mas Amour, Viens Aider ma Faiblesse mostra uma mulher terrivelmente cruel, mas também essencialmente divida entre o dever - político ou de vingança pessoal - e a ?fraqueza? que ela sente pelo homem que ama." Quanto ao sumo-sacerdote, André Heller o vê como uma das "encarnações do mal" características do século 19. E comenta: "Claro que, com nosso olhar mais nuançado do século 21, podemos ver nele motivações que, mesmo não justificando suas atitudes, nos deixam perceber os caminhos de sua mente. Assim como Sansão, ele é um juiz, um líder espiritual; e Abimelech, que Sansão mata no início da ópera, pode ter sido um pupilo que ele viu crescer e ajudou a educar. Vemos muito pouco disso na ópera, é verdade. O seu grande momento, além das intervenções ?sádicas? do terceiro ato, quando ele comanda a humilhação publica de Sansão, é o dueto com Dalila, no terceiro ato, em que os projetos de vingança os unem de maneira quase sensual."André Heller chama, então, a atenção para o fato de que, para um libreto tão ancorado na estética do século 19, pareceu-lhe lógico "ancorar o visual da encenação no período da composição, dando à ópera um visual coerente com o estilo do Grand Opéra da década de 1880". Por outro lado, diz ele, "havia o lado do oratório dramático, e de uma escrita musical que presta homenagem a Bach e Handel - elementos que reforçaram a idéia de que era necessário valorizar a atemporalidade da história e a universalidade do mito". Sendo assim, para o diretor, era necessário "entender estilo e tempo, dividindo-os entre cenário e figurino: oratório e Grand Opéra, atemporalidade e século 19". Assim, coube ao cenário representar o oratório e a atemporalidade, num desenho que se inspira tanto em Gustave Appia, o arquiteto e cenógrafo suíço criador de um estilo simbolista de encenação em que a iluminação desempenhava um papel fundamental, quanto na arquitetura das civilizações da antiguidade clássica: um cenário monocromático, em tons de cinza - a prata com a qual os filisteus pagam a Dalila na Bíblia. "Por outro lado, os figurinos tiveram como referência o universo estético da Paris de Pauline Viardot e Saint-Saëns, e da Weimar de Liszt: um ambiente vitoriano, em que conviviam o culto à moral e à morte, e a fascinação pelo exótico." Heller fala também do uso de projeções que buscam interagir com os personagens, recurso que já havia utilizado em Ariadne, para "sugerir a presença divina e a inevitabilidade do destino de Sansão. "Palavras do libreto são utilizadas na encenação como alerta divino. O vermelho, que representa a presença, a força e a onipotência de Deus, está presente em Dalila, pois ela também é um instrumento do plano divino." "Não pretendo oferecer respostas, mas dividir com o público os aspectos da obra que me fascinam, intrigam ou causam dúvidas. Samson et Dalila é uma grande história de amor ou um grande drama épico? Uma lenda bíblica, portanto mítica, ou um conto atemporal, parte da vida de seres de carne e osso? O caminho que levou Sansão até os braços de Dalila, no vale de Soreck, devem ter sido tão cheios de dúvidas e hesitações quanto o que ele percorreu, mais tarde, prisioneiro e cego, indo para Gaza". ServiçoSansão e Dalila. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, 3397-0327. Dias 22, 24, 26 e 28, 20h30; dia 30, 17 h. R$ 20/ 40 (dia 24 - R$ 10/20)

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