No Nordeste ou no Sul, fazendo boa música Brasil afora

Concerto traz artigos sobre eventos que, em Pernambuco e Santa Catarina, reforçam a descentralização da vida musical

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

O fenômeno da descentralização, no que diz respeito à vida musical do País, é recente. Não se passaram nem dez anos desde que o Festival Amazonas e o Festival do Teatro da Paz se consolidaram como principais polos produtores de ópera brasileiros; da mesma forma, o posto de vanguarda em linguagem cênica é aquisição recente para Belo Horizonte. Mas já é possível afirmar que, apesar da predominância de tradição - e financeira -, o eixo Rio-São Paulo não reina sozinho. E outras iniciativas começam a surgir ou ganhar vulto no cenário, como os dois festivais realizados em janeiro, temas de artigos publicados na versão online da revista Concerto (www.concerto.com.br).O jornalista Irineu Franco Perpétuo foi ao Recife, onde se realizou o 11º Virtuosi, dirigido pelo casal de músicos Ana Lúcia Altino e Rafael Garcia. O que começou, no fim dos anos 90, como iniciativa de expressão local, hoje tem bala na agulha para levar a Pernambuco artistas como o contratenor Phillipe Jaroussky, o violinista Ilya Gringolts e o trombonista Christian Lindberg, além de artistas e conjuntos nacionais de expressão como o violoncelista Antonio Meneses e o Ensemble São Paulo. Além dos concertos e das masterclasses, os músicos se reúnem na sinfônica do festival, regida por Garcia.Já o crítico e compositor Leonardo Martinelli rumou em direção ao Sul do País e acompanhou alguns dias de programação do Femusc, Festival de Música de Santa Catarina. Seu diretor musical é o maestro e oboísta Alex Klein. O forte, ali, é a atividade pedagógica, narrada por Martinelli, que chama atenção para o sentido de um evento como esse, em que alunos dividem espaço com professores. "Em um festival como esse, recomenda-se adentrar por suas espessuras da mesma maneira que se faz um passeio pela mata: pode até ser que seu objetivo final seja uma deslumbrante cachoeira, mas até chegar lá você irá se deparar com muitas outras belezas (ainda que não da mesma envergadura)", escreve.O que há de comum entre as duas iniciativas é a capacidade de, ao mesmo tempo em que ganham expressão nacional, manter ligação íntima com a cidade ou região em que são realizadas. No Recife, o Virtuosi atrai um grande público e conseguiu devolver ao Teatro Santa Isabel, construído em 1850, uma programação de alto nível - reinaugurado em 2002 depois de décadas de descaso e alguns anos de reforma. O Femusc, realizado em Jaraguá do Sul, no vale do Rio Itapocu, ao norte do Estado, este ano ganhou significado mais amplo. Essa foi, afinal, uma das regiões mais atingida pelas chuvas no fim do ano passado. E Martinelli conta que a manutenção do evento só foi possível pelo esforço da comunidade e seus empresários, que viram no evento uma espécie de rito de sobrevivência. Tal articulação entre realidade regional e relevância nacional, multiplicada às dimensões planetárias, é um dos temas do momento. Em particular na música, em todo o mundo, fica cada vez mais claro que o sentido de qualquer evento ou conjunto está na contribuição que traz às comunidades que os baseiam - e é a partir dela que a contribuição nacional pode se dar. Tudo é muito recente, mas... que venham mais exemplos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.