An Rong Xu/The New York Times
An Rong Xu/The New York Times

No MoMA de Nova York, poeira vira obra de arte

Nina Katchadourian criou o 'Dust Gathering' (Juntando Poeira) como parte do programa Artists Experiment do museu, que convida artistas contemporâneos para trabalhar com os educadores

Laura van Straaten, The New York Times

02 Janeiro 2017 | 06h00

Nova York – Anny Aviram passou mais de 40 anos trabalhando com conservação no Museu de Arte Moderna (MoMA), muitas vezes limpando Picassos valiosíssimos e outras obras-primas.

Uma das ferramentas mais eficazes que usa é sua própria saliva (não se preocupe: essa prática, com séculos de idade, tem respaldo científico).

Essa revelação é uma das várias surpresas em um novo audioguia do museu produzido pela artista Nina Katchadourian, que se concentra em um pequeno tópico: a poeira. Textos afixados nas paredes incentivam os visitantes a ouvi-lo em uma dúzia de locais por todo o museu, incluindo um beiral de difícil acesso acima do átrio de quatro andares da instituição.

"É, meu primeiro grande projeto para o MoMA é sobre poeira", disse Nina, de 48 anos, enquanto acompanhava um visitante pelo tour. "Gosto de chegar às coisas grandes pelo que é imediatamente observável para mim", disse ela. Nina criou o Dust Gathering (Juntando Poeira) como parte do programa Artists Experiment do museu, que convida artistas contemporâneos para trabalhar com os educadores do MoMA em programações públicas.

Durante mais de dois anos, Nina entrevistou funcionários de cada departamento e acabou percebendo que eles estavam unidos na batalha contra esse elemento onipresente e invisível – até o momento em que deixa de ser. A artista, que vive no Brooklyn e, quando criança, sonhava em ser jornalista de rádio, faz uma narração carinhosa e irônica, unindo trechos de momentos documentais e entrevistas com membros da equipe de MoMA. Dá uma sensação de uma caça ao tesouro.

A primeira parada é no jardim de esculturas, bem atrás do local onde os visitantes pegam os audioguias, um espaço cheio de vento que é um ímã para os ácaros, mais do que qualquer outro no MoMA. Nina demonstrou como usar uma lanterna de celular para iluminar, através das aberturas de um caixa de luz, aglomerados de poeira cinzenta.

Mais adiante, ela entrevista um alergista sobre os hábitos digestivos dos ácaros da poeira, que vão desagradar alguns ouvintes, mas podem ser bem interessantes para algumas crianças de 10 anos. Porém, a alma do audioguia é Harvey Tulcensky, que cuida das obras do MoMA há 42 anos e que também é artista. "Não é sobre o pó propriamente dito; é sobre o pó em algo que significa muito para mim e sinto que estou ajudando aquele objeto", diz ele nitidamente maravilhado. "Manusear a arte, sem querer ou tentar parecer ingênuo, é algo mágico."

Mesmo que "Dust Gathering" e outros projetos de Nina pareçam divertidos, eles têm uma intenção séria.

"Odeio palavras como 'peculiar' e 'estranho' aplicadas a mim e a meu trabalho. Felicidade, maravilha, brincadeira, humor? Tudo bem, mas não estou só fazendo piadinhas", disse ela.

É possível notar isso quando discute o trabalho pelo qual é mais conhecida, Lavatory Self-Portraits in the Flemish Style, uma série de selfies feitas com o celular em banheiros de aviões nas quais ela posa com qualquer material que esteja à mão: protetor de assento de toalete, papel higiênico e afins. Quando a série viralizou, alguns anos atrás, ela ficou chateada "ao vê-la reduzida a uma brincadeira".

Mas Nina não é uma desmancha-prazeres. Um exemplo é o Floater Theater, uma obra nova que criou no Exploratorium em San Francisco, perto de onde passou a infância. A peça consiste em uma caixa de veludo vermelho com uma tela que é iluminada de modo a fazer as pessoas perceberem as manchas pretas que flutuam em seus olhos e vê-las dançar.

"Como a poeira, essas manchas estão lá o tempo todo e nós meio que as acharmos chatas ou incômodas", disse ela.

"Há uma falsa sensação de que a arte tem que tratar de coisas grandes, quando na verdade cada obra é, de alguma forma, um exercício de pensamento – mental, estético, filosófico ou qualquer outra espécie de ginástica na qual o artista nos coloca para exercitarmos nossa imaginação."

De certa forma, seu trabalho questiona o que de fato merece atenção. "Geralmente você vêm para um museu, se orienta com base nas obras de arte e um monte de coisa na sua visão periférica literal e metafórica é descartada, pois não vale a pena ser vista", disse ela.

Mas o trabalho de Nina será o centro das atenções no ano que vem, quando o Museu de Arte Blanton, na Universidade do Texas, em Austin, vai examinar sua carreira.

Vendo seu tour no MoMA, você pode se sentir bobo quando tenta abrir caminho pela multidão para examinar o pó de um parapeito, uma vitrine ou um quadro. Mas, do mesmo jeito que ela faz os visitantes do Exploratorium considerar as manchas flutuantes dos olhos como arte, pode fazer você encarar as obras-primas do MoMA como meros grãozinhos. O grandioso e o minúsculo se juntam: sou o universo e sou poeira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.