No fio da lente

Se há lente, há limite. Lentes não mostram equivalentes da realidade; escolhem foco, distorcem luz, cortam quadro. No clímax desse documentário que venceu o Oscar, O Equilibrista, de James Marsh, vemos em vários ângulos o francês Philippe Petit atravessando de uma torre para outra do World Trade Center, sobre um cabo de aço, ao som das Gnossiennes de Satie. É uma imagem linda: a figura suspensa naquela altitude, como que dançando diante do perigo, um arabesco no vazio ao vento. Mas essa imagem sozinha seria menos memorável. Com o que ficamos sabendo antes e durante, ela se intensifica e nossos sentidos também. As histórias narradas pelos entrevistados até ali, e as reações verbais no instante da ação, estão impregnadas naquelas formas. Mais que um documento, que o reflexo de um fato de 1974, temos um convite à reflexão.Sabemos todo o esforço e a sorte que foram necessários para ele chegar até ali. Já o vimos fazendo algo parecido entre as torres da Notre Dame ou no céu de Sydney. Uma reconstituição simulou o desafio de levar o equipamento sem autorização até o 103º andar do WTC. Imagens de arquivo mostraram seu treinamento e o que seria balançar daquele jeito sobre um cabo. Somos informados de que a distância de 60 metros foi vencida com ajuda de uma linha de pesca lançada por arco e flecha à noite, o que exigiu que o equilibrista tirasse a roupa para sentir com a pele onde ela estava. Mais importante ainda, em cenas intercaladas o filme nos conta que ele foi e voltou oito vezes, mantendo-se ali por 45 minutos, conseguindo até deitar num momento e ajoelhar no outro e rindo para os policiais que chegaram e mandaram que saísse dali, se não um helicóptero o retiraria. Logo depois, numa entrevista para a TV, um dos policiais deixa entendido que estava encantado com a façanha, por ser elegante, inusitada e provavelmente única. Não é isso que chamam de beleza? Esquecemos então as partes chatas do documentário, o tom xarope das declarações, e nos rendemos também. Petit diz que ao descer, como vemos, os americanos só repetiam uma pergunta típica: "Por que você fez isso?" No Brasil, talvez acrescentassem: "Está querendo aparecer?" O gesto pode parecer inútil e vaidoso, mas isso depende do que você, leitor, fizer dele. O funâmbulo com sua vara de equilíbrio lembra um Quixote empunhando a lança para realizar seu delírio, mas ele sabe o que faz e não quer enfrentar ninguém. E, se o contraponto dos atentados de 2001 sugere o motivo pelo qual o documentário foi premiado, a ação em si mesma é ambivalente: Petit, como um Chaplin da vida real, celebra a arrogância daquela construção de engenharia e, ao mesmo tempo, se distingue por sua leveza. Como um gol, uma noite de sexo, uma nota musical, sua função é não ter função. Dos 48 filmes em cartaz em São Paulo, pelo menos sete são documentários, gênero crescente nos cinemas como na TV. Digo "pelo menos" porque o sueco Vocês, os Vivos e o israelense Valsa com Bashir usam essa linguagem, mas, até onde consta, nem tudo é estritamente factual. Boa notícia é que, dos sete documentários, quatro são brasileiros: Fiel, Surf Adventures 2, Titãs e Palavra (En)cantada. E há Garapa, de José Padilha, que em breve deve estrear em circuito comercial. Mas dificilmente um deles provocará a discussão que o francês Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, provocou, tirando muito da força da mistura de palavras e imagens.François é um professor de uma escola pública de Paris. Na sala multicultural, enfrenta um problema que não é exclusivo de seu país: alunos cada vez mais agitados e agressivos. Eles não têm concentração, são grosseiros, querem só saber de rap e futebol. Confundem contestar a autoridade com indolência e insulto. Mas François também erra, e muito. Tenta ser bonzinho, mas não comunica o prazer do conhecimento. Quando perde a paciência, é de uma maneira lamentável e, mesmo assim, não pede desculpas às alunas. Tudo isso é filmado com uma câmera inquieta, quase sempre individualizada, à altura dos rostos, como se flagrando os acontecimentos. Mas não está. E o aspecto "artificial" da narrativa aparece justamente quando há um corte no tempo e vemos os adolescentes fazendo o balanço do ano letivo e, só então, revelando que apesar de tudo aprenderam coisas; uma das alunas mais indisciplinadas até leu Platão. No entanto, já nos pusemos a pensar sobre a aversão atual às ideias... Usar o tempo e o verbo para carregar de significado as imagens é, claro, o que faz o melhor cinema, de ficção ou não. Por isso livros como A Literatura Através do Cinema, de Robert Stam (Editora UFMG), são importantes. Stam vai além de José Carlos Avellar em O Chão da Palavra, que comentei aqui em 2007. Discute, essencialmente, a "arte da adaptação" pelo recurso da montagem, que permite "desempenhar transformações temporais e sobreposições espaciais", ou "fusões e deslocamentos metonímicos e metafóricos", indo além do mero registro mecânico, quebrando pelas semelhanças e contrastes visuais o que parece ser linear. Stam não vê cinema como literatura em imagens, o que já quer dizer que não vê tampouco a literatura como cinema em palavras. O que procura é avaliar a busca de efeitos correlatos de uma linguagem para outra.O Dom Quixote de Welles, por exemplo, capta a modernidade do clássico ao empregar um estilo levemente barroco, de ângulos oblíquos e "mise-en-scène" estilizada, apesar da monotonia de algumas passagens e da dublagem. Ele é fiel ao modo e ao conteúdo do romance, mas toma liberdades como mostrar uma lambreta ou aparecer dirigindo o próprio filme. Ou seja, não estamos vendo o livro de Cervantes e sim um filme de Welles a partir dele, o que não significa pegar o verniz da "adaptação literária" e passá-lo numa obra convencional. Stam também analisa a versão caracteristicamente onírica que Buñuel fez de Robinson Crusoe, embora ela tenha tornado o personagem mais idealista. E tece comentários como a técnica de distanciamento de Flaubert e de Hitchcock, este, a meu ver, o inventor de um método narrativo que é maior que o suspense.Stam, que além de crítico de cinema é, como se diz, "brasilianista", comenta também adaptações como a de Brás Cubas por André Klotzel. Diz que falta a ele o componente político de Machado, mas na verdade o que falta é a melancolia, porque a opção da narrativa em off acaba privilegiando a galhofa. O autor também surpreende ao elogiar a versão de Lolita feita por Adrian Lyne, que malandramente converte o romance em futilidade erotizada. Uma coisa, afinal, é escolher uma fatia do original para servir ao espectador; outra é fingir que se está dando o bolo inteiro com a facilidade da visualização. Esses graus de reinterpretação, essas estratégias e suas integridades, foi o que faltou discernir melhor no livro. Mas Stam aponta para o lado certo e em vários momentos se mostra consciente de que o cinema, na comparação com a literatura, tem possibilidades inexploradas. Exemplo adequado disso é Che, de Steven Soderbergh, a primeira parte. Como tantos filmes de ficção que hoje em dia dialogam com documentários e biografias, esse é um que não pode reclamar da história que tem diante das lentes. Nem do ator, Benício del Toro. Mas não podemos deixar de pensar no que um Kubrick ou até mesmo um Spielberg fariam com o mesmo material. Usando o batido recurso da alternância dos eventos com uma entrevista de TV em P/B dada por Guevara nos EUA, o filme simplesmente não consegue nos envolver na ação da guerrilha em Sierra Maestra. Cenas confusas ou vazias atrapalham o ritmo, e as de conflito são mal filmadas, com raros momentos de tensão (como o da cena do porco pendurado). Faltou melhor editor, e a produção só capricha na fotografia; tampouco os outros atores convencem - como o que faz Fidel cheio de trejeitos, ou o próprio Rodrigo Santoro como Raúl. O filme não cai no messianismo em que caiu o de Walter Salles Jr., embora insista em mostrar Che como um educador infatigável e médico salvador, além de herói e bonitão, paquerado pela moça guerrilheira, porém fiel à esposa distante. Mas o trabalho de Soderbergh só flui melhor no terço final, quando os revolucionários tomam Santa Clara e já resta pouca frase de efeito para enxertar. Se a imagem e a palavra são ambas retóricas, discursivas, até a narrativa mais rica se desequilibra e despenca.POR QUE NÃO ME UFANONem mesmo os que foram capazes de ver algo interessante em Cê, disco que procurava sem achar um som de rock de garagem, gostaram do novo CD de Caetano Veloso, zii e zie. Como sempre, Caetano tentou dar mais importância às canções e as chamou de "transambas", sugerindo que uniu o samba da Lapa com o experimentalismo paulista. Como quase sempre nos últimos anos, não fez nem uma coisa nem outra e nem a mistura fina. Palavras e riffs primários se repetem e, desta vez, mal ecoando suas boas melodias de outrora, quando trabalhava com músicos como Rogério Duarte, Arto Lindsay ou Jacques Morelenbaum. É uma obra em retrocesso.

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