No artigo de estreia, ataques contra o regime

Foi em decorrência de um incidente em que se envolveu no Rio nos estertores do Império, que Euclides da Cunha veio passar uns tempos em São Paulo, enquanto a crise amainava. Contava então 22 anos de idade.O futuro escritor era aluno da Escola Militar da Praia Vermelha, foco de agitação republicana. Nos anos de sua formação como engenheiro militar, participou da mais brilhante fase de ativismo político da escola, então uma das mais avançadas do Brasil.O incidente derivou do seguinte. O corpo discente tinha combinado ir esperar o tribuno republicano Lopes Trovão no cais do porto, para aguardar seu desembarque do navio em que fora à Europa fazer propaganda da causa, angariando apoios e adeptos. O ensejo abrigaria um comício e se passaria num domingo. Ao tomar conhecimento, a direção da escola transferiu para esse dia o protocolo da inspeção das tropas que seria efetuada pelo ministro da Guerra, por uma autoridade imperial, portanto. Revoltados, os estudantes conspiraram para realizar um ato de protesto na ocasião, que consistiria, em vez de desembainhar e erguer os sabres ao comando de "Apresentar armas", atirá-los ao chão. Só Euclides executou o gesto.Preso na Fortaleza de Santa Cruz, ficou alguns dias aguardando uma decisão. Enquanto isso, o incidente tomou a primeira página dos jornais e passou a ser discutido no Parlamento. Ameaçado de ser submetido a conselho de guerra, por fim seria apenas expulso, graças, dizem, a um pedido de indulto pessoal dirigido por seu pai ao imperador Pedro II.Euclides então prefere sair de cena, mudando-se por uns tempos para São Paulo, onde foi acolhido de braços abertos pelo cenáculo republicano que se reunia na redação do jornal A Província de S. Paulo. Data daí o início de sua colaboração com a folha de Julio Mesquita, que perduraria por toda a sua vida.Este é seu artigo de estreia. Outros se seguiriam. A tônica seria a de virulentos ataques contra o regime, aqui aludido como a dinastia - a de Bragança, portuguesa, a que pertencia a casa real brasileira. Neste artigo, Euclides se dedica a criticar inflamadamente a recente movimentação de tropas ordenada pelo governo, sob pretexto de defender as fronteiras do País. Segundo o autor, o pretexto encobria a tentativa de dividir as forças armadas, maciçamente pela República, para enfraquecê-las, esgarçando o tecido de sua coesão - aliás, em vão, como os acontecimentos viriam a comprovar.

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