No armário com Madonna

Responsável pelo guarda-roupa da turnê, cabe à estilista Arianne Phillips a tarefa de criar seu look

Fausto Viana e Rosane Muniz, O Estadao de S.Paulo

18 de dezembro de 2008 | 00h00

Mais uma vez, não é uma virgem mercadológica que aterrissa no Brasil para uma série de shows em São Paulo e Rio. Madonna vem com o que de melhor se poderia contratar em termos de marketing - foram três produtores a cuidar da turnê Sticky & Sweet. Se o Sticky ainda vem com a carga erótica de turnês anteriores, o Sweet vem dar uma contemporizada na versão atual de Madonna.A responsável pelo guarda-roupa da turnê é a estilista e figurinista Arianne Phillips, que atua como personal stylist de Madonna há 11 anos. Ela já criou para o cinema em filmes como o gótico O Corvo e Walk the Line, filme biográfico sobre o cantor country Johnny Cash, com o qual foi indicada para o Oscar em 2006. Trabalha também com outras figuras contemporâneas: Lenny Kravitz, Courtney Love e Justin Timberlake. Ela conta que seu trabalho com Madonna geralmente envolve ambos os aspectos do seu trabalho de styling e figurinista. Como styling, seu trabalho é coletar, caçar, editar e criar um look ou feeling com as roupas encontradas em lojas, brechós ou alta-costura. "O mais interessante de se trabalhar com Madonna é que ela tem causado um impacto grande e significativo com os estilistas com os quais tem colaborado", diz Phillips. Parece um ato de altruísmo puro da estrela do pop rock, mas, atenção!, não é. Vai longe o tempo em que Madonna misturava luvas de crochê, pedaços de fitas no cabelo, cintos Boy Toy, rendas... O ano de 1984 viu Madonna se apresentar vestida de noiva (uma versão picante, vá lá) no MTV Music Awards, cantando Like a Virgin. Foi um período em que as crianças e adolescentes iam para a escola com o look Madonna, que tinha um quê de Cindy Lauper e seus goonies. Era uma espécie de crítica ao sistema que ela tão sabiamente soube aproveitar nestes 24 anos que se seguiram, em transformações camaleônicas que por vezes confundiram sua vida pessoal e a da cena. Se rendas e luvas de crochê são um clássico do romantismo, do sonho idealizado, a atitude desafiadora de Madonna "contestava" o próprio traje: vista-se de noiva, mas aja como uma rebelde - tudo é permitido. No mesmo período, ela invoca imagens consagradas de mitos sexuais do cinema - é a Marilyn Monroe de Gentlemen Prefer Blondes que ela personaliza em Material Girl. Graças ao "apoio" da Igreja Católica, sempre presente nos melhores momentos de Madonna com críticas duras e proibições, ela lança Papa Don?t Preach, e no auge da relação religiosa, sai o álbum Like a Prayer, que mereceu reclamação especial do papa. Foi um momento de glória: firmava-se a feminista, a independente e a business woman. Madonna lança adereços e trajes que vão se transformando em moda por meio dos seus seguidores.Em 1990, ela solta I?m Breathless, trilha sonora de Dick Tracy, aprovada por ninguém menos que Stephen Sondheim, autor consagrado da Broadway. Era, mais uma vez, o namoro de Madonna com o passado, com flashes, neste caso, de uma sexualidade naïf, como apenas parecia a dos anos loucos. Porque é justamente na Blond Ambition Tour que entram em cena os figurinos de Jean Paul Gaultier. O bad boy da alta-costura - existe contradição mais evidente? -, tal como Madonna, capitaliza em cima da provocação dos trajes, que parecem retirados dos desenhos de Eric Galton para The Misfortunes of Colette, ou de John Willie para The Adventures of Sweet Gwendoline, ainda que este seja mais um trabalho dos anos 40. É a dominatrix que aparece com espartilhos de couro por fora, com cones pontiagudos. As intenções de Madonna eram muito claras, isso todos podem dizer - linearidade provocativa; esta, aliás, presente o tempo todo na carreira da cantora. Sua proposta nunca foi - nunca tinha sido, até agora - "to heal the world and make it a better place". A proposta era "rule the world".Na junção da persona com pop, sexo e religião surge o poder fashion de Madonna. O mundo da moda se rende a ela e um novo público adere formalmente ao seu séquito de fãs: a comunidade gay internacional. É a época de Vogue - "to strike a pose", trazendo do passado não um mas vários mitos sexuais e suas rotulações: Marlene Dietrich (absurdamente masculinizada e sexual), Marilyn Monroe (a loira nada tola que conquistou a América com sua sexualidade meteórica), Marlon Brando (o selvagem/garanhão masculino), James Dean (a frágil figura de delicate balance entre masculino e feminino) e por aí vai...O caminho estava mais uma vez amplo e aberto. Em 1992, ela lançaria Erotica e o livro Sex, aprofundando ainda mais a dominatrix, a sexualidade livre e aberta em todos os gêneros, usando e abusando do preto e do fetiche.Na linha mulher independente, "usa" seu preparador físico e tem sua primeira filha, que separa rapidamente do pai em 1996, já que ele "foi apenas o doador do sêmen", como revelou em entrevistas. Dois anos depois, lança Ray of Light, um disco em que ela diz estar mais serena, mais calma, mais madura aos 40. Talvez se destaque aí o quimono vermelho com que ela se apresentou no Grammy Awards, de 1999.Em 2000, sai Music, em que grava American Pie, música "americanizada" e adota os jeans e chapéu de caubói que a fazem parecer, nas fotos, com uma country girl americana. Mas a canção What It Feels Like for a Girl mostra que o conteúdo provocativo continua ali: "Girls can wear jeans and cut their hair short, wear shirts and boots, ?cause it?s ok to be a boy..."O casamento com o cineasta britânico Guy Ritchie provavelmente gerou ódio nacional por Madonna (ela tinha que se casar com um inglês?). Para piorar a reação do público americano, grava uma crítica aos Estados Unidos em American Life (2003), um de seus maiores fracassos. Muitos julgavam que sua carreira estava encerrada. Madonna parte, então, para uma nova fase. Morando na Inglaterra, ela posa para a Vogue em Ashcombe, casa que comprou e onde residiu o fotógrafo Cecil Beaton, fotógrafo oficial da realeza britânica. Aparece vestindo uma saia creme, uma blusinha e um spencer, no mais tradicional look "mulher caseira" dos sixties. E dando milho para galinhas... Madonna desejava (ou estudos de mercado sugeriram que ela desejasse), constituir família, com filhos, bichos... Nada poderia ser mais anti-Madonna. E declara: "Minha filha me critica muito. Muitas vezes discorda totalmente da maneira como me visto. Se vou buscá-la na escola, ela diz que tenho que me vestir normalmente. Às vezes me diz: ?Por favor, não venha com seus tops e roupas justas.?"Se antes Madonna era inspiração para criações em moda, ela agora passa a consumir moda abertamente e em larga escala. Além disso, o negócio é muito lucrativo, naturalmente. É assim que chegamos ao novo show, Sticky & Sweet.SS não é apenas o show de Arianne Philips, a figurinista. O show, visualmente impactante e tecnicamente perfeito como requer a exigente M., chamada assim na intimidade, conta com a colaboração de um time significativo na criação de adereços e trajes. Eis aqui o rol dos criadores de trajes e adereços convocados para vestir a estrela nesta turnê: Givenchy, Tom Ford, Miu Miu, Yves Saint Laurent, Roberto Cavalli, Jeremy Scott e Stella McCartney, com as botas de cano alto que relembram a turnê anterior.A entrada da rainha do pop no palco comprova a intenção de manter-se na autoridade de seu trono, vestida de preto e longas botas. A partir daí, dividido em quatro partes, veremos em Sticky & Sweet um apanhado visual de toda a sua carreira. A Madonna erótica está presente na lingerie preta e transparente com que canta Vogue, quarta música do show, após apresentar uma combinação de cores de inspiração art déco, no design gráfico criado pelo diretor de arte carioca Giovanni Bianco.Na segunda parte, as roupas de ginástica marcam sua força na luta para manter-se em alta no revival aos anos 1980, com Into the Groove e as lembranças de seu início de carreira. O visual lolita nos óculos Moschino parece renegar os ícones Madonna personificados por bailarinas em cena - os cones pontiagudos de Gaultier, o rosa diamond de Marilyn, a noiva virgin. Mas "justifica seu amor" repetindo o beijo na boca de 2003, porém - depois de ter lembrado Britney Spears no telão - revela seu amor-próprio e "beija a si mesma" de noiva, apesar do grito de She?s Not Me!Mas Madonna, então, surge com inspiração cigana e latina, no colorido étnico pavoneado de La Isla Bonita, sucesso ainda dos anos 80. Na última parte, o palco vira uma pista de dança e o estilo rave vem em preto, branco e prata. Depois do novo hit 4 Minutes, chegam os três esperados números finais. No fim da seqüência ela é simbolicamente queimada na fogueira com o preto e o fetiche dos anos 1990. Mas fica o aviso: "We shall return." Por enquanto, é "game over".É bem provável que, na próxima década, Madonna vá se reinventar e assumir novamente o seu lado kafkiano: "Sou uma espécie de barata. Não conseguem se ver livre de mim." Para sorte da cantora, ao chegar ao Chile no início do mês, Jorge Medina, cardeal emérito chileno e ex-presidente da Congregação da Doutrina da Fé do Vaticano, declarou que ela desperta "pensamentos de luxúria e impureza". O estádio lotou. O que faz lembrar as declarações de outro cardeal, o argentino Antonio Quaracino, que vociferou: "Madonna é uma pornógrafa e blasfema, cuja presença ofende a mulher argentina." Evita, o musical que Madonna estrelou, foi filmado na Argentina. Coincidências do destino, a polêmica Evita era uma fashionista das mais requintadas. A arte imita a vida? Ou...? Madonna disparou, em 1994: "Eu amo moda. Eu adoro roupas. É um ótimo modo de se expressar. O que vestimos é reflexo do que nós somos. E é divertido brincar com a moda. Mas eu não levo muito a sério."Deve ser por isso que lançou uma coleção para a loja de roupas H&M... que assinou uma jóia com a vice-diretora da Chopard (um anel em formato de soco inglês, com 258 diamantes)... que será estrela dos comerciais da Louis Vuitton em 2009, coordenada por seu amigo Marc Jacobs... que estuda o lançamento de uma linha de cuidados para o cabelo... E outras novidades que, com certeza, virão.Como alerta final para as admiradoras que, digamos, amadureceram com a cantora, vão aos shows e se perguntam como se mantém aquele corpo, é bom lembrar que Madonna disse: "Não sou contra a cirurgia plástica; no entanto, sou completamente contra ter de discuti-la." Mas é tudo muito simples: para a mídia, foi a ioga. Para todos os outros mortais, sabemos que foi a ioga, a genética favorável e uma equipe de cuidado intenso (que custa muito) com muitos elásticos pendurados, oxigênio e dieta radical, além de um corpo que ainda vai render dinheiro para muita gente, já que é um senhor instrumento de trabalho.

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