''Nixon temia ser mal interpretado''

É o que justifica, segundo Robert Dallek, a decisão do então presidente de gravar mais de 3.700 horas de suas conversas

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Robert Dallek apresenta em seu livro detalhes das frustrantes tentativas de Nixon e Kissinger de encerrar a participação americana na Guerra do Vietnã. Também trata do papel fundamental de ambos na deposição e assassinato do presidente chileno Salvador Allende, em 1973. É no relato dos momentos finais de Nixon no poder, no entanto, que o historiador americano de 75 anos se sobressai.Ao comunicar sua decisão de renunciar antes que sofresse o processo de impeachment, Nixon abraçou Kissinger e o convidou a se ajoelhar para rezar. Intimidade sobre a qual Dallek revela mais aspectos na continuação da entrevista. O Vietnã foi o grande problema de Nixon. Quando assumiu o governo, em 1969, ele tinha, de fato, um plano para encerrar a guerra?Não especificamente. Ele sabia que, do ponto de vista da política interna, era urgente terminar o conflito, porque o eleitorado poderia não apoiar sua reeleição. Mas havia aquele errôneo pensamento de que a retirada de tropas tinha de ser honrosa. Kissinger temia que, uma vez iniciado o processo de saída dos soldados, o Vietnã do Norte poderia acreditar que se tratava de uma fuga e que o Vietnã do Sul não teria condições de se defender sozinho. Assim, o que aconteceu é que os Estados Unidos continuaram abusando da força, treinando os sul-vietnamitas para que pudessem se defender por conta própria. Era o que se chamava "vietnamização", que custou bilhões de dólares aos cofres americanos e que o tempo comprovou ser nada eficiente.Havia alguma possibilidade de os Estados Unidos vencerem a guerra?Sim, desde que, no final, mais um milhão de soldados fossem enviados (e tínhamos cerca de 500 mil lá) e que o Vietnã do Norte fosse invadido. Nesse caso, acho que seria possível. Mas nós, americanos, somos marcados por velhas lembranças e o país estava farto daquela guerra, que vitimara milhares de soldados. Havia uma forte sensação de que o conflito não mais poderia contar com a presença de americanos. Assim, Nixon e Kissinger aos poucos foram recuando. Basta conferir os números: quando se aproximou a época da reeleição de Nixon, havia apenas cerca de 30 mil soldados no Vietnã. De uma certa forma, ele honrou uma promessa de campanha. E o que dizer do papel de Nixon e Kissinger na derrubada de Salvador Allende?Hoje é possível dizer que ambos tiveram um papel relevante - é o que confirmam documentos e conversas telefônicas com Nixon que Kissinger mandou gravar. Ali, eles revelam um consenso de que Allende não deveria chegar ao poder, o que, acreditavam, seria uma transição para a esquerda na América Latina. Para evitar isso, era preciso que o governo americano mantivesse ótimas relações com os chefes militares de Argentina e Brasil - afinal, ao contrário dos intelectuais, eram os militares os homens mais sujeitos à influência dos Estados Unidos. No Chile, também utilizaram estratégias diversas, municiando seus opositores até mesmo depois da eleição de Allende. Nesse período, promoveram ainda restrições econômicas que ajudaram a aumentar o descontentamento popular contra o presidente. Finalmente, a deposição do governo e o assassinato de Allende foram recebidos com indisfarçável alegria por Nixon e Kissinger. Não é possível garantir que o crime tenha ocorrido a partir de uma ordem da Casa Branca, mas certamente todos os recursos necessários para que isso acontecesse foram fornecidos. Por essa razão, não acredito na versão de que Allende teria cometido suicídio.Sua pesquisa se baseou principalmente em documentos e gravações telefônicas?Sim, basicamente de uma documentação que, no total, resultou em mais de 20 mil páginas de transcrição. Eu diria que o material mais valioso veio das gravações feitas por ordem de Kissinger e que foram liberadas para consulta pública em 2004. Durante três anos, realizei pesquisas nesse material até concluir o livro em 2007.Por que eles gravavam as próprias conversas telefônicas?Essa é aquela pergunta que vale um milhão de dólares (risos). Acredito que eles estavam seguros de que teriam total controle sobre as fitas, que ninguém teria acesso a elas. Nixon pretendia deixar um material sobre seu governo que fosse útil aos historiadores - e também para si mesmo, pois pretendia escrever as próprias memórias. A ideia surgiu da sugestão de um auxiliar de gabinete, que observara aquele procedimento no governo anterior, de Lyndon Johnson. Mas, enquanto Johnson iniciava a gravação ao apertar um botão, o que lhe garantia fazer uma triagem, Nixon instalou um sistema que acionava automaticamente o gravador ao falar no telefone ou ao conversar com alguém que se posicionasse a um perímetro máximo a partir de sua mesa. Com isso, somou cerca de 3.700 horas de conversa gravada.Foi o escândalo de Watergate que interrompeu as gravações?Sim, nesse período, descobriu-se que gravações eram feitas e muito material foi confiscado para investigações. Na verdade, acredito que Nixon não se importava muito que o teor das fitas fosse revelado, pois ele temia uma, digamos, má interpretação de seu governo.Kissinger ajudou a sua pesquisa?Ele me concedeu só uma entrevista. Conversamos pouco, durante apenas uma hora e 15 minutos. Não descobri nada revelador, apenas conferi alguns dados e datas. É possível fazer um paralelo entre aquela época e a atual, especialmente com os governos de George W. Bush e Barack Obama?Todos, em seus discursos, clamam por paz. Mas, durante a época de Nixon e Kissinger, havia um rival conhecido, a União Soviética, e outro em ascensão, a China. O tempo mostrou que a primeira entrou em colapso por não ter recursos para sustentar sua economia e, principalmente, força militar. Já a segunda hoje conhecemos bem. Com a invasão do Iraque, Bush enfrentou a mesma impopularidade de Nixon e, da mesma forma, não quis sair como perdedor, mesmo com o sacrifício de mais vidas. Finalmente, Obama parece se direcionar para outro rumo, especialmente com sua disposição de retomar as relações com países da América Latina.Depois de escrever sobre a vida de tantos presidentes americanos, quem seria seu próximo alvo?Hoje é mais complicado. Tenho interesse em escrever sobre o governo de Ronald Reagan, mas os documentos sobre esse período só estarão devidamente liberados dentro de 12 ou 15 anos. Não podemos nos esquecer que se trata de uma documentação delicada, pois envolve questões de segurança nacional.

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