''Ninguém quer presidir a Bienal? Como? Eu quero!''

O artista francês Fred Forest, de 75 anos, propõe edição feita pela internet e começa sua campanha por meio de site

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

"Não são políticos, cientistas, ou os financistas das Bolsas de Valores que vão resolver os problemas da Bienal de São Paulo. Ela precisa de sentido e são os artistas que portam os sentidos." Enquanto ninguém aceita se candidatar à presidência da Fundação Bienal de São Paulo - o tempo passa e fica o jogo do empurra-empurra -, um artista de outro país, o franco-argelino Fred Forest, de 75 anos, lança agora sua candidatura ao posto. "Não preciso de dinheiro porque faço a próxima edição pela internet", diz Forest, que criou um site, Campanha para uma Nova Bienal, para alimentar o debate e fazer sua proposta reverberar: www.fredforest.org/paraumanovabienal. Já faz tempo que o artista está empenhado na situação da instituição: em 1973, participou da 12ª edição com o projeto Bienal 2.000 e mais recentemente, desde 2006, vem desenvolvendo a Bienal 3.000 (www.biennale3000saopaulo.org)."Estarei acompanhado por uma equipe de artistas, especialistas da comunicação, críticos de arte, teóricos das ciências humanas e da filosofia, engenheiros em informática e especialistas em marketing. A idade média das pessoas que integram nossa equipe será de 25 anos", escreve o artista, no site. Até agora, a Bienal já convidou oito pessoas a encarar o desafio de presidir a instituição - e desde o ano passado, todo mundo vem dizendo não. A fundação esperaria até amanhã a resposta do consultor e empresário Heitor Martins, de 41 anos, se ele aceita ou não se candidatar para que, enfim, seja marcada uma reunião-geral do conselho da instituição para a eleição do novo presidente. Enquanto isso, Forest já lança sua candidatura, como um happening, uma provocação, para chacoalhar a situação. "Na literatura há artistas que questionam as coisas, mas nas artes plásticas, não. Os artistas é que devem ser donos do próprio destino, sem política, sem funcionários e sem dinheiro. Talvez seja ingênuo dizer isso, mas se todos pensarem assim poderemos mudar a sociedade no nível das ideias e das propostas", continua o candidato, doutor em literatura pela Universidade Sorbonne.Forest começou sua carreira artística como pintor, mas foi com a videoarte, na década de 1960, que deu início a uma pesquisa mais crítica e experimental, de criações de obras interativas e misturando mídias diferentes. Centrou suas ações no tema da comunicação e estética - e na conversa com o Estado, se apresentou dizendo que Marshall McLuhan, o autor da teoria da comunicação de massas ("O Meio é a Mensagem"), já escreveu sobre seu trabalho. "Hoje não é a pintura que vai propor questões, mas a internet", continua Forest, que veio a São Paulo, Porto Alegre e Brasília por conta de sua participação no Ano da França no Brasil. Ele inaugurou no Museu de Arte Contemporânea da USP no Ibirapuera a mostra O Centro Experimental do Território e Laboratório Social, baseado no Second Life, além de também abrir instalações cibernéticas na Universidade do Rio Grande do Sul e na de Brasília.Mas, como afirma, o comitê do Ano da França não queria que ele viesse. "Foi o comitê brasileiro que se tornou responsável pela minha vinda, pessoas como Daniela Bousso e Felipe Chaimovich", conta. "O comitê francês disse que eu já tinha feito coisas suficientes no Brasil", continua. Entre as "coisas suficientes", ele conta sobre sua participação na 12ª Bienal de São Paulo, episódio que até o levou a ser interrogado no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que funcionava no prédio onde hoje é a Estação Pinacoteca - era o regime ditatorial no Brasil.Naquela Bienal, Forest participou de uma seção especial formada por artistas que trabalhavam com a comunicação. Como não havia computador, publicou anúncios em jornais com dois números de telefone. "Quando as pessoas ligavam, uma voz dizia que elas tinham um minuto para se expressar livremente." Depois, ele promoveu um happening: dez pessoas foram à Praça da República com cartazes em branco, até que o local foi enchendo de gente e a polícia apareceu para bloquear tudo. "Alguém escreveu MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária, em espanhol) num dos cartazes e me levaram para o Dops. A polícia tentou me intimidar, mas, ingênuo, fingi que não entendia nada. Não sou um herói porque sou estrangeiro, mas tinha a imprensa para me ajudar", diz Forest. A princípio ele não sabia que seu happening (a documentação sobre ele pode ser vista no site webnetmuseum) iria tomar aquela proporção. "Era algo para tocar no senso nobre da política, o das ações simbólicas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.