Nietzsche teria sido o último metafísico?

A polêmica está no estudo de Heidegger, cujo primeiro volume sai em português

Regina Schöpke, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

Embora, para o próprio Nietzsche, o conhecimento não passe de uma interpretação, é preciso - como diz Gilles Deleuze - que a interpretação não desfigure demais o objeto que ela pretende "conhecer". É verdade que Nietzsche tem paixão pelos enigmas; é verdade também que alguns de seus aforismos exigem mais de seus leitores do que muitos livros escritos por aí. No entanto, Nietzsche está longe de ser um escritor hermético, que gosta de confundir. Ele mesmo pede a todos: "Não me confundam!" E, para isso, é preciso não tomar seus conceitos isoladamente, como se eles tivessem vida própria fora do contexto geral de sua obra. É preciso entender em que sentido (ou sentidos) o próprio Nietzsche usa os conceitos. Ou, então, pode-se entender mal o que significa a sua luta contra a metafísica, a sua crítica à verdade e à razão, ou a sua idéia do super-homem como aquele que rompe definitivamente com o niilismo e afirma o "sentido da terra", ou seja, afirma esse mundo, essa vida (e não só afirma, mas a deseja de tal maneira que a quer de volta infinitas vezes). Infelizmente, Nietzsche foi quase sempre muito mal compreendido, sendo vítima das mais absurdas imposturas. Mesmo entre os chamados grandes pensadores, não faltaram aqueles que o interpretaram à luz de idéias que estavam longe de serem as suas (seja para o bem, seja para o mal). Dentre esses pensadores, é impossível não mencionar seu compatriota Martin Heidegger, que transformou Nietzsche no "último dos metafísicos", fazendo dele um enunciador do ser. Não há aqui qualquer desrespeito com relação ao grande filósofo de O Ser e o Tempo. Ninguém põe em dúvida a imensa erudição de Heidegger e a originalidade de muitas de suas interpretações na história da filosofia; mas fazer de Nietzsche um metafísico é, no mínimo, profundamente polêmico. É verdade que Heidegger chama a atenção para o valor da obra nietzschiana e coloca o filósofo do Zaratustra como decisivo para os rumos do pensamento contemporâneo, mas não sem transformá-lo em tudo aquilo que ele próprio negou e criticou. Com o lançamento do primeiro dos dois volumes de Nietzsche (pela Forense Universitária), o leitor brasileiro terá acesso à concepção heideggeriana desse Nietzsche Metafísico. Composta por cursos ministrados na Universidade de Freiburg, em Brisgau, entre 1936 e 1940, essa obra contém alguns textos fundamentais para entendermos porque o "Nietzsche" de Heidegger é tão influente quanto discutível. De fato, muitos filósofos e não filósofos conheceram Nietzsche a partir de Heidegger, mas isso - pelo visto - nem sempre os ajudou a ter uma visão mais clara do filósofo do eterno retorno. Michel Haar, por exemplo, diz que demorou muito para "encontrar" o verdadeiro Nietzsche. Mas, discussões à parte, o próprio Heidegger deixa claro, no prefácio que escreveu para essa obra, que intencionalmente discute com freqüência o mesmo texto, mudando apenas o contexto. Ele diz que as repetições podem dar ensejo a "repensarmos sempre novamente umas poucas idéias que determinam o todo". Mas, afinal, que poucas idéias são essas "que determinam o todo"? Heidegger se refere, sobretudo, às idéias de vontade de potência e de eterno retorno que, para ele, explicam verdadeiramente a obra de Nietzsche. Para Heidegger, não se conhece Nietzsche pelos seus outros escritos ou por nada que ele tenha dito de si mesmo. Conhece-se Nietzsche por esses dois conceitos, embora o próprio Nietzsche jamais tenha chegado a desenvolvê-los de forma metódica. É fato que Nietzsche tinha como projeto escrever a Vontade de Potência, onde trataria também do seu conceito de eterno retorno (que sempre apareceu de um modo enigmático em sua obra), mas ele jamais levou a termo tal intento. O que foi publicado com esse nome não passa de mais uma impostura, uma reunião de fragmentos organizados à revelia do próprio Nietzsche, sob a orientação de sua irmã Elisabeth. Para Heidegger, que divide esse primeiro volume em três partes - Vontade de Poder como Arte, O Eterno Retorno do Mesmo e A Vontade de Poder como Conhecimento - é preciso pensar o conceito de "vontade" de duas maneiras: como título de uma obra capital que, no entanto, nunca chegou a ser escrita, e como a "designação que perfaz o caráter fundamental de todo ente". Para ele, Nietzsche é aquele que "desdobra e responde à questão diretriz do pensamento ocidental". Tal questão, que Heidegger não pára de apontar como confundida com a própria filosofia, é aquela que pergunta sobre o sentido do ser ou, mais propriamente, "o que é o ser?" Dessa forma, Heidegger filia Nietzsche à tradição e o apresenta como aquele que leva a metafísica "ao seu acabamento". A sua interpretação do eterno retorno como retorno do mesmo, como retorno de um ser que transcende os próprios entes, é - de fato - original, mas não encontra qualquer fundamento no pensamento de Nietzsche, que desconhece essa idéia de ser como algo que permanece o "mesmo" no seio do devir. Heidegger, no fundo, parece reduzir Nietzsche ao seu plano conceitual, pois é a ele (bem mais do que a Nietzsche) que interessa a idéia do ser. Enfim, o livro de Heidegger é verdadeiramente polêmico e divide as opiniões. É inegável, digam o que disserem, que ele chegou à concepção de um Nietzsche que seria estranho ao próprio Nietzsche. É uma interpretação possível? Pode-se dizer que sim. Mas é uma interpretação que obscurece e enfraquece o próprio Nietzsche. Não é, certamente, um bom encontro (para falar como Espinosa). Que o Nietzsche de Heidegger é uma grande obra, ninguém ousaria negar isso. Ela é repleta de intuições, e é de uma erudição impressionante. Mas, infelizmente, ela parece falhar no seu propósito maior: nos fazer conhecer Nietzsche no que ele tem de mais original e profundo: sua crítica corrosiva à metafísica e à própria razão ocidental. Disso, podemos tirar a maior lição que Heidegger, mesmo sem intenção, poderia nos dar: a de que não existe interpretação, por melhor que seja, que substitua a leitura do próprio autor e de seus textos. Quem deseja conhecer Nietzsche deve ler o próprio Nietzsche (para depois poder julgar melhor seus intérpretes). Se sua obra é um labirinto, é ao menos um labirinto que nos faz sair das entranhas dos conceitos puros e dos discursos infindáveis em torno de significados e significantes. Ela nos devolve o ar puro das montanhas, nos devolve o mundo. Porque ninguém foi menos niilista, menos metafísico do que esse filósofo que ousou dizer que é preciso afirmar incondicionalmente essa existência, no que ela tem de mais sombrio e também de mais belo. Nietzsche - Volume 1 Martin Heidegger Forense Universitária 536 págs., R$ 79,50

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