Nicolas Bruno e a fórmula ''dois em um'' à francesa

Dupla de diretores discute a questão da identidade na comédia que traz Daniel Auteuil perseguido pela voz 'interior' de Alain Chabat, um cantor dos anos 80

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

Se você exigir a certidão de nascimento ou RG, vai descobrir que se chamam Nicolas Charlet e Bruno Lavaine, mas a França inteira os conhece como Nicolas Bruno. Foi assim que surgiram - e se estabeleceram - há cerca de 20 anos, assinando videoclipes e paródias que ganharam o público no Canal Plus. Nicolas e Bruno pegavam episódios de novelas mexicanas e argentinas e faziam dublagens nonsense para o francês. O público adorava. Na TV, eles conheceram Alain Chabat e acalentaram durante anos o projeto de fazer um filme juntos, a três. O projeto, enfim, se concretizou.Dois em Um, que estreou ontem, não é uma comédia como as outras. Os próprios Nicolas e Bruno, numa entrevista por telefone, de Paris, esclareceram que a imprensa francesa não sabia como tratar o filme, que estreou no ano passado. "Os jornalistas nos perguntavam como queríamos que definissem La Personne Aux Deux Personnes (título original) - como comédia popular ou filme de autor." Sendo a França um dos países, no mundo, que mais cultivam - desde Cahiers du Cinéma, nos anos 50 - o conceito de cinema de autor, não admira que Dois em Um tenha recebido ótimas críticas. Na internet, o filme também foi um boom, até porque Nicolas e Bruno criaram um evento tipo Bruxa de Blair. Eles produziram clipes e miniprogramas especiais para ?vender? o fenômeno Gilles Gabriel.Gilles, o personagem de Chabat, é um cantor dos anos 80 que, na abertura de Dois em Um, está na direção de seu carro. Ele se empolga ao ouvir um de seus velhos hits e termina atropelando um sujeito que sai do escritório. É o personagem de Daniel Auteuil, Christian Ranu. Já que o próprio título sugere um Se Eu Fosse Você masculino (e francês), você poderia pensar que Ranu morre no tal acidente. Não - quem morre é Gabriel. Ou melhor, ele não morre completamente, porque há uma transmigração de corpos e, de repente, Ranu é ele próprio e esse incômodo sujeito, que não para de falar e cantar, uma voz dentro dele (interior?) que se torna cada vez mais invasiva e subverter a vida do herói, fazendo - subir alguns degraus na firma.Para o espectador brasileiro, acostumado a ver o ex de Emmanuelle Béart como ator dramático, talvez seja uma surpresa descobrir o timing de Daniel Auteuil como comediante. "Daniel começou como comediante e só depois passou aos papéis dramáticos. Na verdade, foi uma ideia de Alain (Chabat), que também era nosso produtor, convidá-lo para o papel de Ranu. Daniel não apenas concordou como trouxe toda a sua vontade de voltar a fazer humor", dizem os diretores, que falam simultaneamente e cuja identidade fica impossível de estabelecer pelo telefone.Essa história de um homem que, na verdade, é dois - e mais tarde serão vários -, tem a ver, obviamente, com Nicolas Bruno, que também pensam e agem como se fossem um. Eles contam seu método de trabalho: "A gente escreve o roteiro e detalha o que será o filme. Pensamos em tudo, em todos os problemas técnicos e estéticos, porque também planejamos os cenários e figurinos. No set, atores e técnicos podem falar com qualquer um de nós e nunca haverá discordância de pontos de vista. Essa coisa de ?Eu acho que...? não funciona conosco. Sabemos exatamente como deve ser." Embora Daniel Auteuil esteja sempre em cena e Alain Chabat seja apenas uma voz, na maior parte do tempo, Nicolas Bruno armaram um ?dispositivo? que funcionou. Eles exigiram que Chabat ficasse o tempo todo presente no set, quase sempre confinado numa cabine, de onde sua voz era gravada para dar a impressão de vir de longe. "Às vezes nos esquecíamos do pobre Alain e ele ficava preso lá dentro, enquanto a gente já estava acabando", contam Nicolas Bruno, e você não sabe se brincam.Comédia popular ou filme de autor? "Na França, tivemos críticas bem entusiasmadas, pelo que foi definido como originalidade do tratamento, mas o público foi menor do que esperávamos. As pessoas não sabiam como reagir." É um risco que poderá se repetir no Brasil, mas Nicolas Bruno são otimistas. Gilles Gabriel faz o que se chama de ?chanson populaire?. É brega assumido, até no visual, e isso poderá ser entendido (e assimilado) pelo público brasileiro, esperam. Numa cena, Auteuil recita a letra de uma canção de Gabriel para impressionar a mulher que ama - a música foi feita para um cachorro. Incorreto? "Não é crítica não; queremos expressar nosso carinho pelo mundo popular." ServiçoDois em Um (La Personne Aux Deux Personnes, França/2008, 90 min.). Comédia. Dir. Bruno Lavaine e Nicolas Charlet. 14 a. Cotação: Regular

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