Nick Cassavetes dá prova de afeto e personalidade

Em seu novo filme, estrelado por Cameron Diaz como mãe obstinada, o cineasta constrói trama sobre como doença e morte interferem nas relações familiares

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Pode-se imaginar o que representa para Nick Cassavetes carregar o peso de um sobrenome ilustre como o que lhe outorgou seu pai. Ator e diretor, John Cassavetes virou uma referência de cinema autoral nos EUA, usando a carreira de astro, em Hollywood, para financiar o tipo de filme independente que gostava de fazer em Nova York. Nick não parecia muito talentoso no começo de sua carreira, mas o apoio da mãe, a grande Gena Rowlands, e uma preocupação crescente com um tipo de cinema de personagem, à margem dos grandes espetáculos e blockbusters, terminaram por impor uma personalidade. My Sister"s Keeper, Uma Prova de Amor, mostra que Nick Cassavetes tem bala para disparar.

É um filme sobre relações familiares, sobre doença, sobre morte. Tudo isso poderia ser já visto, mas de cara Nick mostra que não quer seguir o receituário. Logo no começo de Uma Prova de Amor, Abigail Breslin, a talentosa garota de A Pequena Miss Sunshine, procura o advogado Alec Baldwin propondo uma ação que surpreende o espectador. Ela quer processar seus pais, requerendo autonomia sobre o próprio corpo. A questão é que Anna - é o nome da personagem - foi concebida para prolongar a vida da irmã, que está morrendo de câncer. Desde bebê, seu corpo passou por repetidas cirurgias para ajudar a irmã, Kate, mas agora Anna quer defender o direito sobre si mesma. Não mais cirurgias, não mais sofrimento. Cria-se a tempestade dentro de casa. A mãe, Sara, Cameron Diaz, não entende a reação de Anna nem pensa em desistir de fazer dela a doadora para a próxima cirurgia de Kate. O caso vai ao tribunal. A juíza é Joan Cusack, que acaba de perder a filha. Sara volta a advogar, após um longo período em que só se dedicou à família, isto é, a Kate.

O cinema já contou histórias de mães que odeiam os filhos, de filhos que odeiam os pais. A novidade de Uma Prova de Amor não vem daí. A raridade é essa discussão sobre o direito de uma criança decidir o que fazer com seu corpo. E mais - o que é, afinal de contas, o amor materno, o amor fraterno, e como expressá-lo? Se a história carrega novidades, o formato coral da narrativa vai superpondo e dando voz, sucessivamente, a todos os personagens. Kate, a moribunda, descobre, no próprio hospital, esse garoto por quem se apaixona. Ele é terminal, como ela. Vivem uma terna história de amor e descoberta do sexo, mas ele parte antes que ela. A história da revolta de Anna ganha outro rumo, lá pelas tantas, e vira a revolta de Kate. Por uma vez, o título brasileiro foi bem escolhido, pois é de prova de amor que A Guardiã de Minha Irmã, a tradução literal de My Sister"s Keeper, trata.

Nick Cassavetes inscreve seu filme no que não deixa de ser uma tendência forte do cinema neste ano - O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher, e A Partida, do japonês Yojiro Takita, que venceu o Oscar de melhor produção em língua estrangeira, já investigaram os limites da vida e da morte, do tempo e da arte. A rigor, Uma Prova de Amor não é tão bom. Nick Cassavetes talvez escorregue no melodrama, ou não resolva sempre em altíssimo nível os problemas de sua narrativa com múltiplos pontos de vista. Mas ele assimilou uma lição de seu pai, que acreditava que um cinema de personagens só se faz com a cumplicidade dos atores. Cameron Diaz surgiu como pin-up há 16 anos. Lembram-se dela como o alívio romântico de O Máskara, com Jim Carrey? Cameron já mostrou talento dramático em outros filmes, mas aqui carrega um papel difícil, que é o da mãe obcecada, que fecha os olhos para tudo ao redor, ao se fixar num só objetivo. Pois não é só a saúde de Kate que se deteriora, é a própria família que começa a se desintegrar em face dos obstinados esforços de Sara.

Chega o momento em que a melhor prova de amor é a desistência. Toda a arquitetura dramática do filme converge para que Nick Cassavetes retome um tema similar ao de Mar Adentro, de Alejandro Amenábar, com Javier Bardem. Uma Prova de Amor é adaptado de um livro - de Jodi Picoult - que foi best seller nos EUA. Propõe a restauração dos laços familiares pela morte, um tema ao qual Nick Cassavetes tem sido sensível, como "autor". Jodi também é - em outro livro, Tudo por Amor (lançado no Brasil), ela mostra até onde vai outra mãe em defesa do filho, vítima de pedofilia. Pode ser que essa prova de amor não seja para todos os públicos. Com os defeitos que possa ter, o filme oferece ao espectador a oportunidade rara de uma experiência estética e humana. Será uma pena se você resolver não desfrutá-la.

Serviço

Uma Prova de Amor (EUA/2009, 109 min.) - Drama. Dir. Nick Cassavetes. 12 anos. Cotação: Bom

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