''Nesse negócio não existe fórmula''

Tom Hanks diz que cada filme tem seus riscos e garante que Anjos e Demônios é melhor do que O Código Da Vinci

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, ROMA, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

Na continuação da entrevista, Tom Hanks fala sobre a parceria com o diretor Ron Howard, e também sobre Igreja, romance e seus projetos no cinema.Há mais de 20 anos você e Ron Howard trabalham juntos e em parcerias muito bem-sucedidas. Splash - Uma Sereia em Minha Vida, Apollo 13, O Código Da Vinci e, agora, Anjos e Demônios. O sucesso desses filmes faz de vocês figuras cada vez mais poderosas em Hollywood. Como você avalia a relação com Ron?Ron vive o cinema com intensidade. Ele está nesse meio desde criança, como ator, virou diretor e obteve reconhecimento, mas cada vez que o reencontro é como se fosse para fazer um primeiro filme. Por mais confiante que sejamos, nesse negócio não existem fórmulas absolutas. Cada filme carrega sempre riscos. Colocamos todo nosso profissionalismo, nos cercamos de valores seguros, mas quem garante que Anjos e Demônios fará mais ou menos sucesso do que O Código? Gostaria de acreditar que sim, porque esse filme me parece melhor, mesmo que ainda não o tenha visto inteiro.Robert Langdon é semiólogo, conhece os símbolos melhor do que ninguém. Você, por exemplo, é um símbolo para o público de todo o mundo. Mr. Nice Guy, o Sr. Bonzinho. Não gostaria de mudar essa imagem?E ser o Bad Guy? Vou lhe dizer uma coisa. Vivemos numa era da imagem, em que predomina a retórica. Não é apenas o que você diz que conta, mas quantas vezes você diz até que as coisas sejam aceitas, e isso não tem nada a ver com o fato de serem verdadeiras ou não. Todo mundo se queixa dos políticos e, no entanto, continuamos acreditando ou querendo acreditar neles. Tenho representado Mr. Nice Guy, mas qual seria a alternativa? O cinema, infelizmente, trabalha com estereótipos e o bad guy, em geral, tem menos espaço para que possamos compreender suas motivações. Tirando a trilogia de George Lucas sobre o vilão, em geral ele é uma figura de fundo, um contraponto ao herói. Não digo que Robert Langdon seja ?o? herói, mas se fosse possível entender as motivações de um vilão, sem dúvida que eu gostaria de interpretar um. Mas ser apenas um clichê não é coisa que me atraia.No Código Da Vinci, Audrey Tautou era sua adorável parceira, com sua sexualidade meio infantil, o que somado ao fato de ser a descendente de Jesus explicava uma certa aura de inocência e dava o motivo de vocês não irem para a cama. Mas agora você contracena com Ayelet Zurer, um mulherão. Não é frustrante que o filme, ao contrário do livro, não tenha um pouco de romance?Adaptar um livro é sempre complicado, porque é preciso fazer escolhas. Tentamos encaixar cenas de romance e sexo, mas é complicado. Como na vida, essas coisas exigem tempo. E, ao mesmo tempo, frustrar um pouco a expectativa do público talvez seja interessante. Todo mundo espera, porque é um clichê do cinema, que Robert e Vittoria (Ayelet), tenham um caso. Não creio que o filme se ressinta disso.Mas se houver um terceiro filme da série, como parece que haverá, você terá de ir para a cama com não importa quem. Frustrar o público pela terceira vez pode ser perigoso...Já tentamos extrair detalhes do novo livro de Dan (Brown). Jantamos juntos, mas, quando o assunto cai no livro, ele se fecha e pede para esperarmos até setembro, quando The Last Sygn será lançado. A única coisa que ele disse é que a história se passa em 12 horas. Mas vou levar sua solicitação ao diretor. Uma cena de cama para Robert Langdon, por favor.Você produziu Mamma Mia e a série de Band of Brothers, para a qual também dirigiu alguma coisa. Ser diretor de cinema é um sonho seu?Produzir é uma outra forma de exercitar minha criatividade. É excitante ler um roteiro, um livro e captar seu potencial. É como desenhar maquetes e ver uma delas se transformar numa casa. Mas vou lhe dizer uma coisa. Meu olhar é de ator. Gosto de levar minhas observações ao diretor, mas dirigir é muito complicado, exige uma dedicação muito maior do que a de interpretar. Talvez mais tarde, quando meus filhos já estiverem criados. Não quero levar para casa as preocupações de um dia de filmagem e ficar pensando na do dia seguinte.Mas um ator deve ter suas preocupações diárias, ou não?Sempre digo que criar um personagem é dar-lhe vida, um passado. No caso de Robert Langdon em Anjos e Demônios, esse passado já existe, no Código. Por isso não faria sentido manter a cronologia. Quando Robert chega ao Vaticano, é muito mais interessante apresentá-lo como o cara que virou inimigo da Igreja por causa do filme anterior. Para mim, como ator, é uma delícia, porque com esse passado já construído eu posso avançar em outros aspectos do personagem.Justamente, o fato de Robert Langdon ser um inimigo da Igreja. Houve uma reação muito mais negativa da Igreja ao Código do que a Anjos e Demônios. Mas ontem (sábado) um cardeal declarou à agência Ansa que o filme é anticatólico...A Igreja não colaborou com a realização de Anjos e Demônios e talvez tenha sido melhor assim. O Código Da Vinci podia ir contra muitos dogmas, mas tenho certeza de que, no limite, o saldo foi positivo. Foi o que nos disseram os teólogos e padres que aceitaram colaborar conosco, porque precisávamos de especialistas. Não fizemos O Código contra a Igreja nem contra a Opus Dei. No fim, mais gente se interessou pela Opus, inscreveu-se em suas faculdades e os fiéis continuam indo à missa. O fato de levantarmos questões pode ser estimulante. As pessoas precisam pensar mais sobre sua fé. Aqui, elas vão pensar sobre ciência e religião, que não são excludentes. O mundo mudou. Não podemos ficar presos a velhos dogmas. A Igreja não precisa ficar buscando inimigos onde eles não existem. O repórter viajou a convite da produção do filme

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