Neofrugalismo

Só faltava a lareira - queimando um ecologicamente correto composto renovável, não um galho de árvore, é claro. A chuva gelada batucava na janela, cujo brilho dos vidros era obra desta repórter e não do serviço de limpeza. A manchete do jornal da manhã atirado no sofá oferecia um guia para as melhores barganhas das liquidações. Pelo rádio, esse companheiro aconchegante, a voz bem modulada do locutor anunciava que Nova York vai perder 170 mil empregos em dois anos, só com o crash de Wall Street. No meu colo repousava um casaco impermeável com algum sinal de uso. Pela primeira vez, desde o século passado, eu pregava botões. Descobri que minha caixa de costura, intocada sabe-se lá há quanto tempo, era uma mina de botões.Parei para refletir sobre a cena, inimaginável há um ano.O casaco, depois de perder o último botão, teria sido doado ao Exército da Salvação, ou, no máximo, enviado ao tintureiro para lavagem a seco e novos botões. Preço do serviço: USS$ 40.Nem pensar.O casaco foi alistado para um novo inverno neste mesmo domicílio.A velha máxima biológica - na natureza nova-iorquina nada se conserta, tudo se compra - foi substituída por uma tolerância ao usado, por uma corrida aos variados profissionais que vivem de consertos, como sapateiros.A atração do vício pela virtude é notória. O puritanismo fundou a consciência coletiva deste país, onde o maior feriado do ano, o Dia de Ação de Graças, em novembro, celebra a refeição que marcou a sobrevivência dos colonos pioneiros.Depois de décadas de adoração ao Deus Consumo, o país vem tendo um ataque de frugalidade forçada pela evaporação de 1 trilhão de dólares e a perda de 2 milhões de empregos.A mídia, que já vem de um longo período defensivo com o desaparecimento de jornais e a queda na receita de veículos tradicionais, está numa crise de identidade e conclama o público a não consumir, em oposição aos desígnios dos anunciantes que mantêm a liquidez das empresas.Expressões como "poupar é cool" tornaram-se comuns, num sinal de que a necessidade não é apenas a mãe da invenção, mas também do jargão.Entrei na loja de vinhos e tive uma experiência inédita: ao pedir ajuda ao vendedor para escolher um tinto condizente com meus anfitriões, ele arrancou da minha mão uma garrafa de 15 dólares e depositou outra, de 8 dólares, da qual nunca ouvi falar. Exclamei, na minha aflição ignorante: "Vou insultar um cozinheiro gourmet!" Ele me olhou com enorme condescendência e seu silêncio parecia dizer: "Madame, a senhora ouviu falar dos novos tempos? A loja de vinhos, ameaçada de perder mais fregueses, decidiu nos ensinar a beber mal."O puritanismo aflige até os que não tiveram suas fortunas dizimadas. Aumentou o número de vendas privadas. Socialites são convidadas a uma suíte de hotel. A porta se fecha e produtos de luxo, de jóias a bolsas, podem ser admirados e adquiridos sem a culpa do desfile das sacolas pela Avenida Madison.Acusar alguém de consumo conspícuo é como xingar a mãe.O populismo jornalístico já começou a produzir reportagens sobre os vilões da crise. Elas são enunciadas com narração impecável por âncoras com salários de sete dígitos que não costumavam perder o sono com o fato de que os Estados Unidos têm o maior índice de pobreza entre menores de 18 anos no mundo industrializado. Uma reportagem de TV recente sobre um banco, cujo alto executivo está sob indiciamento por orientar seus investidores a esconder dinheiro no exterior, exibia vários close-ups de copos de champagne clicando em abandono durante um evento cultural patrocinado pelo dito banco, numa associação de alhos com bugalhos que não elucida a evasão de impostos, mas corteja a ira popular contra os privilegiados.Um dos esportes favoritos do Congresso americano é o tiro ao alvo capitalista. Uma comissão convoca um banqueiro, executivo da indústria automobilística ou representante do Federal Reserve ou da Secretaria do Tesouro e atira dardos verbais destes que geram sound bites na TV. Teriam os impolutos membros do Legislativo acabado de desembarcar de Marte, sem o rabo preso de campanhas políticas financiadas por tantos que hoje lhes fazem ferver o sangue? Ou de um mercado financeiro desregulado com a sua cumplicidade?A indignação é legítima. O fim da era de consumo que marcou as últimas três décadas é uma previsão realista.A traição da confiança popular é um fato.O resgate a bancos que especularam como bêbados insensatos é chocante, contraposto às cenas de famílias despejadas morando em seus automóveis ou das filas crescentes de desempregados.Ninguém precisa possuir 25 suéteres de US$ 5 fabricados por cambojanos subnutridos.Mas a demagogia não é uma alternativa e é pior do que a frugalidade e os prazeres adiados ou perdidos. Ela contribui para aumentar a distância do fim do túnel.

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