Galeria Almeida e Dale
Galeria Almeida e Dale

Nem santa, nem popular, Miriam é reavaliada

Sempre classificada de pintora naïf, artista goiana, morta em 1996, ganha mostra na Galeria Almeida e Dale

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2020 | 05h00

O título da exposição por si já é uma provocação: As Impurezas Extraordinárias de Miriam Inez da Silva. A mostra retrospectiva, que será aberta hoje na Galeria Almeida e Dale, com curadoria de Bernardo Mosqueira e assistência de Ana Clara Simões Lopes, reúne mais de 100 obras (pinturas e gravuras) da pintora goiana, que muitos ainda identificam como naïf, classificação rejeitada com veemência pelo curador. Embora reconheça o esforço de críticos históricos como Theon Spanudis (1915-1986) – tido como o descobridor de Volpi – na promoção da carreira da goiana Miriam (1948-1996), Mosqueira discorda da visão do psicanalista, poeta e colecionador de origem turca que teve um importante papel na difusão da arte neoconcreta em território brasileiro.

Spanudis, no texto do catálogo de uma exposição de Mirian (nome então escrito com ‘n’) na extinta Galeria Brasiliana, em 1981, definiu a pintora como a mais importante “primitiva” brasileira ao lado de José Antonio da Silva, descrevendo-a como uma artista que “vive num estado paradisíaco, perenemente purificada do pecado original”. O curador Bernardo Mosqueira não considera que Miriam vivesse num paraíso pré-moral. Antes, para Mosqueira, que falou com o Estadão por videochamada, de Nova York, ela era uma artista cosmopolita, que teve aulas com Ivan Serpa (entre 1962 e 1963, no MAM/RJ), participou de várias bienais e nada tinha de inocente. Antes, foi uma transgressora, garante ele.

“Classificá-la de ‘naïf’ é problemático, é relegá-la a um estado de exclusão, como se Miriam vivesse numa outra dimensão”, justifica o curador. O fato de pintar santos, madonas e anjos barrocos não deve ser entendido, segundo ele, como um certificado de pintura popular ou religiosa. Há uma sofisticação na arte de Miriam que vai muito além de associar seus personagens levitantes a figuras do surrealista franco-russo Marc Chagall (1887-1985), como fez Spanudis. “Durante os 40 anos em que desenvolveu sua prática artística, Miriam construiu um universo encantado e impuro, marcado pelo amálgama entre o banal e o extraordinário”, defende o curador.

Como exemplo, cita uma pintura (título desconhecido) de 1982 que retrata um casamento. Nela, o coroinha parece, segundo o curador, muito interessado – siderado mesmo – nas formas curvas do traseiro do noivo. Em outra pintura, de 1990, sereias são cuidadas pela mãe e, entre elas, destaca-se um tritão algo andrógino, de rosto pintado. “Miriam vivia rodeada de amigos que se vestiam com roupas extravagantes e usavam maquiagem”, conta o curador, que fez a seleção das obras expostas (e produzidas entre 1962 e 1996) com a ajuda da filha da pintora, Sofia Cerqueira, que guardou consigo raros documentos sobre a mãe, de 1950 a 1990 – e alguns deles, como o texto de Spanudis, estão na mostra.

O curador dividiu a exposição em segmentos. Logo à entrada da galeria estão as “pinturas de transição”, como ele chama as obras de inspiração religiosa dos anos 1970, influenciadas pela cultura popular de sua terra natal. Na parede em frente ele reuniu a série dos sete pecados capitais (são oito trabalhos, pois a ira é representada pelo assassinato de um homem e de uma mulher). “Ela nasceu e cresceu em Trindade, cidade goiana, cujo histórico é marcado por relatos de milagres”, conta o curador, observando que Miriam foi seduzida por um conjunto híbrido de crenças que cruzava com liberdade pagã – leituras de tarô, anjos da guarda e ETs.

Um dos eixos da exposição é o imaginário fantástico de Miriam (sereias, pavões misteriosos e homens voadores de franca matriz chagalliana). Outro é a tradição e a família, ao lado de cenas carnavalescas. Miriam era da folia. Ana, a assistente do curador, conta que a pintora um dia se vestiu de Carmen Miranda (1909-1955) – e não foi o único surto tropicalista da artista, marcada pelos ex-votos de Trindade e pela transição de Goiás para a modernidade laica, provocada pela marcha para o Oeste de Vargas. Fruto desse processo de integração promovido pelo Estado Novo, Miriam deixou para trás uma realidade agrária – que retrata em algumas pinturas – para abraçar o meio urbano (ela frequentou a universidade, deu aulas, conviveu com intelectuais e participou de várias mostras internacionais).

Produção pouco divulgada, a xilogravura de Miriam é exibida na exposição. “Esse eixo da mostra destaca a passagem da década de 1960 para a de 1970, em que a fatura é próxima das obras votivas, ou seja, a que marca a transição da rigidez da gravura para a pintura”, diz o curador, insistindo no aspecto libertador que a última teve para Miriam. Ela, de acordo com ele, não idealiza a família nem o casal, apesar da presença ostensiva dessas figuras em sua obra. “Miriam pintou cenas dos livros de Jorge Amado, criticou a hipocrisia familiar e destacou mulheres fora do padrão em suas obras”, conclui Bernardo Mosqueira. Foi, enfim, uma delicada subversiva das tintas.

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