Nei Lopes faz a crítica que fere em Chutando o Balde

Em 16 faixas, compositor de Irajá, no Rio, exercita a vocação política do samba

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

Nei Lopes dá a letra: "A boca mais sábia é aquela que cala/ E que pensa bastante antes da canção." São versos de Dicionário, parceria com Everson Pessoa e um dos 16 sambas de Chutando o Balde (Fina Flor). Pois Chutando o Balde é o resumo do espírito deste trabalho e, por extensão, do samba consciente de Nei Brás Lopes, nascido em Irajá, subúrbio do Rio, há 67 anos. Gravado pela primeira vez por Alcione, em 1972, Nei Lopes pertence àquela estirpe que ensina a fazer samba com algo mais além do coração - o cérebro. E concorda com Candeia, outro compositor de veia política, que dizia ser o samba uma filosofia.Com o tempo, a atitude combativa de Nei Lopes foi percebendo que o ataque cirúrgico às mazelas sociais e humanas é mais importante do que a porrada indiscriminada, é a diferença entre o golpe preciso, que fere mais, e o rombudo, que custa a penetrar. Diz, numa levada rap, a introdução do samba que dá nome ao disco: "Chutar o balde/ É quando a gente/ Está cansado de fazer/ Realizar e acontecer/ Contra a corrente." Para depois concluir que "Tem que saber/ Onde é que o balde/ Vai bater/ Pra coisa entrar/ Sem ofender,/ Suavemente." Nei Lopes sabe que as melhores armas críticas são manuseadas pela inteligência e imaginação.Em Chutando o Balde, com arranjos de Ruy Quaresma, que também produziu Partido ao Cubo (2004), Nei, estudioso da herança africana na cultura brasileira, fala da importância da tradição. "Samba é uma coisa de dentro/ Tem seus fundamentos/ Os seus rituais/ E a gente só penetra essa seita/ E em seu colo se deita/ Quando sabe o que faz", diz Samba de Fundamento, parceria com Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, do Quinteto em Branco e Preto. Com Magnu, Nei compõe Pala pra Trás e continua a tratar de tradição, farol para os sambistas. E não só para eles. Ao criticar os que usam o boné com a aba voltada para a nuca, diz que "A pala é a maior proteção/ Pros olhos e a visão/ Quando a luz é demais". Nei Lopes não está preocupado com o sucesso, mas com a permanência. Intui que, amanhã, vão lembrar do trabalho crítico, e não do artista que pensam ser bom só porque "se avista na televisão."

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