Navegar é preciso, mas não agora

Equívocos prejudicam Noé Noé! Deu a Louca no Convés, de Ivaldo Bertazzo, que centra ação no cais, pouco antes de viagem

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

23 de setembro de 2008 | 00h00

O Teatro Musical Brasileiro proposto por Ivaldo Bertazzo em Noé Noé ! Deu a Louca no Convés, em cartaz no Tuca, parece fazer das origens do teatro de revista em São Paulo a sua referência - um gênero que vem de um primeiro teatro, que se estruturava na forma de uma resenha anual que "revistava" (dava um formato de revista) aos acontecimentos importantes do ano anterior. O compromisso em fazer dos fatos vividos os seus assuntos foi desenhando o seu padrão estético. Os quadros soltos das primeiras revistas, que vêm das formas históricas do teatro popular, são mantidos no formato de comentário e terminam por estruturar o que se tornou conhecido por "tempo de comédia", e que passou a ser uma exigência do gênero: um texto de ritmo ligeiro e com um timing preciso por parte dos atores. Infelizmente, não é o que se vê em Noé Noé.Diz Neyde Veneziano, na página 184 do seu livro O Teatro de Revista no Brasil, que, "optando-se pela revista, optava-se também pela festa que um dia abafaria o texto". E é justamente a relação entre texto e cena que nos faz entender por que não acontece a festa em Noé Noé. No seu caso, o que acaba contaminando a dramaturgia e o roteiro de Adriana Falcão e Nelson Caldas é justamente a impossibilidade de essa festa conduzir a obra por conta de dois fatores: uma grave anemia coreográfica e uma compressão desse teatro ao que ele tem de "típico".As características que consolidaram o Teatro Musical Brasileiro sofreram aquela operação que escolhe alguns traços, geralmente os mais "originais", para representar o todo, configurando uma inversão: o todo desaparece e, no seu lugar, ficam algumas "propriedades singulares". Faltou uma proposta para calibrar uma reinvenção que pensasse o que seria o Teatro Musical Brasileiro de hoje.Talvez tenha acontecido uma associação equivocada entre o que é necessário para formar artistas para esse teatro e o que é indispensável para fazer esse teatro voltar a existir. O desejo de recuperar as habilidades das estrelas dos seus tempos de glória pede não somente por uma pedagogia voltada para essa direção, mas implica também o tipo de formato que esse teatro pode ter. Ou seja, buscar as mesmas habilidades artísticas implica recuperar, sem atualizar, o tipo de espetáculo que as abrigava. Antes, cenógrafos e figurinistas ocupavam um papel importantíssimo, pois cabia a eles a criação de um ambiente capaz de produzir o clima borbulhante de uma festa. No navio-cenário de Marcelo Larréa embarcam o repórter, o cientista, o ventríloquo, o intelectual, Josephine Baker, o modernismo, a nobreza. O ambiente do porto está povoado pelo sindicalista, pelo mecânico, e também pela cafetina, suas prostitutas e o cafetão, todos vestidos por Carlos Gardin. Tem bastante gente, mas a festa não acontece, porque a coreografia se enreda em uma sucessão de situações nas quais o timing se arrasta.Famoso por sua capacidade em lidar com as multidões formadas pelos cidadãos-dançantes que veio inventando ao longo de sua carreira, Bertazzo, quando passou a atuar como diretor e coreógrafo da companhia de teatro-dança que batizou com seu nome, espremeu a taxa de complexidade do que vinha desenvolvendo a um nível escolar. Infelizmente, seu entendimento de espaço se congelou em uma confusão entre ordem e organização.A presença de Celine Imbert poderia ter aberto um outro caminho, pois a ópera, pela sua origem nobre, não fazia parte do gênero revista. Também não bastou juntar a trilha especialmente composta com o arranjo e a adaptação do coro da ópera Madame Butterfly (Puccini), cantado pelo elenco em boccachiusa, com a Melodia Sentimental (Villa-Lobos), com Teach me Tiger (Nino Tempo, April Stevens) e Solitude, de Duke Ellington.É linda a proposta de Bertazzo de formar outros Grandes Otelos, Oscaritos e Carmens Mirandas para, com eles, consolidar o que Margarida Cintra Gordinho chama, no texto que escreveu para o programa, de "teatro musical do futuro, brasileiro e com tempero". Surpreendentemente, porque não combina com a cuidadosa megaprodução de Noé Noé, esse programa contém erros primários de revisão. O empastelamento do texto da última página, por exemplo, ecoa o que se passa em cena, onde as boas intenções também precisam ser reeditadas. Talvez esse navio não possa mesmo ainda zarpar por conta das suas precárias condições de construção. ServiçoNoé Noé! Deu a Louca no Convés. Tuca (672 lug.). R. Monte Alegre, 1.024, 3670-8453. 5.ª a sáb., 21h30; dom., 19 h. R$ 40/R$ 70. Até 19/10

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