Nas telas, boas versões da parábola política desde 1954

A primeira é uma produção da BBC, selecionada entre as 100 melhores do século 20, e a última foi filmada exatamente em 1984

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

O clássico de George Orwell já teve várias adaptações para o cinema desde a pioneira produção da BBC para a televisão, em 1954, tão polêmica que foi debatida no Parlamento britânico e provocou queixas de espectadores, assustados com o "conteúdo explícito e subversivo" do filme. Isso não travou sua brilhante carreira. Há nove anos, essa versão pioneira de 1984 foi colocada entre os 100 maiores programas da televisão britânica no século 20. Dirigida por Rudolph Cartier (1904-1994), cineasta judeu de origem austríaca, aluno de Max Reinhardt, ela antecipa algumas cenas chocantes da mais recente versão, assinada pelo inglês Michael Radford - especialmente as de tortura - , que a Lume Filmes acaba de colocar no mercado em DVD.Em 1956, Michael Anderson dirigiu uma outra versão de 1984 com Michael Redgrave no papel do general O?Connor, correspondente cinematográfico do torturador O?Brien do livro de Orwell, e Edmond O?Brien como Winston Smith. Versão correta, limitada pela Censura da época, que não permitia cenas de nudez ou sexo, a adaptação de Anderson sofre por causa disso, uma vez que um dos temas de Orwell, além da crítica ao totalitarismo, é a repressão sexual imposta pelo Partido - num dos capítulos do livro, O?Brien diz ao burocrata Smith que os neurologistas já estão trabalhando para extinguir o orgasmo do cardápio de Oceania. Essa energia sexual, defende, poderia ser canalizada para a adoração ao Big Brother (afinal, não foi o que aconteceu na Alemanha nazista?)Na versão de 25 anos atrás, que Radford assina, o principal mérito do diretor é o de não ter pretendido fazer da distopia orwelliana um espetáculo. Filmando exatamente no período descrito no livro - isto é, desde o dia 4 de abril de 1984, quando Winston Smith começa seu diário subversivo -, Radford confere à história uma atualidade que afasta de modo definitivo a possibilidade de incorporar metáforas a uma tragédia já em curso, a do perigo da uniformização cultural e política do mundo. Assim, ao optar pela visão de futuro de um escritor (Orwell) que pensa nele como um homem dos anos 1940, Radford troca o exercício formal pelo conceito, obrigando o espectador a se adaptar ao anacronismo visual.Seu filme acerta nesse particular e erra ao assumir o discurso do narrador, negligenciando a importância dos ministérios de Oceania descritos no livro de Orwell - o do Amor, que incita ao ódio, e o da Paz, que promove a guerra. O cineasta, involuntariamente, acaba levando seus espectadores a preferir a leitura de Orwell, pois muitos aspectos de 1984 ficam obscuros em seu filme. Um deles é a origem da língua inventada pelo regime. Outro é a dúvida suscitada pelo monólogo interior final do burocrata condenado. O filme de Radford acaba sendo um suplemento da parábola de Orwell, embora fotografado por Roger Deakins e com ótimas atores (John Hurt e Richard Burton).Quem também se aventurou pelos caminhos de 1984 foi o cineasta Ridley Scott, mais conhecido como o diretor de Blade Runner (1982), outra distopia, escrita por Philip K. Dick e influenciada por Orwell, que igualmente pinta o futuro de negro. Ridley Scott filmou em 1983 um comercial para a televisão americana que apresentava pela primeira vez o computador Macintosh, trazendo uma heroína armada de martelo que tenta salvar a humanidade do conformismo.Os 60 segundos do comercial não são suficientes para mostrar como seria o mundo distópico de Orwell: ele começa numa fábrica, em que operários marcham como soldados hipnotizados, e termina com a libertadora atleta resgatando-os da alienação. Muito otimista. No livro, a rebelde Julia não tem a mesma sorte. Repudiada pelo amante burocrata, ela vira um zumbi, como tantos proscritos de Oceania, olhando com repugnância o malfadado funcionário do Ministério da Verdade, a quem vê pela última vez numa estação de metrô. Orwell não foi o primeiro nem será o último pessimista. Deve ter lido demais Arthur Koestler.

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